População LGBT+ ficou mais vulnerável com a pandemia

Gael Calixto, 26, homem negro e trans. Morando sozinho e pagando aluguel, Gael ficou desempregado nesse período de pandemia de Covid-19.
Gael Calixto, 26, homem negro e trans, mora sozinho, pagando financiamento habitacional, e ficou desempregado nesse período de pandemiaArquivo pessoal

O distanciamento social imposto pela covid-19 pode ser particularmente desafiador e até perigoso para lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros – para a população LGBT+, como um todo. Em razão do confinamento, muitas pessoas enfrentam maus-tratos e violência física ou psicológica, já que precisam passar mais tempo em casa com familiares que não as aceitam, por exemplo.

As limitações e as incertezas do momento atual também podem agravar problemas preexistentes de saúde mental, comuns entre as pessoas LGBT+, como solidão, depressão, ansiedade e ideação suicida. Os impactos da pandemia para essa população são discutidos no episódio 56 do Outra estação, da Rádio UFMG Educativa.

Para identificar os desafios da comunidade LGBT+ durante o período de isolamento social, o coletivo #VoteLGBT conduziu o estudo Diagnóstico LGBT+ na pandemia, de 28 de abril a 15 de maio de 2020. Por meio de um formulário on-line, a pesquisa recebeu mais de 10 mil respostas das cinco regiões do país. O jornalista Arthur Bugre conversou com o integrante do coletivo #VoteLGBT Samuel Silva, doutorando em Demografia no Cedeplar da UFMG, sobre os principais resultados obtidos.

A piora na saúde mental foi citada por 42,72% dos entrevistados como o principal impacto da pandemia para a população LGBT+. Uma parcela ainda maior, 54%, afirmou que precisa de apoio psicológico. As novas regras do convívio social, a solidão e o convívio familiar foram mencionados por 39,23% e associadas ao afastamento das redes de apoio que muitas pessoas tinham antes da pandemia. Entre os respondentes, 17,62% citaram as dificuldades econômicas como os maiores impactos, por falta de trabalho ou de dinheiro.

Entrevistados relatam dificuldades
Outra estação também ouviu pessoas da comunidade LGBT+, e os relatos coincidem com os resultados da pesquisa do Coletivo #VoteLGBT+, que expôs o aumento de vulnerabilidades anteriores à atual pandemia.

Gael Calixto, 26, homem negro e trans, presidente de um coletivo que distribui marmitas e cestas básicas para pessoas em situação de rua, experimentou piora na saúde mental e aumento da preocupação financeira. Ele foi demitido e tem gastos mensais com o apartamento onde mora sozinho, como contas de água e luz, além da própria alimentação.

Amanda Rodrigues, travesti de 37 anos. Ela conta que com a  pandemia as opções de trabalho diminuíram
Amanda Rodrigues, travesti de 37 anos: opções de trabalho diminuíram 

A travesti Amanda Rodrigues, 37, trabalha como prostituta, hostess e apresentadora e também conta como a pandemia afetou sua situação financeira.

Angel Jackson, 27, mulher preta, cis, pan-sexual. Ela conta como é importante contar com uma rede de apoio, inclusive profissional
Angel Jackson, 27, mulher preta, cis, pansexual: importância da rede apoioArquivo pessoal

Angel Jackson, 27, mulher preta, cis, pansexual, falou sobre dificuldades enfrentadas neste período e sobre a importância de receber apoio psicológico profissional.

Sheila Mescladi, 20, mulher trans travesti, falou sobre as limitações que a pandemia impôs ao seu trabalho e como tem feito para se adaptar ao home-office.
Sheila Mescladi, 20, mulher trans travesti: limitações no trabalho e adaptação ao home-office.Arquivo pessoal

Sheila Mescladi, 20, mulher trans travesti, atua como educadora do projeto PrEP 15-19. Ela falou sobre as limitações que a pandemia impôs ao seu trabalho e como tem feito para se adaptar ao home-office .

Queerentena
O projeto Histórias da Queerentena buscou entender os impactos da pandemia entre as chamadas dissidências sexuais (termo considerado mais apropriado para expressar a complexidade das identidades de gênero não binárias, ou seja, que extrapolam os padrões convencionais do feminino e do masculino).

A iniciativa do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania da UFMG (NUH) coletou textos sobre vivências, testemunhos e reflexões, que serão reunidos em um livro nos formatos digital e impresso.  Pablo Pérez Navarro, professor visitante de estudos queer/LGBT, gênero e sexualidade no NUH, falou sobre o diferencial dos relatos escritos em primeira pessoa.

Para saber mais

Diagnóstico LGBT+ na pandemia, pesquisa feita pelo coletivo #VoteLGBT em parceria com a Box1824 e coordenada por pesquisadores da Unicamp e da UFMG.

Relatório feito pelo Projeto Transpasse, que presta assistência jurídica e psicossocial a pessoas trans e travestis em Belo Horizonte.

Mais informações sobre o Projeto PrEP 15-19, pesquisa que envolve UFMG, USP e UFBA para avaliar o uso da Profilaxia Pré-exposição (PrEP) ao HIV. Para participar, entrar em contato pelo Whatsapp (31-99726-9307) ou no Instagram.

Resultado do Projeto Histórias da Queerentena, promovido pelo NUH (Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT), que coletou textos sobre vivências, testemunhos e reflexões que serão reunidos em um livro nos formatos digital e impresso.

Pesquisa realizada em 2015 pelo NUH (Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT) e pelo Departamento de Antropologia e Arqueologia da UFMG, com 28 homens trans.

Dados sobre suicídio de pessoas trans no Brasil e no mundo.

Guia da ONU que ajuda jovens com HIV a enfrentar questões de saúde mental em tempos de covid-19.

Produção
O episódio 56 do programa Outra estação é apresentado por Alessandra Ribeiro e Beatriz Kalil. A produção é de Alessandra Ribeiro, Arthur Bugre e Beatriz Kalil. A edição é de Alessandra Ribeiro, a coordenação de jornalismo é de Paula Alkmim, e os trabalhos técnicos, de Breno Rodrigues.

O programa aborda, semanalmente, um tema de interesse social. Na Rádio UFMG Educativa (104,5 FM), vai ao ar às quintas-feiras, às 18h, com reprise às sextas, às 7h30. O conteúdo também está disponível nos aplicativos de podcast, como o Spotify.