Pesquisadores da FaE investigam a infância na pandemia

Crianças de 8 a 12 anos podem responder sozinhas o questionário on-line
Crianças de 8 a 12 anos podem responder sozinhas o questionário on-line Teresa Sanches / UFMG

O Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Infância e Educação Infantil (Nepei), da Faculdade de Educação, está desenvolvendo um estudo pioneiro, de escuta das crianças de 8 a 12 anos, residentes nos 34 municípios da Grande Belo Horizonte. Por meio do preenchimento de formulário on-line, desenhos ou áudios enviados ao site do projeto, as crianças podem contar como estão vivenciando suas interações sociais, sentimentos e emoções, desde que foram afastadas das atividades escolares presenciais, como medida de prevenção ao contágio pelo novo coronavírus.

“A ausência nas escolas pode representar importante queda na qualidade de vida das crianças, especialmente para as que estão em situação de maior vulnerabilidade social. Para elas, a escola também representa proteção social, alimentação, segurança física e emocional”, justifica o professor Levindo Diniz Carvalho, que coordena o estudo ao lado das professoras Isabel de Oliveira e Silva e Iza Rodrigues da Luz, da Faculdade de Educação. Também colaboram com a pesquisa estudantes do Programa de Pós-graduação em Educação e da graduação em Pedagogia, da mesma escola.

A expectativa é que as crianças, que nessa idade já desenvolveram a capacidade de compreensão da leitura e uso de ferramenta web, respondam sozinhas às perguntas do formulário on-line, solicitando a ajuda de um adulto, caso necessitem. Aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG, a pesquisa considera todas as dimensões éticas na pesquisa com crianças, como garantia do anonimato, confidencialidade, não exposição à situação de constrangimento ou cansaço.

“Partimos do princípio de que a criança não está passivamente submetida a uma estrutura social, mas é um sujeito ativo, capaz de apreender o mundo de forma singular e relevante. Isso implica compreender que elas também constroem sua própria inserção na história, na sociedade e na cultura, ou seja, o que elas têm a dizer é relevante e singular”, afirma o professor.

Com sua linguagem própria, as crianças podem expressar suas experiências, sentimentos, medos e sonhos também por desenhos ou áudios, enviados ao site do projeto. O formulário traz perguntas com respostas fechadas e abertas e uma questão sobre o interesse da criança em participar da segunda fase da pesquisa — entrevista por telefone, com um pesquisador. “As perguntas serão similares às do formulário, mas com objetivo de compreender um pouco mais a experiência de cada criança”, relata Levindo Carvalho.

Luz para as políticas públicas
Na avaliação do professor, “as crianças são as que mais sofrem os impactos da violência e precarização da vida em sociedades cindidas e desiguais de metrópoles como Belo Horizonte”.

Expectativa que dados revelem também a diversidade de condições de vida na RMBH
Desenho infantil usado como identidade visual da pesquisa: olhar das crianças sobre a pandemiaDivulgação/NEPEI/UFMG

As condições de moradia também são destacadas pelo pesquisador como elemento fundamental nesse contexto. “Impressiona como a condição de materialidade do lar pode alterar as oportunidades de socialização e interação dessas crianças, tanto no uso das ferramentas web para o ensino remoto, como na garantia de direito ao lazer, à participação e à cidadania plena”, acrescenta.

A expectativa é que o estudo retrate a maior diversidade possível da realidade das crianças de classe média, vilas, favelas e ocupações. “Acreditamos que a diversidade e a desigualdade que marcam as condições de vida das crianças também definem as condições de vivência desse isolamento”, supõe o pesquisador.

Os dados levantados terão recorte de gênero, classe e raça. Também será possível a categorização por bairros e regiões, escola pública e privada, acesso à computadores e celulares.

“Estamos muito felizes com as respostas surpreendentes que estão chegando. A capacidade das crianças de elaborarem suas próprias experiências vai nos ajudar muito. Elas poderão contribuir com a estruturação de políticas públicas tanto no campo da educação quanto da saúde e assistência”, conclui o professor Levindo Carvalho.

Teresa Sanches