Este trabalho visa dar continuidade ao Programa de Extensão da UFMG, Imagem Canto Palavra no Território Guarani e Kaiowa, do qual participamos como bolsistas. O projeto foi coordenado pela professora Luciana de Oliveira e financiado pelo edital PROEXT/MEC em 2014. Neste âmbito, foram realizadas oficinas de produção audiovisual em duas comunidades indígenas na região de Dourados, MS. Os indígenas participantes das oficinas iniciaram as filmagens para a realização de um filme cujo a temática foi escolhida e discutida coletivamente durante o processo.

Propomos agora voltar a campo, inicialmente apenas na Tekoha Guaiviry, e junto aos mesmos alunos e alunas, dar continuidade ao processo iniciado. O Guaiviry, assim como grande parte do Mato Grosso do Sul, é território histórico dos povos Guarani e Kaiowá. Desde a colonização, esses povos têm vivido uma trajetória de intensa desapropriação e
verdadeiro desaparecimento de seu território como o reconheciam. A Tekoha Guaiviry constitui uma terra de retomada. A palavra, já bastante explicativa, diz respeito a um verdadeiro processo de reocupação de suas terras tradicionais, pelos guerreiros e famílias
Guarani e Kaiowá.

Durante o processo de “aldeamento” promovido pelo SPI (Serviço de Proteção ao Índio) logo no início do século XX, muitas famílias Guarani e Kaiowa foram obrigadas a deixar as terras onde viviam seus antepassados para serem alojadas em reservas controladas pelo Estado.
Impossibilitados de viver seus modos de vida nas pequenas reservas, mesmo com o fim do SPI e as mudanças pretendidas na política indigenista com a criação da Funai, eles passaram a voltar às terras, agora completamente tomadas pela devastação, por fazendeiroslatifundiários, empresas do agronegócio, campos de soja, milho, cana de açúcar e eucaliptos, bem como a pecuária extensiva.
A ineficiência do poder público em demarcar esses territórios, junto ao histórico de violência e preconceito impunes que constrói a história dos índios no Brasil, dá toda a liberdade para
que fazendeiros possam atacar covardemente essas comunidades. No Guaiviry, o assassinato atroz da liderança Guarani Kaiowá, Nísio Gomes em Novembro de 2011, guia as lutas e o desejo de justiça e paz pela comunidade, além de ser parte da história que gostariam de
apresentar a partir cinema.

Conduzidos por esse sentimento, os participantes da primeira etapa da oficina realizaram as filmagens afetados pelo processo histórico de suas vidas, a retomada, fato presente na convivência da comunidade. As imagens produzidas partem dessa afetação e de uma demanda, que vem não só dos alunos mas também de todas as pulsações e latências da tekoha. Foi elaborado um roteiro de entrevistas e reencenação da luta pela retomada inicial de terras do Guaiviry, onde ocorre o assassinato da liderança Nísio Gomes.

Ir à tekoha Guaiviry com o objetivo de dar continuidade ao processo desse importante filme em potencial, parte da preocupação em fortalecer a luta desse povo e em dar continuidade a importante relação que acreditamos aparecer, entre o povo Kaiowa e as imagens. Partindo da reflexão elaborada por Roy Wagner (2010) em A Invenção da Cultura, entendemos o processo da oficina como um processo inventivo em que, na relação com as imagens criase, aprendese e inventase
cultura.

Objetivo Geral

Por meio da produção audiovisual, dar luz à importante luta dos Guarani e Kaiowá pela demarcação de seus territórios e pelo respeito por seus modos de ser, realizando uma nova etapa da oficina de produção audiovisual na tekoha Guaiviry com vistas a dar continuidade ao filme em processo.

Objetivos Específicos

  • Realizar no período entre 01/07/2016 e 01/08/2016 oficina de montagem junto á comunidade indígena do Guaiviry – Amambai/MS
  • Capacitar, jovens nas aldeias Guarani e Kaiowá nas linguagens e operação técnica de produção cinematográfica
  • Realizar a tradução e legendagem do material bruto filmado na primeira etapa da oficina
  • Produzir um documentário de linguagem híbrida com duração de aproximadamente 40min que aborde a luta pelas terras tradicionais dos Guarani e Kaiowá
  • Realizar aproximadamente 10 (dez) sessões noturnas de cinema para toda a comunidade indígena, exibindo além do material bruto outros filmes que possam interessar os moradores.
  • Trabalhar o uso da produção audiovisual como forma de elaboração de projetos de reconquista da autoestima, registro das práticas culturais e produção de imagens com força política.
  • Dar a ver à sociedade brasileira a difícil situação de vulnerabilidade que os guarani enfrentam na luta pela terra.
  • Promover entre equipe e indígenas Guarani Kaiowá oportunidades de
    (re)conhecimento recíproco e de experiência simétrica de produção de conhecimentos.

Aproximadamente entre os meses de outubro e novembro de 2016, veicular 3 sessões comentadas e gratuitas do filme resultado da oficina no Campus UFMG:
FAFICH (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas)
FAE (Faculdade de Educação)
Gramado da reitoria.

Abrangência

É importante ressaltar que se tratando de um projeto de capacitação e formação, o público alvo deste programa é, especialmente, os alunos e alunas indígenas participantes da oficina.

Contudo, a incursão em campo mobilizará os povos da Terra Indígena Retomada do Guaiviry (MS) como um todo além de comunidades vizinhas, por haver filmagens na região e sessões de cinema abertas à comunidade.

Ao retornar à Universidade o projeto continua, porém, em outro formato. O produto das oficinas em campo, o filme do Guaiviry, será veiculado na UFMG em sessões comentadas por mestres indígenas da aldeia de atuação, abertas e gratuitas, abrangendo toda a comunidade acadêmica. Ademais, a defesa do trabalho de conclusão de curso, fruto desse projeto, é também um evento público.

Além disso, de junho à dezembro do ano corrente a Página no Facebook do projeto, que teve um alcance médio semanal de 2050 pessoas em sua primeira edição em 2014, voltará a funcionar com frequência semanal de publicações, abrangendo mais pessoas interessadas no
assunto.

Justificativa

A proposta de realização audiovisual por jovens Guarani e Kaiowá dá força à urgente necessidade de garantir visibilidade aos conflitos que os envolvem, conflitos estes relacionados ao território e que têm agravado o genocídio histórico desses povos. É preciso destacar que a invisibilidade é uma força opressora da causa Guarani e Kaiowá, quiçá mais poderosa que todas as demais e estrategicamente usada para ocultar a questão do escrutínio
público em âmbito nacional. Essa questão nos interessa, pois dialoga de perto com os objetivos propostos no Programa e o escopo da presente proposta. Um quadro de contornos tão flagrantes de violação de direitos humanos, mereceria maior visibilidade para que pudesse ser, de fato, objeto de atenção da população brasileira, de autoridades governamentais, de apoio das universidades, dos movimentos sociais e de atores internacionais.

A Constituição de 1988 impôs ao país o desafio de construir um novo modelo de cidadania, inclusiva em relação às diferenças. A diversidade cultural, neste novo paradigma nacional, há de ser valorizada, e a lei 11.645 de 2008 já apontou a necessidade de que o ensino sobre as culturas e histórias indígenas seja efetivamente integrado aos nossos currículos escolares. Só o maior conhecimento sobre as culturas indígenas trará maior respeito a esses povos que são importantes elementos na formação de nossa nacionalidade. Acreditamos que a possibilidade de produção de materiais sensíveis como as imagens, capazes de inscrever e registrar esses elementos culturais, o cotidiano e as histórias produzidas e inventadas pelas pessoas que
vivenciam essas cosmologias é alternativa necessária para uma nova e mais honesta construção de um imaginário em relação à eles.

Vinculada a este viés está a possibilidade da inscrição de olhares e narrativas próprias e que partem de dentro da comunidade. A produção cinematográfica indígena, apesar de recente, têm crescido e se complexificado, deslocando muitas vezes os espectadores desses filmes de seus lugares de conforto e propondo, não apenas uma nova forma de se olhar para esses povos em sua diversidade, mas também uma nova maneira de se pensar o cinema. Os filmes
indígenas têm aportado papel inovador às teorias da imagem e do cinema, sendo objetos de pesquisa para muitos estudiosos das áreas da antropologia, comunicação e educação, principalmente.
Projetos de oficinas audiovisuais junto à comunidades indígenas, como o proposto no presente edital, têm contribuído significativamente em assegurar a continuidade e a difusão das importantes produções cinematográficas indígenas. Mais do que a possibilidade de realização pelos povos indígenas, as oficinas fomentam a produção independente, como é o caso dos já consolidados Coletivo Kuikuro de Cinema e o Coletivo Mbya Guarani de
Cinema, coletivos que se iniciaram em oficinas e que hoje produzem filmes de forma autônoma. Aqui, vale citar o trabalho da ONG Vídeo nas Aldeias, projeto pioneiro em realizações de oficinas dessa espécie e que, desde a década de 80 vêm empreendendo projetos de formação em cinema em diversos povos indígenas no país.

Em Minas Gerais, destacamos as produções desenvolvidas pelos indígenas Maxakali da região de Teófilo Otoni, tendo o cineasta Isael Maxakali como um forte representante das produções audiovisuais desses povos em festivais de cinema e afins.

A Universidade Federal de Minas Gerais tem demonstrado forte apoio a essas iniciativas através de programas como o forumdoc.UFMG, o surgimento da Associação Filmes de Quintal e as Disciplinas de Saberes Tradicionais que contemplam aspectos das cosmologias indígenas muitas vezes evidenciadas através do audiovisual. Outros trabalhos importantes no que tange a aproximação da universidade junto aos povos Maxakali são os desenvolvidos
pela professora da escola de música Rosangela Tugny, como o “Imagem Corpo Verdade” que resultou na publicação de um livro sobre a cosmologia desses povos. Portanto, esse projeto toca no que concerne o âmago da UFMG, visto que abrange os três pilares da universidade: ensino, pesquisa e extensão. O eixo da proposta aqui apresentada é colocar o conhecimento produzido em pesquisas e atividades de ensino na UFMG a serviço da melhoria de condições de vida das comunidades pesquisadas e de seu entorno, neste nosso
caso, usando o reconhecimento cultural como forma de combater o preconceito étnicoracial.