{"id":82,"date":"2019-11-19T14:23:31","date_gmt":"2019-11-19T17:23:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/?page_id=82"},"modified":"2020-07-28T17:20:56","modified_gmt":"2020-07-28T20:20:56","slug":"relato","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/familia-e-amigos\/relato\/","title":{"rendered":"Relato"},"content":{"rendered":"<p>Diante do desafio de conversar sobre o lugar da fam\u00edlia e dos amigos de uma pessoa em sofrimento ps\u00edquico grave, compreendemos que essa fala deveria vir de quem tem um saber para comunicar &#8211; um saber que vem da experi\u00eancia de ser em fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Convidamos <strong>Leida Maria de Oliveira Uematu<\/strong>, familiar membro da Associa\u00e7\u00e3o dos Usu\u00e1rios de Servi\u00e7os de Sa\u00fade Mental (ASUSSAM \u2013 MG), para escrever sobre como perceber e ajudar uma pessoa em situa\u00e7\u00e3o de grande sofrimento. Ela conta que foi sua irm\u00e3, Emilha, quem a convidou para, junto com ela, fazer sua caminhada de militante do tratamento em liberdade, na ASUSSAM.<\/p>\n<p>Com a sabedoria constru\u00edda no dia-a-dia, em sua condi\u00e7\u00e3o de familiar e de militante dos movimentos sociais antimanicomiais, ela nos presenteou com essa delicada e consistente narrativa.<\/p>\n<h3>Mas, no geral, como cuidar?<\/h3>\n<p>Como perceber a pessoa, seu familiar e o sofrimento dela? Perceber&#8230; a gente s\u00f3 sabe se ouvir mesmo, sabe! \u00c9 o ouvir, mesmo. \u00c9 o ouvir quando ele(a) fica mais quieto, por exemplo. Tem aquele(a) que numa crise fica mais quieto. \u00c9 prestar aten\u00e7\u00e3o nos atos. \u00c9 ver&#8230; ver e ouvir o outro. Isso \u00e9 important\u00edssimo!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, voc\u00ea identifica; v\u00ea. Depois que voc\u00ea identificou, calma&#8230; a calma e a tranquilidade para ver que <strong>o transtorno mental \u00e9 uma enfermidade como qualquer outra enfermidade<\/strong>. Tem que ser assim. N\u00e3o pode se assustar. Sabe, \u00e9 dif\u00edcil! Mas n\u00e3o pode se assustar.<\/p>\n<p>Depois que voc\u00ea percebe o outro, ouve o outro&#8230; e da\u00ed voc\u00ea trata com naturalidade&#8230; <strong>Voc\u00ea respeita o outro<\/strong>. Aquele sujeito, naquele momento, t\u00e1 precisando de um acolhimento diferente. O que \u00e9 esse acolhimento? \u00c9 ser infantilizado? N\u00e3o. Estou pensando, no caso, em adultos, n\u00e9. N\u00e3o, n\u00e3o tratar ele(a) com uma crian\u00e7a. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso. Sempre com respeito: respeito \u00e0s suas vontades.<\/p>\n<blockquote><p>O melhor acompanhamento, a melhor maneira, \u00e0s vezes, de ajudar, \u00e9 indireta.<\/p><\/blockquote>\n<p>Saber que ele(a) tem vontade, ele(a) tem opini\u00e3o, ele(a) tem desejos, ele(a) sabe falar! <strong>N\u00e3o tira isso dele(a): a fala!<\/strong> E ele(a) tamb\u00e9m sabe. Muitos falam: a gente n\u00e3o pode esquecer que eles, assim, tem problema mental, mas n\u00e3o s\u00e3o burros. S\u00e3o pessoas. Ent\u00e3o, saber respeitar isso, e n\u00e3o impor o seu desejo, a sua opini\u00e3o como familiar.<\/p>\n<p>N\u00e3o falar assim: \u2018Nossa, ele era t\u00e3o inteligente, t\u00e3o bonito ou bonita, tem tanta capacidade e agora, t\u00e1 a\u00ed, assim\u2019. N\u00e3o&#8230; ele vai continuar tendo a sua capacidade, a sua beleza&#8230; \u00c9 s\u00f3 ver agora com outro olhar! E voc\u00ea vai ver: isso vai mudar o seu olhar. E o primeiro de tudo \u00e9 n\u00e3o exigir que ele(a) seja igual a um antes ou ao que voc\u00ea quer. Bom, \u00e9 isso que a gente percebe no outro.<\/p>\n<p>Quando ele n\u00e3o quer ajuda, n\u00e9, n\u00e3o sabe reconhecer que ele precisa de ajuda, ent\u00e3o, ok. Fa\u00e7a sua ajuda: vai percebendo&#8230; se aproxima, porque n\u00e3o pode \u00e9 se afastar, mas mant\u00e9m sempre essa coisa de n\u00e3o se impor. \u00c9 natural&#8230; \u00e9 dif\u00edcil mas, a gente tem que chegar no ponto, sabe, do sofrimento mental ser tratado como uma enfermidade qualquer&#8230; card\u00edaco, diab\u00e9tico, hemof\u00edlico&#8230; ou qualquer outra.<\/p>\n<p>De tudo isso, o mais importante hoje, que<strong> j\u00e1 tem Servi\u00e7os de Sa\u00fade Mental para tratamento em liberdade <\/strong><strong>pelo SUS<\/strong>, n\u00e9? \u00c9 entrar para o servi\u00e7o e acompanhar. Gente, isso \u00e9 important\u00edssimo! O melhor acompanhamento, a melhor maneira, \u00e0s vezes, de ajudar, \u00e9 indireta. Ao inv\u00e9s do familiar ficar em cima da pessoa que est\u00e1 em crise&#8230; N\u00e3o! Vai conhecer os Servi\u00e7os de Sa\u00fade Mental, se aprofunda na Rede e vai conhecer como que \u00e9 isso, como \u00e9 que funciona isso. Ver essa hist\u00f3ria, ver como \u00e9 que funciona e vai procurando entender o que \u00e9 o transtorno mental. Esse, eu acho, que \u00e9 o melhor ponto para tentar ajudar. Eu acho que pode ser at\u00e9 o mais f\u00e1cil, n\u00e3o sei&#8230; n\u00e3o sei se existe mais f\u00e1cil, mas pode ser: ao inv\u00e9s de voc\u00ea direcionar o tratamento entendendo que voc\u00ea est\u00e1 diante de uma pessoa que est\u00e1 precisando de tratamento&#8230; n\u00e3o, inverte.<\/p>\n<p><strong>Cuida de voc\u00ea. Cuida da sua sa\u00fade mental.<\/strong> Vai se conhecer, porque voc\u00ea estando bem, cuidando da sua sa\u00fade mental, voc\u00ea tem o seu equil\u00edbrio e passa a respeitar tudo isso: ver o outro, respeitar o outro, porque voc\u00ea est\u00e1 bem, entendeu? Ent\u00e3o, faz o inverso: ao inv\u00e9s de voc\u00ea querer que o outro v\u00e1 se tratar, deixa ele na vida dele, do jeito dele e vai voc\u00ea fazer um acompanhamento, uma terapia. Vai descobrir voc\u00ea, n\u00e9, que \u00e9 bem legal! E descobrir a RAPS [ela refere-se \u00e0 <em>Rede de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial do SUS<\/em>].<\/p>\n<p>Eu, fazendo assim, eu acho que eu me olho mais. Principalmente agora, acompanhando a reuni\u00e3o para constru\u00e7\u00e3o do 18 de Maio virtual, voc\u00ea fala assim: \u2018Nossa, essas mulheres, essas cabe\u00e7as pensantes, que est\u00e3o a\u00ed desde o in\u00edcio da Reforma Psiqui\u00e1trica. Eu, penso assim: Gente, \u00e9 um privil\u00e9gio muito grande da minha parte conviver com essas mulheres, ver essa hist\u00f3ria&#8230; Eu estou chegando [nos movimentos sociais da Luta Antimanicomial] 30 anos, um pouco mais de 30 anos, depois de tudo, mas ainda \u00e9 sempre tempo de&#8230;<\/p>\n<blockquote><p>Me emocionei, constata Leida.<\/p><\/blockquote>\n<p>Eu voltei e ouvi tudo o que eu disse at\u00e9 aqui&#8230;. para ver se d\u00e1 para entender. Eu acho, assim, me emocionei porque \u00e9 realmente apaixonante. Sabe, eu sei que nem todos v\u00e3o se apaixonar, entrando a\u00ed para os movimentos sociais e conhecendo os servi\u00e7os de sa\u00fade mental do SUS. Mas, talvez, n\u00e3o precisa se apaixonar, mas, pelo menos, conhecer&#8230; tem que conhecer o SUS!<\/p>\n<p>Conhecer os Centro de Conviv\u00eancia, os CERSAM\u2019s [<em>Centro de Refer\u00eancia em Sa\u00fade Mental, servi\u00e7os da RAPS de Belo <\/em><em>Horizonte<\/em>] e as propostas desses lugares. Conhecer a rede e da\u00ed ir procurando se inteirar sempre&#8230; Ir em palestras, ouvir muita coisa sobre o adoecimento mental e ir conhecendo.<\/p>\n<p>Tem um pai [de um usu\u00e1rio de servi\u00e7o da RAPS de BH] que acompanha o filho. Apesar de ter m\u00e3e, tem uma rela\u00e7\u00e3o de muito conflito com o filho. Ent\u00e3o, quem acompanha \u00e9 o pai. Eu fiquei sabendo, recentemente, que esse pai, ele estuda demais! Ele l\u00ea muito sobre o que o filho tem. Ent\u00e3o, ele \u00e9 muito tranquilo! Porque ele n\u00e3o exige nada do filho: essas mudan\u00e7as&#8230; ele n\u00e3o exige. Ele s\u00f3 acompanha o filho e pronto! Ele fica, assim, querendo, realmente, respostas. Isso n\u00e3o tem jeito, mas, n\u00e3o cobra do filho.<\/p>\n<p>Tem uma outra coisa&#8230; o relacionamento em casa&#8230; n\u00e3o tirar autonomia dele(a), n\u00e9. N\u00e3o tirar, n\u00e3o s\u00f3 em casa, mas em lugar nenhum. \u00c9 deixar que ele(a) continue fazendo todas as coisas [do dia-a-dia]. Ele(a) tem que fazer. Servir seu pr\u00f3prio prato, por exemplo. Se derramar, limpa, n\u00e9. Mas n\u00e3o precisa ser voc\u00ea tamb\u00e9m a limpar. Pede! Fala assim: \u2018Quando derramar, n\u00e3o tem problema. \u00c9 s\u00f3 voc\u00ea pegar um pano ou papel e limpar. N\u00e3o se preocupa!\u2019 N\u00e3o ficar de cima, sabe. Chamar para participar: se \u00e9 para ajudar na cozinha, ver o qu\u00ea que ele(a) pode fazer. Se h\u00e1 uma reuni\u00e3o, um grupo, todo mundo sentado, chama ele(a) tamb\u00e9m para participar. <strong>Todo mundo tem direito \u00e0 <\/strong><strong>fala e que ele(a) tamb\u00e9m tenha a fala dele(a). Deixa ele(a) falar!<\/strong> E se ningu\u00e9m conseguiu acompanhar ou entender? Ok. Se voc\u00ea consegue formular uma pergunta pra entender melhor, pergunta. Se n\u00e3o, come\u00e7a um outro assunto e a conversa continua, mas ele(a) tamb\u00e9m tem que estar na roda! Sempre com muito respeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o excluir, em momento algum. N\u00e3o excluir de encontros ou momentos com a fam\u00edlia: seja um grande evento, uma festa chiqu\u00e9rrima ou um simples almo\u00e7o. De forma alguma excluir! E \u00e9 sempre do jeito dele(a). E pode ser que ele(a) n\u00e3o se vista de forma adequada. Voc\u00ea vai ver que isso da\u00ed, \u00e9 insignificante! Se no caso for uma coisa chique e ele(a) n\u00e3o estiver vestido(a) \u2018igual ou \u00e0 altura\u2019 daqueles&#8230; daquelas roupas chiques&#8230; n\u00e3o tem problema! <strong>Est\u00e1 a\u00ed a pandemia para nos mostrar que nada disso tem valor!<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante do desafio de conversar sobre o lugar da fam\u00edlia e dos amigos de uma pessoa em sofrimento ps\u00edquico grave, compreendemos que essa fala deveria vir de quem tem um saber para comunicar &#8211; um [&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":419,"parent":80,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"class_list":["post-82","page","type-page","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/82","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=82"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/82\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":560,"href":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/82\/revisions\/560"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/80"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/wp-json\/wp\/v2\/media\/419"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufmg.br\/saudemental\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=82"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}