Pandemia na periferia: “quem é por nós?”

Periferia
Rua em bairro periférico de Belo Horizonte: o vírus não é seletivo, mas os riscos que oferece são potencializados pela vulnerabilidade socioeconômicaTúlio Fortes

“Vão precisar cremar o pessoal. Vi que estão fazendo isso lá na Itália, porque não tem mais lugar para enterrar todo mundo. Isso sempre foi coisa de rico, então o pobre agora vai ganhar uma cremação de brinde.” Quem fala é “seu Paraíba”, borracheiro que há décadas garante atendimento 24 horas em um bairro da periferia de Belo Horizonte.

Em sua garagem, do alto de seus 70 e poucos anos, “seu Paraíba” exerce com gentileza e habilidade o ofício que o fez um dos profissionais mais conhecidos da região. Na manhã de 27 de março, ele proferiu essa fala em meio a irônicas gargalhadas. O tema era o novo vírus, o medo, a morte e a sua fé de que “nada acontece se não tem que acontecer”. Reflexões de quem fala de um lugar muito específico e nada privilegiado: o de trabalhador da periferia.

Até então, o senso comum dizia que a Covid-19 era democrática, já que não distinguia ricos e pobres. Entretanto, a primeira vítima fatal no Rio de Janeiro foi uma doméstica, que trabalhava na zona sul da capital, mas residia na periferia. Ainda que o vírus não seja seletivo, as suas formas de transmissão, assim como o risco de adoecimento e morte, são potencializadas pela vulnerabilidade socioeconômica. Longe de evidenciar uma condição democrática, a pandemia escancarou, no Brasil, as desigualdades e o descaso do Estado.

À medida que se espalha pelo território nacional, a Covid-19 atinge cada vez mais as entranhas das cidades. Nesses territórios periféricos, a maioria dos residentes é pobre, negra e, além de sujeita à segregação espacial, está em posições de baixo prestígio social ou atrelada a relações de trabalho precárias, sem garantia de renda (como é o caso dos trabalhadores informais). Ficar em casa é a certeza da fome – fantasma que volta a assombrar o país. Sair para trabalhar aumenta o risco de infecção. Entre o certo e o duvidoso, não há opção senão arriscar.

Nas periferias reside a população mais vulnerável à perda dos rendimentos, o que é apontado pela terceira rodada da pesquisa Termômetro da crise: Covid-19, realizada pelo Instituto Olhar, a Netquest e o Crisp-UFMG. Entrevistados de famílias mais pobres (até cinco salários mínimos), que geralmente vivem às margens geográficas ou sociais, são maioria entre aqueles que perderam renda após o início da crise.

Ficar em casa é a certeza da fome – fantasma que volta a assombrar o país. Sair para trabalhar aumenta o risco de infecção. Entre o certo e o duvidoso, não há opção senão arriscar.

As dificuldades são muitas, e, em alguns momentos, a sobrevivência de quem reside na periferia parece ser impossível. Nesse ponto, entra em jogo a capacidade de resistir, de atuar de forma articulada e, em certa medida, de autorregulação ante a negligência do Estado, que manifesta toda sua indiferença com um simples “e daí?”.

Essa é a expressão da necropolítica, conceito desenvolvido pelo filósofo e cientista político camaronês Achille Mbembe, segundo o qual o auge da soberania estatal está na possibilidade de ditar quem deve viver e quem deve morrer, mesmo porque já não há planos e estratégias de saúde, saneamento, abastecimento, transferência de renda, enfim, de condições de humanidade na pandemia para a periferia. Assim, os moradores de bairros pobres e favelas do Brasil não têm outra alternativa a não ser reinventar modos de sobreviver, mobilizar e resgatar certa “ordem” no cotidiano movimentado pela privação econômica e pelas violências do Estado.

Em muitas frentes de pesquisa do Crisp-UFMG, principalmente no monitoramento e avaliação do programa Fica vivo!, temos observado iniciativas dessas comunidades para gerenciar crises ligadas à violência interpessoal e institucional. Na crise do coronavírus, temos percebido, por meio de pesquisas em andamento, que os mesmos mecanismos operam para minimizar os efeitos da pandemia.

O contraditório é notar que a força da periferia emerge da sua principal suscetibilidade, ou seja, de uma gestão pública que naturaliza a dor do óbito e que, na omissão, acaba por determinar quem vai morrer.

“Chefes de rua” se dispõem a acompanhar a saúde dos vizinhos; artesãos locais se juntam para confecção de máscaras; faixas e músicas com rimas e batidas de funk trazem orientações que alcançam toda a comunidade. A participação do tráfico no controle da circulação nas ruas, na suspensão dos bailes e, até mesmo, na proibição da presença de turistas nas favelas cariocas também pode ser considerada iniciativa local de autorregulação e controle da disseminação da Covid-19.

Contrariando estigmas, essas experiências confirmam que “quem vem de lá” agrega saberes e sociabilidades que se mostram eficientes em meio ao caos. Esses moradores reorganizam a suposta desorganização da área, na tentativa de torná-la mais protegida das ameaças do coronavírus e da pauperização dela decorrente. Porém, o contraditório é notar que a força da periferia emerge da sua principal suscetibilidade, ou seja, de uma gestão pública que naturaliza a dor do óbito e que, na omissão, acaba por determinar quem vai morrer. Muitos dos impactos da Covid-19 nas periferias não serão mensuráveis, assim como muitos homicídios que também se acumulam nesses territórios não são contabilizados. Tanto em relação aos crimes quanto à Covid-19, o Estado é, como sempre foi, violento no controle e leniente no cuidado.

Assim, se em meio à pandemia a periferia pergunta “quem é por nós?”, as vozes de lá respondem: “Nós, e somente nós!”. A mobilização nesses espaços tem força, é potente. Mas é insuficiente diante do tamanho do desafio. A periferia clama: “Obrigada, dispensamos o ‘vale cremação’! Queremos continuar vivos!”

Parece que o Estado não escuta. Sem políticas públicas imediatas voltadas para as áreas periféricas e mais pobres das grandes cidades, assistimos à maior tragédia humanitária do Brasil. Não há dúvida de que um dos legados do coronavírus será a atualização dos conceitos de extermínio, genocídio e necropolítica a patamares nunca antes imaginado.

Valéria Cristina de Oliveira, professora do Departamento de Ciências Aplicadas à Educação da Faculdade de Educação, pesquisadora no Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp-UFMG) e no Núcleo de Pesquisa em Desigualdades Escolares (Nupede) da UFMG

Daniely Roberta dos Reis Fleury, mestranda em Sociologia e pesquisadora no Crisp-UFMG. Diretora de Políticas de Ações Afirmativas da Pró-reitoria de Assuntos Estudantis

Ludmila Ribeiro, professora do Departamento de Sociologia da Fafich e pesquisadora no Crisp-UFMG