Evento realizado nesta sexta-feira reuniu comunidade acadêmica e profissionais da educação básica no campus Montes Claros
Evento foi realizado com o objetivo de conscientizar sobre o transtorno do espectro autista
Foto: Ana Cláudia Mendes I UFMG
No mês de conscientização sobre o autismo, o Programa de Inclusão Convívio e Acolhimento do campus Montes Claros (PRO-ICA), realizou uma roda de conversa com o tema “Autismo no contexto da Educação: desafios na escolarização e no ensino universitário”. “No dia 2 de abril, foi comemorado o dia mundial de conscientização sobre o autismo, uma condição neurodivergente em que existem ainda muitas discussões a serem realizadas. É neste contexto, que o Programa de Inclusão, Convívio e Acolhimento, por meio de um dos seus projetos vem apresentar esta roda de conversa”, explicou a professora Neide Judith, umas das organizadoras do evento, na abertura da roda de conversa.
A professora Neide Judith reforçou a importância de se falar sobre o autismo
Foto: Ana Cláudia Mendes I UFMG
Conhecimento para conscientizar
Francine Fonseca buscou no conhecimento acadêmico a forma de entender o universo da filha autista
Foto: Ana Cláudia Mendes I UFMG
A servidora técnico-administrativa Francine Souza Alves da Fonseca falou sobre sua experiência como mãe de uma menina com transtorno do espectro do autismo (TEA) e também compartilhou informações e dados científicos a respeito do assunto. Licenciada em Química e Ciências Biológicas, mestre em Ciências Biológicas e doutora em Química, com pós-doutorado em Produção Vegetal, Francine Fonseca concluiu este ano, sua especialização em transtorno do espectro do autismo.
Em sua apresentação, a palestrante explicou que a motivou a se especializar sobre o tema. A mãe dela já havia sido diagnosticada com TEA em fase adulta, na terceira idade. Mas o diagnóstico da filha, Maria Fernanda, foi fundamental para que se aprofundasse no assunto. “Eu não sabia nada, absolutamente nada, sobre autismo. Eu tive uma formação capacitista. Muitos de nós tivemos uma formação capacitista. Muitos de nós viemos de escola técnica, a gente foi formado para ser operacional, trabalhar com números, com metas, objetivos. E, de repente, isso tudo é desconstruído. Por isso, eu decidi estudar. Foi aí que eu decidi pesquisar. Comecei a buscar cursos, especializações, mestrado, doutorado”, contou.
Nas buscas, Francine encontrou o curso de especialização em transtorno do espectro do autismo oferecido pela UFMG. “Os professores são docentes com diagnóstico de autismo ou pais de autistas. São pessoas que vivenciam o autismo no dia a dia”, explicou. A formação durou cerca de dois anos e, para a palestrante, foi de extrema importância para compreender o universo da filha.
As leis que garantem direitos da pessoa com TEA também foram apresentadas ao público. “A inclusão social no Brasil é uma ação política, cultural, social e pedagógica que visa garantir o direito a todos os alunos, aprendendo e participando. No Brasil, nós temos muitas conquistas para as pessoas com deficiência. O que a gente precisa é de informação e ajudar as pessoas que estão à frente destas pessoas a fazer protagonistas de uma sociedade muito mais inclusiva. Os marcos legais nós já temos”, finalizou.
Entender a diversidade
A psicóloga Ana Maria Martins destacou que a sociedade inclui a pessoa, mas não o comportamento
Foto: Ana Cláudia Mendes I UFMG
A psicóloga especialista em transtorno do espectro do autismo, Ana Maria Alves Martins, deu continuidade à roda de conversa abordando o TEA na fase adulta. “Quase todos nós vamos lidar com alguma falha em alguma área da vida, seja sentimental, social, profissional. Acontece ao longo da vida. Mas quando a gente fala da pessoa atípica, a tendência é ter um olhar mais capacitista, de reduzir o olhar às dificuldades. Mas eu quero lembrar que todo mundo aqui passa perrengues”.
A psicóloga usou as tecnologias de biopoder criadas pelo filósofo e historiador Michel Focault para ilustrar algumas das dificuldades sociais de convivência com a diversidade. “Focault dizia que nós somos todos organizados aqui para nos encaixarmos em algumas regrinhas. E se alguém foge um pouco à regra, nós voltamos a pessoa para a caixinha. Se o cérebro funciona um pouco diferente, ‘a gente faz voltar para caixinha’. E quando a gente aceita, a gente inclui desde que a criança ou adulto ‘não seja tão autista assim’. Pode ser autista, mas se for um pouco inflexível ou tiver uma crise, ‘não é bem assim porque é nível um de suporte’. Ou um TDAH que fica um pouco mais desatento também ‘não pode’, é incluso mas dentro da regrinha. A sociedade inclui o sujeito, mas não inclui o comportamento”, exemplificou.
Ela destacou também os dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC ) dos Estados Unidos. Segundo o estudo uma em cada 36 crianças foram identificadas com transtorno do espectro autista (TEA) no ano de 2020. “Se uma a cada 36 pessoas tem TEA, quantas pessoas você conhece ao longo da sua vida? Quantos amigos você tem? Quantas pessoas da sua família? Quantos colegas da faculdade, quantos alunos? Provavelmente, você vai encontrar uma pessoa com autismo ao longo da sua vida. E a estimativa do CDCD é de que este número aumente e que uma a cada 30 pessoas tenha o diagnóstico”, finaliza.
Cartilha com orientações
Uma publicação dividida em pequenos capítulos, cujos títulos são verbos, foi lançada no início deste mês por um grupo de estudiosos do Transtorno do Espectro Autista (TEA) na UFMG. A cartilha Minha criança tem características do autismo: o que fazer? é resultado de parceria entre o Programa de Atenção Interdisciplinar ao Autismo (Praia) e a ONG Pequenos Navegantes.
A cartilha foi lançada em 2 de abril, Dia Mundial de Conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista.
(Ana Cláudia Mendes I Cedecom UFMG Montes Claros)