Especialistas avaliam seis meses de pandemia

Cinco membros do Comitê participaram do webinar
Cinco membros do Comitê participaram do webinarRaphaella Dias/UFMG

Seis meses após a suspensão das atividades presenciais por causa da pandemia de covid-19, a UFMG reconhece que algumas atividades, anteriormente fora do rol das essenciais, que não se adaptam à execução remota precisam ser planejadas e receber investimentos adequados para seu retorno planejado e gradual, em cumprimento ao relevante papel social que exercem na sociedade.

A afirmação foi feita pela professora da Faculdade de Medicina Cristina Alvim, coordenadora do Comitê de Enfrentamento ao Novo Coronavírus da UFMG, durante o webinar Como estamos após seis meses do início da pandemia?, realizado nesta sexta-feira, dia 18. A apresentação foi transmitida pelo canal da Coordenadoria de Assuntos Comunitários (CAC) no You Tube, onde continua disponível.

“Sabemos que a ciência não pode ser apressada e precisa de tempo para propor soluções, como a vacina contra o novo coronavírus. Portanto, enquanto uma vacina eficaz não chega para toda a população, precisamos manter o compromisso com a vida e com a segurança, com discussões permanentes e abertas e com a divulgação responsável do conhecimento científico, para que a apropriação desse conhecimento pela sociedade torne possível o entendimento para o enfrentamento conjunto da pandemia”, afirmou.

Um dos participantes do webinar, o professor da Faculdade de Medicina Unaí Tupinambás defendeu que as escolas de educação básica sejam consideradas atividades essenciais. Ele citou estudos que mostram que milhares de crianças no Brasil e no mundo são vítimas da violência doméstica e sofrem com a redução do suporte nutricional, de saúde e de amparo oferecido pelas escolas.

Unaí Tupinambás:
Unaí Tupinambás: “escolas devem ser consideradas atividades essenciais”Raphaella Dias/UFMG

“Apenas uma vacina eficaz, esterilizante, como a do sarampo, por exemplo, seria capaz de conter esta pandemia. Como as projeções indicam que as vacinas em desenvolvimento oferecerão 70% de proteção, mas não serão esterilizantes – o que significa que teremos de conviver com ondas de contaminação pelo Sars-Cov-2 –, então não podemos ficar na caverna, esperando essa vacina. Temos que construir, agora, um consenso sobre as readequações possíveis para um retorno futuro, planejado, gradual e seguro”, defendeu o infectologista, que integra o comitê de monitoramento do coronavírus instituído pela Prefeitura de Belo Horizonte

Portanto, o “quando retornar”, explica Tupinambás, está condicionado à adoção de mecanismos para impedir o avanço da doença na comunidade e nas escolas. Ele apresentou métricas divulgadas pelo CDC [Centers for Disease Control and Prevention ), que considera válidas e essenciais para esse planejamento do retorno às atividades presenciais.

Cinco estratégias
Entre elas, o infectologista destacou a capacidade de as escolas implantarem cinco estratégias de mitigação ao contágio da covid-19: uso de máscara, distanciamento social, higiene das mãos e etiqueta respiratória, limpeza de banheiros, onde comprovadamente há grande risco de contágio, e capacidade de rastrear parceiros nos serviços locais. “Acredito que, se todas essas medidas forem implementadas, em associação com os indicadores secundários, já usados pela Prefeitura de Belo Horizonte, como números de novos casos, número de leitos ocupados e ocupação de leitos de CTI, poderemos trabalhar com a perspectiva de risco baixo a risco moderado no retorno”, afirmou.

Tupinambás também mencionou estudos realizados na Inglaterra e Alemanha, que revelam a contaminação de novos casos, entre jovens abaixo de 20 anos e em crianças, abaixo do número de novos casos entre os estudantes que não retornaram às aulas presenciais.

Unaí Tupinambás também apresentou sugestão, baseada no protocolo de biossegurança proposto pelo Comitê Central da UFMG, sobre o que fazer para esse retorno presencial:  “Da experiência com o combate ao HIV, podemos tomar emprestadas as medidas de prevenção não farmacológicas combinadas. No caso da covid-19, a manutenção do distanciamento social, o uso de máscara e higienização das mãos”.

Esses protocolos sanitários, reiterou o professor, devem ser estabelecidos desde já, sempre respeitando as individualidades, como resposta imediata para conter novos surtos e para que se estabeleça um consenso, pelo menos no que diz respeito ao enfrentamento da covid-19, sobre a necessidade de investimentos em educação, saúde e transporte público. “Por isso, a derrubada da Emenda Constitucional 95, que limita investimentos nessas áreas, é fundamental”, defendeu.

Autoavaliação

Enfermeira Catarina Coelho orienta autoavaliação
Enfermeira Catarina Coelho: quatro perguntas fundamentaisRaphaella Dias/UFMG

Segundo a enfermeira e integrante da equipe de direção do Departamento de Assistência à Saúde do Trabalhador (Dast),Catarina Coelho, ao se pensar em retornar às atividades presenciais, a primeira coisa a fazer é saber identificar o que é um caso suspeito da doença, com base nas recomendações das organizações de saúde. Segundo ela, o protocolo de biossegurança da UFMG recomenda o exercício da autoavaliação, baseado em respostas a quatro perguntas fundamentais: “no momento, apresento sintomas de covid-19 ou de outra doença infecciosa; apresentei doença ou sintomas sugestivos de covid-19 há menos de 14 dias; apresento condição de vulnerabilidade, como idade superior a 60 anos, doença crônica, como cardiopatias, hipertensão, diabetes, gravidez; alguém de meu convívio teve diagnóstico de covid-19 confirmado há menos de 14 dias?”.

Se a resposta for afirmativa para uma das perguntas, a recomendação é de que a pessoa permaneça em casa, protegendo outras pessoas com o isolamento social, usando máscara e fazendo constante higienização das mãos. Ela também deve recorrer aos serviços de saúde caso tenha sintomas mais graves. S for servidora da UFMG, deve comunicar à chefia imediata, que oficialmente comunicará ao Dast.

A enfermeira enfatiza que essa notificação oficial, conforme orienta o ofício circular nº 21, de 8 de julho de 2020, é fundamental para que a Universidade tenha dados para compor um monitoramento de sua comunidade acadêmica, como o levantamento de atendimentos e casos suspeitos e confirmados nesse período.

Segundo a enfermeira, o serviço de telemedicina oferecido pelo Sast registrou, de abril até agosto, 389 atendimentos, com registro de 65 casos de covid-19 confirmados. Destes servidores, 75% eram do sexo feminino e 65% acima de 40 anos de idade. A maioria dos casos foi registrada entre os servidores da área de enfermagem, lotados no Hospital das Clínicas.

Notificação
No levantamento realizado, Catarina Coelho destacou algumas “curiosidades”, que segundo ela, revelam a importância da notificação ao Sast, para que um planejamento e acompanhamento adequado dos serviços de saúde sejam realizados.

De acordo com os dados da telemedicina, 66% dos servidores afirmaram ter contato com pacientes ou colegas com casos confirmados, mais de 50% negaram ter tido contato domiciliar com outras pessoas e mais de 70% afirmaram ter tomado vacina contra a influenza.

Na perícia médica oficial, que registrou 579 atendimentos, 20% dos afastamentos no período foram por causa de doença respiratória, mas 14% por causa de transtornos mental e comportamental. “Esse dado é relevante para planejarmos nossa política de saúde, com foco também na saúde mental, que nos últimos anos tem-se mantido como a segunda causa de afastamentos dos servidores”, observou.

Testes diagnósticos

Flávio Fonseca explicou os tipos de testes e para quem são indicados
Flávio Fonseca explicou os tipos de testes e suas particularidadesRaphaella Dias/UFMG

O professor do ICB e pesquisador do Centro de Tecnologia em Vacinas (CT-Vacinas),  Flávio Guimarães da Fonseca, reiterou a importância dos testes diagnósticos para o monitoramento da covid-19. Entretanto, chamou atenção para a importância de se elaborar  perguntas adequadas para serem respondidas pelos dois grupos de testes disponíveis.

Segundo Flávio Fonseca, um grupo de testes detecta, pela metologia PCR, vírus ou partículas virais. Esse modalidade vale-se do método de coleta pelo swab (espécie de cotonete longo introduzido na boca e garganta), requer análise em laboratório e cerca de 12 horas para emitir o resultado. Esse tipo de teste responde as seguintes perguntas como: estou infectado, represento risco para outras pessoas?

O segundo grupo de testes detecta a presença de anticorpos produzidos pelo organismo exposto ao vírus e é importante para o monitoramento de uma comunidade. De caráter sorológico, como o Elisa, analisa amostra de sangue do paciente, ou o teste rápido, cuja testagem visual tem grande probabilidade de gerar resultados falsos negativos. Eles respondem às perguntas: já fui contaminado?, estou imune?, estou apto a trabalhar em condições de risco?.

O professor destacou ainda a importância de saber para quem o teste é indicado e como testar. Em caso de retorno de atividades presenciais na UFMG, ele afirmou que os sete laboratórios que integraram a rede de diagnóstico dos serviços de saúde do Estado deverá fazer o monitoramento da comunidade. “Em razão da logística e da própria capacidade de análise, inicialmente os sintomáticos serão testados”, ponderou.

 Rede hospitalar

Alexandre Ferreira da Faculdade de Medicina: desafios para rede hospitalar
Alexandre Ferreira da Faculdade de Medicina: desafios para rede hospitalarRaphaella Dias/UFMG

O professor da Faculdade de Medicina Alexandre Rodrigues Ferreira expôs as ações adotadas pelo Hospital das Clínicas e pela rede hospitalar do SUS, que em pouco tempo adequaram-se ao atendimento dos pacientes com covid-19.

Segundo ele, desde abril o desafio posto foi a preparação para a chegada do pico da pandemia, que se efetivou entre junho e julho. Esse trabalhou envolveu desde a separação do fluxo dos pacientes, ao cancelamento das consultas e cirurgias eletivas, passando pela aquisição de EPIS, treinamento e remanejamento de equipes e atendimento humanizados dos pacientes e familiares.

A estruturação da rede, segundo o professor, foi e continua permanente, para atender tanto à demanda de pacientes com covid-19 quanto de doenças crônicas, urgências e emergências.

Um desafio que permanece, na avaliação de Alexandre Ferreira, é a defasagem no quadro de servidores, que atingiu 30% no período do pico da curva e atualmente se encontra em 20% por causa de afastamentos pela própria doença e das pessoas pertencentes a grupo de risco. A revisão semanal de planos de contingenciamento, a revisão de protocolos, a realocação e recomposição de equipes, a necessidade de retomar atividades eletivas, inclusive nos ambulatórios, continuam sendo fatores de preocupação.

Quanto ao ensino na área da saúde, o professor afirma que é necessário redimensionar espaços, escalonar equipes, manter educação continuada para prevenção, estágios em clínica cirurgia e terapia intensiva e atendimento de pacientes sem uso de máscara, como em consultas ao otorrinolaringologista, exigem planejamento conjunto com a comunidade para identificar surtos e ajustar rotinas no campo de estágios.

Teresa Sanches

É preciso repensar o tempo

Conceição Evaristo
Conceição Evaristo foi professora na UFMG em 2013Foto: Arquivo pessoal

Maria Vicêncio ouviu as palavras de Nêngua Kainda e concordou. Para que desafiar o tempo, aconselhava a Velha, com a sua voz sussurro, feita mais de silêncios falantes do que de sons. O humano não tem força para abreviar nada e, quando insiste, colhe o fruto verde, antes de amadurar. Tudo tem o seu tempo certo. Não vê a semente? A gente semeia e é preciso esquecer a vida guardada debaixo da terra, até que um dia, no momento exato, independentemente do querer de quem espalhou a semente, ela arrebenta a terra desabrochando o viver. Nada melhor que o fruto maduro, colhido e comido no tempo exato, certo.

Com esse trecho de Ponciá Vicêncio, seu mais famoso romance e um dos mais importantes livros da literatura brasileira contemporânea, Conceição Evaristo ilustrou o tema da sua conferência no 52º Festival de Inverno UFMG, ministrada na entrada da noite desta quinta-feira, 17: o tempo. Sob a mediação de Marcos Antônio Alexandre, professor da Faculdade de Letras, a escritora belo-horizontina radicada no Rio de Janeiro disse que participar do Festival, mesmo a distância, era como “retornar a Minas, retornar a casa”. “E também pela relação afetiva que tenho com vários amigos e professores da universidade, como o Marcos Alexandre”, disse ela, que foi professora da Universidade em 2013.

Em palestra de menos de uma hora, mas seguida de intensa troca de ideias com as centenas de alunos, professores e leitores que participaram da atividade, a escritora tratou quase que exclusivamente da temática temporal, em uma perspectiva que transitou entre a literatura, a filosofia e a política econômica – mais especificamente, abordou a experiência capitalista em tempos de pandemia e as possibilidades de reinventar esse tempo, de reestruturá-lo, por meio da atuação micropolítica.

Conceição Evaristo fez uma conferência centrada na ideia de que imaginar qualquer “mundo possível” – tema da atual edição do Festival de Inverno – para a vida pós-pandemia passará necessariamente por imaginar – e defender, fomentar, fazer acontecer – uma nova relação do ser humano com o seu tempo interior e com o tempo capitalista. “Pensar no tempo, repensar o tempo vai ser o primeiro exercício para pensar esse mundo possível”, disse. Para Conceição, “esse momento de adoecimento global veio mostrar que o mundo que a gente vivia, a vida que a gente vivia, e tomava como normal, não era um ‘mundo possível’ – tanto é que todos nós perdermos o chão”.

Sua mensagem, nesse sentido, foi a de que o tempo presente demanda mais do que nunca que busquemos formas “alternativas” de resistir ao jugo do capitalismo, que faz de todo tempo um tempo de produção – e que, onipresente e culturalmente dominante, talvez só possa mesmo ser enfrentado por meio de ações de resistência localizadas, individuais e pequeno-coletivas. “Que cultura produz o nosso modus vivendi moderno? É a cultura capitalista, sem sombra de dúvida. A pergunta então seria sobre como pensar outros modos de vida em um mundo que, de fato, é extremamente capitalista”, insistiu, convocando o público a refletir sobre a necessidade de não se buscar nem um retorno ao antigo normal nem a instauração do “novo normal”, mas uma revisão abrangente do caráter impossível do modo de vida capitalista estabelecido para si pela humanidade moderna.

Alguns trechos da apresentação da escritora estão resumidos a seguir:

Legenda
Conceição Evaristo e o professor Marcos Alexandre (abaixo) durante a live: necessidade de manter o dinamismo pré-pandemia
Imagem: Raphaella Dias / UFMG

Tempo (não) é dinheiro
“Por que inicio minha fala dizendo do tempo? Porque, nesse estilo [capitalista] de vida em que vivíamos até agora, era corrente esse pensamento de que tempo é dinheiro, era corrente dizer que o tempo valia dinheiro. Porém, esse mundo era um mundo de vida e vivência impossíveis para várias pessoas, de vida e vivência impossíveis para vários mundos. Vou ser mais explícita: o mundo de um país capitalista é um mundo que torna impossível a vida e a vivência dos mundos que estão sendo explorados pelo capitalismo”, disse, exemplificando essa ideia com os povos indígenas e quilombolas. “Então a questão é: como pensar um ‘mundo possível’, se as nossas referências vêm desse mundo impossível em que a gente vivia? Como vamos ficar livres desse paradigma de organização da vida que se baseia na ideia de que tempo vale dinheiro, de que temos de produzir, de que não podemos parar de produzir?”

Menos respostas, mais perguntas
“Neste momento, a humanidade inteira está se perguntando sobre o futuro, sobre ‘mundos possíveis’. Com certeza, eu também tenho muito mais dúvidas e questionamentos que respostas sobre o que seria esse mundo possível. Mas acho que, para pensarmos esse mundo possível, antes de tudo teríamos de fazer uma revisão sobre a forma como nós pensamos o tempo”, insistiu. “Porque eu não vejo como vencer essa estrutura, em termos maiores. Mas eu acredito que a gente possa, como sujeitos individuais, e como coletivo, criar formas alternativas de romper com esse paradigma capitalista, que é o que a gente tem feito até agora; tudo o que a gente faz é nas brechas. Então, em termos individuais, a gente pode fazer alguma coisa sim. Como pessoas, a gente pode participar de frentes de luta para diminuir determinados efeitos ao nosso redor.”

Tornar-se humano
“Até então, tudo significava produção. E, quanto mais se produzisse num curto espaço de tempo, melhor era ainda. Mas que necessidade é essa que temos de ‘preencher o tempo’? As pessoas têm falado muito que a pandemia está nos fazendo mais humanos. Ora, como a gente poderia ter então um mundo em que a gente saísse às ruas e só encontrasse ‘humanos’? Como seria isso? Talvez isso pudesse se dar a partir da nossa própria conversão em pessoas humanas”, provocou.

Cultura do supérfluo, afã de produtividade
“Para muitas pessoas, talvez para muitos de nós, essa pandemia nos trouxe também a consciência de que o mundo capitalista vivia de produzir o supérfluo – e também na cultura: nós comprávamos esse supérfluo e pensávamos que não viveríamos sem ele. Então, a pergunta é: no mundo que vamos criar, será que vamos continuar comprando esse supérfluo, será que vamos continuar produzindo esse supérfluo? Eu pergunto como criar outros modos de vida, outras estruturas possíveis dentro do sistema capitalista”, disse. “Porque não podemos pensar o capitalismo longe de nós: também estamos viciados [nele]. Vejo muito professor, por exemplo, falando ‘a gente tem de produzir, a gente tem de produzir, a gente tem de produzir.’ É texto para a revista tal, a quantidade de bancas etc. Então é preciso perceber que o vício capitalista também já nos contaminou profundamente [referindo-se à academia e às artes].”

Capitalismo: o exemplo das lives
“Um exemplo de como estamos viciados [no modus vivendi capitalista, de natureza produtivista] são essas nossas maneiras de produção no mundo virtual [remetendo indiretamente à própria live que foi convidada a fazer]. Sério, tem gente que vai morrer de tanto fazer live. Falo porque corro esse risco”, ri. “Hoje, como a palestra não pode ser ao vivo, como não podemos dar aulas, achamos que temos de manter, de alguma forma, esse dinamismo que tínhamos. Então eu acho que a gente precisa fazer uma revisão muito grande [desse afã produtivo] tanto no plano individual como no plano de organização da cidade, da gerência política. É necessária uma revisão também das filosofias de educação, das nossas estruturas acadêmicas. Essa dinâmica que vimos até agora é de uma estrutura capitalista em que uma pessoa é medida pela quantidade de produção. Às vezes, não é nem pela qualidade, mas pela quantidade de produção. Para pensar em outro mundo possível, teríamos de romper [dentro de nós] com essa práxis capitalista.”

Ewerton Martins Ribeiro

Experimento mundial cria bases para inserção do cidadão comum nos debates científicos

Escolhido para o projeto, o tema da edição genética tem profundas implicações morais
Escolhido para o projeto, o tema da edição genética tem profundas implicações moraisAlice Mollon

É preciso criar condições adequadas de informação e discussão para que as pessoas reflitam conjuntamente sobre temas complexos. Esse é o pressuposto que uniu pesquisadores ao redor do mundo em um experimento global que tentará integrar leigos em debates científicos com profundas implicações morais. O tema escolhido para o projeto foi o uso da edição genética, técnica que possibilita a alteração de trechos específicos do DNA de organismos para vários fins. As ideias que alicerçam o experimento foram publicadas em artigo nesta quinta-feira, 17 de setembro, na Revista Science.

Responsáveis por organizar o braço brasileiro do projeto Global Citizen Deliberation on Genome Editing, os professores da UFMG Ricardo Fabrino Mendonça, do Departamento de Ciência Política, e Yurij Castelfranchi, do Departamento de Sociologia, integram grupo formado por profissionais de áreas diversas. Vinte e duas instituições de dez países contribuirão para abarcar as necessidades de cada continente com suas particularidades.

“Estamos falando de questões que afetam o planeta e a humanidade. Temas complexos não são balizados por fronteiras nacionais. Eles requerem a ponderação coletiva sobre os rumos do mundo. Justamente por isso, é importante fomentar possibilidades de participação para que pessoas de diversos continentes possam pensar conjuntamente sobre o futuro”, salienta Ricardo Fabrino. Embora haja uma tradição de inovações participativas semelhantes ao experimento proposto no artigo, que remontam aos Estados Unidos e à Europa dos anos 1970, o projeto é único pelo escopo e amplitude transnacional.

Como explicam no artigo, os especialistas estão se mobilizando para organizar Assembleias de Cidadãos e, em seguida, uma Assembleia Global de Cidadãos. A ideia é que a colaboração seja particularmente importante para considerar os aspectos éticos e sociais das técnicas científicas emergentes. Os eventos locais ocorreriam entre o fim de 2020 e o início de 2021, mas, com a pandemia, o projeto precisará ajustar o cronograma a diferentes contextos. Até o momento, a assembleia global está prevista para uma data entre o fim de 2021 e abril de 2022.

Participarão 110 pessoas ao longo de cinco dias, em seis línguas, conforme detalha Fabrino. “Essas pessoas integrarão fóruns mais amplos com todos os participantes, sessões informativas e discussões em dez grupos. As pessoas vão refletir conjuntamente sobre riscos, implicações, potenciais, necessidades e cenários.”

Ricardo Fabrino:
Ricardo Fabrino: ponderação coletiva sobre os rumos do mundoRaphaella Dias / UFMG

Os integrantes da Assembleia Global derivarão das nacionais, que, por sua vez, serão formadas levando em conta diversidade e aleatoriedade. “Não se visa a uma amostra absolutamente representativa das opiniões já existentes sobre o tema, até porque ele é pouco discutido, mas à composição de uma amostra diversa que possibilite a cidadãos leigos, com diferentes características e backgrounds, abordar um tema com implicações profundas”, complementa o professor.

Por que discutir ciência?
Segundo Yurij Castelfranchi, integrar os cidadãos de todo o mundo no debate de temas considerados complexos é fundamental por três razões. “Estamos vivendo em democracia, o que significa que o povo tem poder. Em particular, o poder de contribuir com as decisões sobre como viver em conjunto. E hoje nossas democracias são técnico-científicas, porque funcionam e se modificam por meio da ciência e da tecnologia. Quase nenhuma decisão política importante está totalmente externa a esse território”, explica.

Por isso, como define o professor, a primeira razão do experimento é criar uma cidadania científica. Se todos os debates políticos importantes são atravessados por dados e hipóteses baseadas na ciência e na tecnologia, e se é necessário decidir sobre temas relevantes para toda a população e para a democracia, como fontes de energia, alimentos, mudanças climáticas e vacinas, é fundamental que as pessoas comuns se apropriem dos assuntos e se tornem cidadãos científicos.

“Pode parecer utópico e demagógico, mas, se você pensar bem, as pessoas já estão fazendo isso, já estão tomando decisões sobre suas vidas ou políticas que afetam todo mundo. As pessoas decidem o que fazer com transgênicos, com vacinas e com seu consumo em geral todo dia, em seus papéis como pais, eleitores etc. Então, já são cidadãos científicos, tendo ou não conhecimento. Precisamos construir urgentemente uma cidadania mais formada, qualificada, com instrumentos para essa discussão comum”, avalia.

Para Castelfranchi, que é também um dos idealizadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT), o segundo motivo para experiências como essa fica evidente diante da pandemia de covid-19, que destacou a gravidade da catástrofe da infodemia, da pós-verdade, da desinformação e das teorias da conspiração.

“Muitos cientistas, políticos e jornalistas estão dizendo ‘precisamos levar a ciência para as pessoas, fazer que elas entendam, trazer uma boa informação contra a desinformação’”, diz o professor. “Só que isso se faz há décadas e temos muitas evidências empíricas que mostram que a divulgação científica tradicional é insuficiente para construir a cidadania científica. Hoje sabemos, melhor do que antes, que é importante engajar as pessoas em processos de participação real na ciência. Conhecê-la de perto é a melhor vacina contra as fake news, porque cria confiança.”

O último motivo apontado por Castelfranchi é a importância de pensar como a democracia pode funcionar. “O outro experimento, de tentar fazer a democracia funcionar sem a participação das pessoas, já foi feito e se chama tecnocracia. As decisões eram tomadas a portas fechadas, apenas com especialistas da área e políticos. E ela fracassou miseravelmente e deu lugar a esse clima de desconfiança e polarização brutal”, ressalta. “Ela entrou em crise a partir de grandes desastres, como o de Chernobyl e a epidemia da vaca louca, que levaram a uma desconfiança gigantesca da população na política e na ciência em vários países”, acrescenta. O experimento da deliberação coletiva seria, portanto, uma forma de reavaliar o próprio funcionamento democrático.

Yurij Castelfranchi:
Yurij Castelfranchi: funcionamento da democraciaRaíssa César | UFMG

Edição genética
O tema escolhido para o experimento foi definido por suas profundas implicações sociais. A técnica da edição genética pode possibilitar, por exemplo, modificar mosquitos para eliminar a transmissão de enfermidades, criar plantas mais resistentes ou mesmo alterar gerações futuras de seres humanos. Contudo, são muitas as controvérsias, incluindo aquelas relativas a riscos desses avanços científicos. Pode haver casos de insetos transmissores de doenças que sofreram mutação acidental, plantações esterilizadas e doenças resistentes a novos tratamentos.

“É um tema incrivelmente crucial para o futuro imediato da humanidade. É uma realidade dos próximos anos e que afeta não só a natureza humana, mas nossos alimentos, como faremos agricultura, gestão de epidemias e outros assuntos. É fundamental e incrivelmente pouco conhecido. É pouco coberto pela mídia, pouco discutido publicamente. É urgente e quase invisível. Por isso foi escolhido”, afirma Castelfranchi.

Para o coordenador do projeto, professor John Dryzek, do Centre for Deliberative Democracy and Global Governance da University of Canberra (Austrália), a promessa, os perigos e as armadilhas dessa tecnologia emergente são tão profundos que as implicações de como e por que ela é praticada não devem ser deixadas para os especialistas. “Eles devem ser examinados não apenas por especialistas, mas pelo público em geral: professores, encanadores, açougueiros, padeiros e fabricantes de velas”, defende o professor.

ArtigoGlobal citizen deliberation on genome editing
Autores: John S. Dryzek, Dianne Nicol, Simon Niemeyer, Sonya Pemberton, Nicole Curato, André Bächtiger, Philip Batterham, Bjørn Bedsted, Simon Burall, Michael Burgess, Gaetan Burgio, Yurij Castelfranchi, Hervé Chneiweiss, George Church, Merlin Crossley, Jantina de Vries, Mahmud Farooque, Marit Hammond, Baogang He, Ricardo Mendonça, Jennifer Merchant, Anna Middleton, John E. J. Rasko, Ine Van Hoyweghen, Antoine Vergne
Publicação: Science, 17 setembro de 2020

Luiza França

A arte construiu a história do mundo

Denilson Baniwa defendeu a escuta e empatia para descolonização
Denilson Baniwa defendeu a escuta e empatia para descolonizaçãoRaphaella Dias/UFMG

Na apresentação que fez do convidado da terceira noite do 52º Festival de Inverno UFMG, a professora Lúcia Pimentel, da Escola de Belas Artes, resumiu: “Ele é um ser indígena do tempo presente, um artista antropófago, que abre caminhos para o protagonismo indígena”.

Se hoje é reconhecido como um expoente da arte produzida no Brasil, Denilson Baniwa, nascido na aldeia Darí, no Rio Negro, no estado do Amazonas, não imaginava que iria tão longe. Na palestra A arte moderna já nasceu antiga – o título alude a uma de suas obras em exposição na Pinacoteca de São Paulo –, proferida nesta quarta-feira, dia 16, ele relatou que nunca planejara ser artista, fazer lives ou receber prêmios.

“Em meus planos, pensava em ter minha família e ficar perto dela, mas as circunstâncias desse país me levaram a esse lugar, onde falo sobre as mesmas coisas que eu falava quando atuava nos movimentos indígenas sobre a vida, a memória e a resistência”, disse. Durante essa trajetória, ele conta que firmou uma convicção: “Não existem coincidências, mas tudo que acontece deve ter o propósito de deixar um lugar melhor para os que ainda não nasceram”.

Para ele, quando os indígenas reivindicam espaços de artes, como a exposição da qual participa em São Paulo, com outros 22 artistas e coletivos indígenas, “é porque entendemos que a arte construiu a história do mundo, e, por ela, nós podemos propor contrastes do discurso indígena e não indígena, até para que haja o direito de escolha”.

Baniwa descobriu o impacto e a potência da arte ainda no ensino fundamental, quando foi apresentado às gravuras e ilustrações dos livros didáticos que retratam a presença dos povos tradicionais indígenas na história do Brasil. Ele olhou para a gravura da primeira missa realizada no país e acreditou que aquele quadro tinha sido pintado por um artista presente na cena. Anos depois, veio a revelação carregada de alguma decepção. “Descobri que era uma obra encomendada pelo Estado brasileiro a um artista francês”, comentou.

Fragmentos de população
Na avaliação de Denilson, os indígenas ainda são retratados como na Semana de Arte Moderna de 1922 ou na época do descobrimento. “Em obras como A primeira missaBatalha do Avaí [sobre a Guerra do Paraguai] e Macunaíma, as populações tradicionais indígenas, mas também as negras, as marginalizadas, como as de rua e sem teto, são retratadas de forma idílica, romantizada, sensual ou dramática. Servem de inspiração para a arte, mas ocupam um lugar de saberes simplórios, de intelectualidade selvagem. São fragmentos de uma população transformados em conhecimento ocidental”, argumentou.

Ele se disse investido de uma missão: “Meu trabalho é questionar esse lugar, ocupado por modelos vivos, ou mortos, que não tiveram direito de negociar para estarem ali. É a luta pelo direito de resposta às artes que são como simulacros, que simulam as realidades indígenas, negra, dos pobres, dos que vivem à margem. Não é esse espelho que queremos, que retrata nossa imagem, mas queremos ser corpos presentes, convidativos para uma reflexão que reerga os resquícios de nossa ancestralidade”, provocou.

Ferramentas de sobrevivência
Durante o debate, ao ser indagado sobre o que é ser indígena na contemporaneidade, especialmente diante da apropriação das novas tecnologias desenvolvidas pelos não indígenas, Denilson confessou que é uma definição difícil, diante da diversidade de povos presentes no Brasil – mais de 300, cada um com sua própria cultura. Mas arriscou: “ser indígena na contemporaneidade é ser fruto da resistência e insistência na própria vida. E todas as modernidades tecnológicas adquiridas pelos indígenas servem como ferramentas para nossa própria sobrevivência”.

Ele continuou: “Um indígena não deixa de ser indígena porque usa tecnologias modernas, ou mesmo um facão. Hoje vejo como é verdadeira a máxima ‘quem com ferro fere, com ferro será ferido’. Os mesmos colonizadores que tentaram nos destruir com suas tecnologias agora recebem de volta produções incríveis, dos povos indígenas. As tecnologias são ferramentas para fortalecer nossa luta, para registrar e manter a memória e fazer que a cultura indígena chegue ao maior número possível de pessoas”.

Escuta e empatia
Ainda durante o debate com os participantes do 52º Festival de Inverno UFMG, ao ser solicitado a dar “dicas para se descolonizar”, Denilson destacou a escuta e o diálogo como pontos de partida. “Tudo começa pelo diálogo, pela negociação. Antes de levar soluções prontas para os indígenas, deveríamos escutá-los, pois nem sempre precisam ou querem as soluções pré-elaboradas. Desse diálogo podem nascer parcerias mais incríveis do que as que pensávamos oferecer”, propôs.

E concluiu dizendo que, ao se colocar no lugar do outro nessa escuta, “a gente entende que não é tão sábio quanto se imagina, pois o que existe são diferentes níveis de conhecimento, de entendimento do mundo, cada qual com sua importância. Quando a gente se coloca no lugar do outro, começa a entender os próprios equívocos e a se perceber ainda mais parecida com o outro”.

A arte moderna já nasceu antiga foi transmitida pelo canal UFMG Cultura no YouTube, onde ficará disponível para quem não acompanhou a palestra em tempo real até as 19h desta quinta-feira, 17.

A professor Lúcia Pimentel, da EBA, fez a mediação da palestra
A professora Lúcia Pimentel, da EBA, fez a mediação da palestraRaphaella Dias/UFMG

Teresa Sanches

Morre a professora Lygia Paccini

Lygia Lustosa:
Lygia Paccini: ‘ética e cuidadosa’Thiago Peruch | EEFFTO

Morreu hoje (quinta, 17) a professora Lygia Paccini Lustosa, do Departamento de Fisioterapia da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO). Aos 58 anos, ela não resistiu a um câncer, após 10 meses de grande esforço pela recuperação. Lygia era vice-diretora da Escola desde 2017, na gestão dividida com Gustavo Pereira Côrtes.

O corpo será cremado nesta sexta, 18, no Parque da Colina, depois de velório, pela manhã, reservado a familiares e pessoas muito próximas. As cinzas, a pedido dela, serão lançadas no jardim da rampa de acesso ao prédio da Fisioterapia e Terapia Ocupacional. A cerimônia deve ocorrer na próxima semana.

A reitora Sandra Regina Goulart Almeida disse que Lygia era “uma pessoa muito querida, uma profissional muito respeitada e uma gestora comprometida com a instituição”. Sandra lembrou que a professora sempre manifestou seu amor incondicional pela UFMG. “A Universidade está em luto. Sentiremos muito a falta dela”, lamentou.

Gustavo Côrtes ressaltou que a colega e amiga era muito alegre, disposta e disponível. “Ela era muito ética e cuidadosa. No trabalho, era muito exigente, mas também carinhosa”, descreve o diretor, acrescentando que Lygia Paccini foi uma grande defensora da universidade pública e das causas da mulher e do idoso.

Segundo Côrtes, Lygia adorava os alunos e a UFMG, onde ingressou há quase dez anos. “A última demonstração clara disso é que até a véspera de sua morte fez questão de corrigir artigos. Disse que era uma motivação para viver”, ele relata.

Gerontologia
Graduada em Fisioterapia pela UFMG, Lygia Paccini Lustosa cursou mestrado e doutorado em Ciências da Reabilitação, também na Universidade. Era docente do Departamento de Fisioterapia, que chegou a chefiar, e do Programa de Pós-graduação em Ciências da Reabilitação. Ultimamente, atuava como tutora na Residência Multiprofissional do Hospital das Clínicas da UFMG, no campo da saúde do idoso. Era também 1ª vice-presidente na área de gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Lecionava e pesquisava reabilitação, síndrome de fragilidade, desempenho funcional muscular e sarcopenia.

Itamar Rigueira Jr.

Professores adaptam experiências curriculares ao ensino remoto

Foram abordadas experiências de experiências de ensino nas áreas de comunicação, urbanismo e educação
Professores deram exemplos de como transpor experiências curriculares para o ensino remoto
Raphaella Dias / UFMG

Tecnologias de fácil acesso, criatividade e construções coletivas de soluções. Esses são alguns dos ingredientes essenciais para adaptar as experiências curriculares dos cursos graduação da UFMG ao ensino remoto emergencial, na visão de professores que participaram de fórum on-line sobre o tema, realizado nesta quarta-feira, dia 16.

Promovido pelo Programa Integração Docente, o evento, que chega à sua nona edição, pode ser assistido na íntegra no canal da Coordenadoria de Assuntos Comunitários (CAC) no Youtube, onde também estão disponíveis as edições anteriores.

O pró-reitor adjunto de Graduação, Bruno Teixeira, que abriu o evento, ressaltou a contribuição das atividades que vão além das disciplinas tradicionais para o percurso acadêmico dos alunos, como as Formações Transversais, ofertadas desde 2015 em nove opções.

“Elas representam uma oportunidade ímpar tanto para docentes de diversas áreas, que ganham um espaço para a produção e divulgação do conhecimento no âmbito do ensino de graduação, quanto para os graduandos, que, além da preparação científica, tecnológica, cultural e humanística de qualidade dentro da sua área, passam a contar com uma formação ética e cidadã que os deixam mais aptos para enfrentar os desafios do nosso país e da humanidade”, salientou.

O professor também convidou os colegiados a submeter propostas, até o próximo dia 22, ao Programa de Desenvolvimento de Ensino de Graduação, que tem o objetivo de estimular a incorporação de práticas pedagógicas inovadoras pelos cursos. Inédita, a iniciativa da Prograd distribuirá bolsas para graduandos e pós-graduandos envolvidos nesses esforços.

Terezinha e o intérprete de Libras
Terezinha Rocha e o intérprete de Libras Juliano Salomon: acessibilidade como direitoRaphaella Dias / UFMG

Acessibilidade como direito
Coordenadora da Formação Transversal em Acessibilidade e Inclusão, a professora Terezinha Rocha, da Faculdade de Educação, apresentou o escopo desse percurso formativo, que inclui 46 disciplinas ministradas por cerca de 40 professores de 11 unidades acadêmicas, e falou sobre as soluções encontradas para lidar com os desafios do ensino remoto emergencial.

Para adaptar as atividades ao novo contexto, foi elaborado um planejamento que incluiu pesquisas de recursos tecnológicos para garantir a acessibilidade dos conteúdos, análises e discussões sobre as práticas pedagógicas, seguidas de sua implementação e avaliação.

Entre as inovações adotadas, estão a divulgação de informações, nos perfis da Formação nas redes sociais, sobre ferramentas, softwares, serviços de acessibilidade e atendimentos para pessoas com deficiência, projeto de seminários e de aulas abertas ao público, transmitidas pelo seu canal no YouTube, e elaboração de calendário com datas marcantes para pessoas com deficiência.

Todo o processo, explica Terezinha, foi norteado pela noção de que disponibilizar conteúdos acessíveis é um dever da Universidade. “Entendemos a acessibilidade como direito em oposição ao discurso de caridade, de que estaria sendo feito um favor às pessoas com deficiência. Pelo contrário, estamos buscando trazer representatividade, um diálogo amplo, democrático e trazendo as pessoas com deficiência para serem protagonistas nesse processo”, argumentou. Atualmente, a UFMG conta com 534 alunos com deficiência.

Eduardo
Eduardo Mascarenhas (no quadro do meio) e Fernando Speranza (abaixo): triplo pretexto Raphaella Dias / UFMG

Cartografias virtuais
Como o ensino de arquitetura e de urbanismo, campos de conhecimento tão ligados à cidade, pode se manter, com qualidade, num momento em que as pessoas estão recolhidas em suas casas?

Os professores Fernando Speranza, da Universidade de Buenos Aires, e Eduardo Mascarenhas, da Escola de Arquitetura, que atuam no projeto Cartografias da cidade Arquisur: uma visão projetual do espaço urbano em tempos de pandemia dão a receita: recursos tecnológicos gratuitos, sensibilidade e muita criatividade.

“Apostamos em uma estratégia simples, mas muito, muito potente: um trabalho organizado em ferramentas virtuais que todos conhecemos e nos servem de pretexto para um triplo processo: de vinculação, imersão e ensino-aprendizagem. Nossa disciplina tem uma particularidade: a de que se aprende a projetar projetando. Portanto, é também um processo de ensino de projeto”, explicou o professor argentino.

Entre os recursos utilizados estão Google Maps, YouTube, Facebook, Padlet e Miro, usados para organização gráfica de ideais e conceitos, além de plataformas de videoconferências.

A iniciativa foi idealizada como um ateliê, no qual 600 graduandos de cursos de Arquitetura e Urbanismo de 17 faculdades latino-americanas desenvolvem reflexões sobre o território e sua ocupação, com base em registros como diários de bordos, apresentações, fotografias, criação de acervos sobre as cidades em que vivem os estudantes e sugestões de rotas para conhecê-las.

“É um trabalho muito mais de problematização acerca das cidades na pandemia, em que os alunos estabelecem percursos por elas e apresentam para seus colegas. Alunos de Belo Horizonte apresentaram suas ideias a alunos de Mar del Plata, na Argentina, por exemplo. Depois há uma troca, e cada um imagina questões e propõe soluções e visões sobre a cidade dos outros. Isso é muito interessante, especialmente neste momento de covid-19”, avaliou Eduardo Mascarenhas.

Carlos Mendonça (no alto à direita), Juarez Guimarães e Aline
Carlos Mendonça (no alto, à direita), Juarez Guimarães e a intérprete de libras Aline Peixoto: espaço de liberdade e encontroRaphaella Dias / UFMG

Arte para estabelecer novas formas de vida
Abordando as manifestações artísticas e culturais, elementos fundamentais para vislumbrar novas perspectivas para a própria existência, os professores Carlos Mendonça e Juarez Guimarães, do Departamento de Comunicação Social da Fafich, comentaram o trabalho desenvolvido pela Formação Transversal em Culturas em Movimento e Processos Criativos.

O percurso, associado ao grupo Núcleo de Estudos em Estéticas do Performático e Experiência Comunicacional (Neepec), se organiza a partir de conceitos como teatralidade, performance, comunicação e gênero, e, atualmente, está centrado nas linhas de estudo sobre violência e subtração da vida da população LGBTQIA+ e autobiografia ou ficcionalização de si, que estimulam reflexões sobre como os sujeitos se posicionam e lutam por reconhecimento.

“Narrar é também produzir memórias, produzir espaços na arena pública de corpos muitas vezes esquecidos. Interessa-nos realizar trabalhos que observem também como a arte e cultura são fundamentais para a criação e o estabelecimento de novas formas de vida”, justificou Carlos Mendonça.

Além do seu papel formativo, o Núcleo também tem fortalecido a sua vocação como espaço de liberdade e de encontro, especialmente durante a pandemia de covid-19, quando as tecnologias de informação têm ampliado as possibilidades de participação, inclusive para pessoas da comunidade em geral.

“O Neepec vem se tornando um lugar de acolhimento de muitos estudantes, homens e mulheres trans, que têm nos procurado para se envolver com as discussões das questões de gênero, de alunos gays, lésbicas, mas também héteros, que têm a possibilidade expor as experiências e as vivências para serem debatidas junto com o nosso elenco de textos ao longo do semestre e em eventos. Isso ajuda a formar um caldeirão em ebulição para esses temas que são muitos caros não só para nós, mas para pessoas de várias áreas”, afirmou Juarez Guimarães.

Com Assessoria de Comunicação do Caed UFMG

‘Outra estação’ discute saídas para a economia mineira

No segundo trimestre de 2020, o Produto Interno Bruto (a soma de todos os bens e serviços finais produzidos ao longo de certo período) de Minas Gerais caiu 9,8%. Segundo a Fundação João Pinheiro, trata-se da maior retração da série histórica das contas trimestrais do estado, iniciada em 2002. O número acompanha a tendência nacional. O PIB do Brasil caiu 9,7% no segundo trimestre como resultado da redução das atividades econômicas motivada pela atual pandemia. 

No território mineiro, quais são os setores mais prejudicados pela atual crise? Por outro lado, quais podem contribuir mais para a retomada da economia? Existe solução para o caso de Minas, que já enfrentava cenário de estagnação e complicada situação fiscal?

Essas questões são abordadas no episódio 58 do programa Outra estação, da Rádio UFMG Educativa. Para respondê-las, o programa ouviu dois professores da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG: Rafael Ribeiro e Sibelle Diniz. Também conversou com pessoas que tiveram suas finanças prejudicadas pela atual crise e tentam resistir em meio a tantas condições adversas.

Fechamento de empresas, desemprego, políticas ineficazes…

Débora
Débora Torres Lisboa Rodrigues é dona de uma cafeteria em um shopping de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e teme não conseguir manter o negócio funcionando
Arquivo pessoal

“Por uma falha do arranjo institucional, o crédito [emergencial] concedido pelo governo federal ficou empossado nos bancos comerciais, que não os repassaram às empresas. As pequenas empresas acabaram não tendo acesso a esse crédito, e muitas quebraram”, analisa o professor Rafael Ribeiro. Na avaliação do economista, a ineficácia do governo federal na oferta de crédito durante a pandemia vem dificultando o enfrentamento da crise no Brasil e, particularmente, em Minas Gerais.

No primeiro bloco, o Outra estação destaca os efeitos em um setor especialmente vulnerável: a economia popular, que inclui ocupações como as dos vendedores ambulantes, catadores de materiais recicláveis, artistas populares e artesãos. A professora Sibelle Diniz explica as características dessa área e ressalta suas principais fragilidades diante da crise provocada pela disseminação do novo coronavírus.

Débora Torres Lisboa Rodrigues, dona de uma cafeteria em um shopping de Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, abriu o negócio há sete anos e conta que nunca tinha passado por um período tão difícil. Por sua vez, Vânia Fernandes, formada em Ciências Contábeis, fala sobre sua demissão, provocada pela queda nas atividades das empresas.

O que fazer para recuperar?
Na avaliação do professor Rafael Ribeiro, a recuperação da economia mineira passa por pelo menos dois caminhos. Um deles seriam as reformas progressivas, incluindo o aumento das alíquotas de recolhimento de imposto previdenciário para as classes de maior renda, e investimentos em obras de infraestrutura. O outro caminho para Minas Gerais sair da crise seria o governo federal facilitar a amortização da dívida pública do estado com a União. Essa ajuda evitaria cortes que prejudicam a população mais pobre.

No caso particular dos trabalhadores mais vulneráveis, ocupados na economia popular, a professora Sibelle Diniz ressalta a necessidade de que as ações dos governos não se limitem à concessão de rendas emergenciais, como o auxílio de R$ 600 distribuído pelo governo federal. Sibelle, que participou da elaboração do Plano de Recuperação da Economia Popular, propõe outras medidas para fomentar a recuperação dos ganhos e atividades dessa população. Em sua avaliação, o poder público poderia, por exemplo, ampliar as compras feitas de pequenos produtores locais e expandir os espaços destinados à comercialização de produtos desse segmento.

Para saber mais
Nota técnica publicada pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar) da UFMG, intitulada Economia popular urbana e a covid-19: desafios e propostas para a Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Pesquisa sobre efeitos do auxílio emergencial concedido pelo governo federal, realizada pelo Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV)

Pesquisa Pulso empresa, realizada pelo IBGE, sobre o impacto da covid-19 nas empresas

Produção
O episódio 58 do programa Outra estação é apresentado por Alessandra Ribeiro, com a participação de Beatriz Kalil. A produção é de Alessandra Ribeiro, Beatriz Kalil e Tiago de Holanda. Os trabalhos técnicos são de Breno Rodrigues. A coordenação de jornalismo da UFMG Educativa é de Paula Alkmim.

O programa aborda, semanalmente, um tema de interesse social. Na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM), vai ao ar às quintas-feiras, às 18h, com reprise às sextas, às 7h30. O conteúdo também está disponível nos aplicativos de podcast, como o Spotify.

Testes da CoronaVac entram na reta final de recrutamento de voluntários

Testes da vacina chinesa em Minas Gerais são realizados pela UFMG
Testes da vacina chinesa em Minas Gerais são realizados pela UFMGPixabay

Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas e outros profissionais de saúde que atuem diretamente no cuidado de pacientes infectados pelo novo coronavírus podem se inscrever para participar dos testes realizados na UFMG para os ensaios clínicos de testagem da candidata a vacina desenvolvida pela biofarmacêutica chinesa Sinovac Biotech.

Além de trabalhar com pacientes com covid-19, os candidatos a voluntários não podem ter sido contaminados pelo coronavírus nem participado de outros experimentos. Eles também precisam ter registro ativo no conselho profissional de sua área de atuação.

O interessado que preencha esses critérios deve fazer contato pelo telefone (31) 97171-2657. Desta vez, serão selecionados cerca de 200 voluntários.

O Instituto Butantan, de São Paulo, coordena a pesquisa no Brasil. Em Minas Gerais, os testes são desenvolvidos pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos do ICB, sob coordenação do professor Mauro Martins Teixeira.

Com Assessoria de Comunicação Social e Divulgação Científica do ICB

Danilo Miranda defende transversalidade da cultura 

Danilo Miranda:
Danilo Miranda: pandemia provocou ‘abalo profundo’ na vida cultura lRaphaella Dias / UFMG

A criatividade e a liberdade devem ser valorizadas como elementos fundamentalmente vinculados a um processo cultural emancipador e ético, e a cultura tem de ser compreendida em seu sentido mais amplo, próprio do processo de desenvolvimento da sociedade. Isso é necessário para que as pessoas entendam melhor sua própria realidade e a do outro.

Essa reflexão norteou a palestra do diretor do Sesc/SP, Danilo Miranda, na noite desta terça-feira, dia 15, no âmbito da programação do Festival de Inverno UFMG. Segundo Miranda, que tem formação em filosofia, é comum que tal posicionamento seja defendido “da boca para fora”, configurando aquilo que chamou de “discurso vazio”. O pensamento que prioriza a cultura só faz sentido, em sua visão, se for incorporado em ações políticas efetivas, já que a transversalidade da ação cultural é indispensável para entender a realidade à nossa volta. “Seja na elaboração de um plano econômico para mudar o país ou de uma campanha para combater a pandemia, por exemplo, deve-se chamar especialistas das áreas da educação e da cultura para participar do processo e fornecer os recursos suficientes”, ilustrou.

Acentuação da desigualdade
Danilo Miranda dissertou sobre os reflexos da atual pandemia no cenário de promoção cultural no Brasil. Segundo ele, ocorre um “abalo profundo”, de características amplas, que extrapola o aspecto sanitário e se expande para as dimensões cultural, econômica, política e diplomática. “Uma das consequências imediatas desse processo é a percepção sobre a imensa desigualdade social existente. Na pandemia, isso fica acentuado. Observamos que as reações e os desdobramentos da crise são muito diversos na população, determinados conforme a condição de sobrevivência e de acesso à tecnologia”, argumentou.

A questão da desigualdade, para o gestor cultural, desperta para a necessidade de revisão e análise do nosso processo civilizatório. Ele lembrou que, no Brasil, prevalece uma “tradição de proposição para a desigualdade, muito antiga e profunda em todos os sentidos”. “Sempre tivemos desigualdade educacional, cultural e social. Isso tem raízes na colonização, na prática escravocrata, na exploração e no massacre de indígenas”, retomou.

De acordo com Danilo Miranda, o cenário atual “clama pela solidariedade”, e é do Estado a responsabilidade de promover a justiça social – a cultura e a educação têm função central nesse processo. “O Estado tem obrigações, sobretudo, em dois campos: o da infraestrutura, que significa dar suporte material, e o do fomento, que diz respeito a incentivar, dar condições, acompanhamento efetivo e suporte técnico”, definiu.

Danilo Santos Miranda estudou filosofia e ciências sociais e se especializou em gestão empresarial no Internacional Institute for Management Development, na Suíça. Como gestor cultural, tem participado de conselhos, fóruns e ações como o Fórum Cultural Mundial (2004) e o Ano da França no Brasil (2009).

A íntegra da palestra do diretor do Sesc São Paulo está disponível no canal UFMG Cultura no You Tube. A programação do Festival de Inverno UFMG segue até 23 de setembro, com palestras que integram o Seminário Culturas em Pensamento, rodas de conversa e apresentações culturais.

Matheus Espíndola

Sandra Goulart defende mobilidade inclusiva

Caracterizada pela virtualização das relações e pelo recolhimento social, a atual pandemia lança novos e inéditos desafios para a mobilidade internacional universitária. Contudo, permanece como o desafio central, também nestes novos tempos, a necessidade de se possibilitar que esse benefício formativo alcance os estudantes mais pobres, vindos da escola pública.

Esse foi o ponto central da exposição que a reitora Sandra Regina Goulart Almeida fez na tarde de terça-feira, 15, na mesa Desafios da mobilidade internacional no contexto de pandemia e de pós-pandemia, no âmbito do 2º Congresso UFABC, que segue até sexta-feira, 18, com programação exclusivamente virtual.

Sandra Goulart dividiu a mesa com Maria Leonor Alves Maia, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e presidente da Associação Brasileira de Educação Internacional (Faubai), que lembrou o baixo índice de mobilidade acadêmica no Brasil (“não chegam a 2% os estudantes brasileiros que têm a oportunidade de sair do país durante o seu curso”), e Stephan Hollensteiner, da University Alliance Metropolis Ruhr (UAMR), da Alemanha, que ressaltou que a atual crise é a primeira da vida da maior parte dos atuais graduandos de quase todos os países. “Se pensarmos que esses alunos têm 20 anos em média, veremos que essa é a primeira grande crise nas relações humanas, profissionais e de formação de sua geração. E sabemos que essa geração tem mais dificuldade de lidar com momentos de crise como o atual”, refletiu.

Com base nesse cenário, os palestrantes discutiram os caminhos que a mobilidade internacional universitária poderá trilhar no âmbito da atual pandemia, na medida em que a sua superação em curto prazo, como se supunha no início da crise, vai dando sinais de ser improvável. Sandra Almeida destacou de saída que, “quando falamos em mobilidade, é importante que pensemos em mobilidade em todos os níveis: graduação, pós-graduação, docentes, servidores”. E, pensando nesses diversos públicos, lembrou a importância de as universidades se atentarem para os princípios de reciprocidade, de multilateralidade e de solidariedade também nos novos formatos de cooperação internacional que se venham a instaurar.

Mobilidade não pode ser excludente
“Viemos de um contexto muito importante de inclusão nas universidades públicas brasileiras. Hoje, 56% dos estudantes que chegam à UFMG são da educação pública. Contudo, esses estudantes ingressam na universidade sem experiência internacional”, disse a reitora, lembrando ainda a defasagem formativa básica desses jovens, que, em geral, também não contam com proficiência em língua estrangeira, o que dificulta a conquista de vagas para mobilidade. “Não podemos perder esses estudantes de vista, sob o risco de as experiências de mobilidade internacional das nossas instituições serem mais um fator de exclusão para essa população”, demarcou.

A reitora avançou na reflexão. “Quando tratamos de mobilidade virtual, essa questão [a exclusão socioeconômica e do acesso, da inclusão e da permanência estudantil] permanece e é agravada pela questão de acesso digital, que é seríssima no Brasil”, disse. “É importante que haja um projeto institucional de apoio às políticas de acesso, inclusão e permanência também no campo internacional. Caso contrário, apenas perpetuaremos uma situação de exclusão social já colocada”, afirmou.

Novas lentes
Os gestores também abordaram conceitos como os de “mobilidade virtual”, “internacionalização em casa” e “intercâmbio virtual”. “É hora de começar a pensar para além do contexto emergencial”, disse Maria Leonor, tendo em vista que o contexto pandêmico deve perdurar por mais tempo. “Podemos olhar essa situação com novas lentes e novas perspectivas e reimaginar a internacionalização da educação adaptada a esse novo contexto”, disse.

“A pandemia gerou um efeito disruptivo, não linear [nos processos educacionais e modos existenciais em curso]”, completou Stephan Hollensteiner. “Em momentos de crise, é preciso ressuscitar a criatividade e a inovação”, pregou.

As conversas da mesa Desafios da mobilidade internacional no contexto de pandemia e de pós-pandemia foram mediadas pelo professor Dalmo Mandelli, da Universidade Federal do ABC (UFABC). O 2º Congresso UFABC (edição virtual), que começou no dia 17 de agosto, segue até o fim desta semana com programação integralmente dedicada à discussão dos múltiplos impactos e dilemas da pandemia nas esferas local e regional. A programação está disponível na internet e para acesso assíncrono.

Legenda
Sandra Goulart: pandemia é a maior crise social dos últimos 100 anosReprodução de tela

Ewerton Martins Ribeiro

Morre o banqueiro Aloysio Faria, parceiro da UFMG

Aloysio Faria:
Aloysio Faria: contribuições para as áreas de gastroenterologia e da saúde do idoso e da mulherArquivo Hospital das Clínicas / UFMG

O banqueiro Aloysio de Andrade Faria, fundador do Banco Alfa, morreu, nesta terça, 15, em sua fazenda em Jaguariúna, no interior de São Paulo. Gastroenterologista por formação, Aloysio, que completaria 100 anos em novembro, era natural de Belo Horizonte e graduou-se em Medicina pela UFMG em 1945. No ano seguinte, obteve o título de Master of Science na Northwestern University, em Chicago (EUA).

Faria chegou a exercer a Medicina por algum tempo, abandonando-a pouco depois para assumir os negócios da família em razão da morte do pai, Clemente de Faria, fundador do extinto Banco da Lavoura. Sua ligação com a UFMG e com o Hospital das Clínicas, porém, manteve-se estreita durante toda a sua vida. Em 2007, durante as comemorações dos 80 anos de fundação UFMG, Aloysio Faria recebeu a medalha de honra como ex-aluno de destaque da Universidade.

“A UFMG é muito grata ao suporte que sempre recebeu de Aloysio de Andrade Faria. Humanitário com sua alma mater, ele é uma personalidade marcante na história da Universidade, da Faculdade de Medicina e, em especial, do Hospital das Clínicas”, destacou a reitora Sandra Regina Goulart Almeida. De acordo com ela, o apoio de Aloysio Faria foi fundamental para a expansão e o aprimoramento de serviços hoje ofertados pelo Hospital das Clínicas para a sociedade, em especial, o de gastroenterologia e nutrição. “Foram muitas as melhorias realizadas, que se tornaram possíveis com as doações desse homem de espírito benemérito”, acrescentou. Em nome da UFMG, a reitora manifestou seu “carinho, admiração e solidariedade” à família do banqueiro.

Para o diretor da Faculdade de Medicina, Humberto José Alves,  Aloysio Faria foi um benfeitor da UFMG, em especial do Hospital das Clínicas. “Ele colaborou para que alunos da Faculdade pudessem fazer seus estudos em campos de prática de alta qualidade”, destacou.

A superintendente do Hospital das Clínicas, Andréa Silveira, ressaltou, por sua vez, a “generosidade discreta” do banqueiro. “Dr. Aluísio foi um grande exemplo. Seu comportamento e ações traduziam a sua convicção e o seu compromisso com a assistência, o ensino e a pesquisa de qualidade. Demonstrava grande carinho pela UFMG e reconhecia a importância da universidade pública na vida do país”, afirmou.

Doações
Em 2001, Aloysio Faria doou R$ 7,8 milhões para a criação do Instituto Alfa de Gastroenterologia, no Hospital das Clínicas, projeto que possibilitou a reestruturação e modernização do serviço de gastroenterologia do Hospital das Clínicas. Os recursos viabilizaram a construção de salas de aula e laboratórios, auditório, enfermarias, salas de endoscopia/colonoscopia e recepção. Com o dinheiro, também foi possível equipar todo o espaço. A doação feita por Faria também foi empregada na construção da portaria do HC e da principal recepção hospitalar do complexo.

Nove anos depois, em 2010, foi inaugurado o anexo Instituto Jenny de Andrade Faria de Atenção à Saúde do Idoso e da Mulher, projeto também viabilizado pelo banqueiro. Além de custear a demolição do antigo Ambulatório Carlos Chagas e a construção integral do novo prédio, Faria doou o mobiliário para áreas comuns e para o Centro do Idoso, além de toda a infraestrutura da informatização. Os recursos também cobriram a aquisição de equipamentos médicos.

Mais recentemente, em 2014, o HC inaugurou, por meio de nova doação de Aloysio Faria, uma sala cirúrgica automatizada e equipada com tecnologias que possibilitam a visualização de imagens em alta definição (full HD). Há dois anos, o banqueiro assegurou a reforma e reinauguração do Ginásio Interdisciplinar do Idoso, que passou por reforma e ganhou novos aparelhos.

Com assessorias de comunicação do Hospital das Clínicas e da Faculdade de Medicina da UFMG

Mulheres são maioria entre os brasileiros com coronavírus

Operação itinerante de prevenção da covid-19:
Operação itinerante de prevenção da covid-19 em Recife: estudo pode ajudar a estabelecer parâmetros para favorecer a formulação de respostas ao enfrentamento da pandemiaAndréa Rêgo Barros / PCR / Fotos Públicas / CC BY-NC 2.0

Um estudo das informações clínicas e demográficas de 28.854 brasileiros diagnosticados com covid-19 de 26 de março a 25 de maio deste ano constatou que 56% dessas pessoas são mulheres, com idade média de 44 anos. Os homens, no entanto, correspondem a 55% das vítimas fatais. A infecção foi mais frequente entre adultos com idade entre 30 e 39 anos.

Essas e outras conclusões estão registradas no artigo Clinical characteristics and outcomes of Brazilian patients with severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 infection: an observational retrospective study, produzido com participação de pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), da Escola de Engenharia e do Hospital das Clínicas (HC) da UFMG. O estudo foi aceito para publicação no periódico São Paulo Medical Journal, da Associação Paulista de Medicina.

Os pesquisadores apuraram que a taxa de mortalidade entre os diagnosticados foi próxima de 8% e que 17,3% dos pacientes precisaram ser internados até se recuperarem totalmente. O tempo médio entre o início dos sintomas e a morte dos indivíduos foi de 10,3 dias. Os sintomas mais comuns no momento do atendimento hospitalar foram tosse (42,4%), febre (38%) e dificuldade respiratória (31%).

Notificação compulsória
A professora Maria de Fátima Leite, do Departamento de Fisiologia e Biofísica do ICB, que coordenou a pesquisa, ressalva que, devido à evolução dos casos de coronavírus no país, os dados atuais podem ser um pouco diferentes. “Conhecer esses parâmetros na população brasileira possibilita formular uma resposta melhor no enfrentamento da pandemia”, afirma.

Segundo a docente, o estudo reforça a necessidade de sistemas de notificação compulsória de covid-19 em todo o mundo, a fim de que se possa compreender melhor a doença e avaliar, com maior agilidade, a possibilidade de novas pandemias. “A lista nacional de doenças de notificação compulsória, que contém algumas doenças sexualmente transmissíveis, prevê, por exemplo, que todos os casos sejam comunicados para as autoridades sanitárias. Essa notificação produzirá informações claras e transparentes sobre a disseminação da covid-19, o que é importante para orientar a destinação de recursos”, explica.

Maria de Fátima acrescenta que ainda é escassa a literatura com dados brasileiros sobre o coronavírus. Por isso, os professores da UFMG participam da preparação de um registro nacional de pacientes, atualmente em fase final de análise dos dados. O projeto, coordenado pela professora Milena Marcolino, da Faculdade de Medicina, e pelo pesquisador Israel Nascimento, do HC, tem a participação de professores da UFMG e de outras 30 instituições brasileiras. “Isso está sendo feito por meio do preenchimento, por profissionais de saúde, de prontuário eletrônico com informações laboratoriais e radiológicas dos pacientes. O objetivo é criar uma escala de prognóstico para a covid-19, associando a presença dos sintomas à probabilidade de ida para o CTI e de óbito”, descreve.

Trabalho semelhante já é feito em outros países, esclarece Maria de Fátima Leite, mas é necessário estudar o comportamento do novo coronavírus, em especial entre os brasileiros. “No artigo, mostramos que há diferenças entre o que está ocorrendo aqui e no resto do mundo. É importante conhecê-las para que as políticas de saúde sejam orientadas com base no contexto nacional.”

Além de Maria de Fátima, Milena Marcolino e Israel Nascimento, assinam o artigo Valéria Fernandes, doutora em Fisiologia e Farmacologia pela UFMG, João Antonio Oliveira, pesquisador do HC, Israel Molina, cientista da Fiocruz, e o professor Luiz Ricardo Pinto, da Escola de Engenharia.

Matheus Espíndola