UFMG lança cátedra para ampliar diálogo com saberes tradicionais
Com a iniciativa, a Universidade se instrumentaliza para acolher mestres e mestras como pesquisadores em condições equivalentes às de docentes e convidados acadêmicos
Por Matheus Espíndola
Em cerimônia ocorrida na manhã desta sexta-feira (5) no auditório da Reitoria, a UFMG inaugurou a Cátedra Saberes Tradicionais, do Instituto de Estudos Avançados e Transdisciplinares (Ieat). A iniciativa marca o compromisso institucional de reconhecer, integrar e valorizar saberes produzidos por povos indígenas, quilombolas, afrodescendentes e demais comunidades tradicionais. A cerimônia reuniu a diretora do Ieat, professora Patrícia Kauark Leite, a pró-reitora adjunta de Assuntos Estudantis, professora Shirley Aparecida de Miranda, além de lideranças indígenas, quilombolas e de representantes da patrona da cátedra, a deputada federal Célia Xakriabá.
Representando a administração da UFMG, a pró-reitora Shirley Miranda destacou que a Universidade mantém, há quase três décadas, o diálogo com os “saberes tradicionais”, materializado na oferta de formação intercultural para educadores indígenas, na criação das ações afirmativas e na institucionalização da Formação Transversal em Saberes Tradicionais.
Segundo a dirigente, esse percurso possibilitou não apenas a chegada de estudantes indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais à Universidade, mas também a circulação de cosmologias, métodos, valores e práticas que redefiniram o próprio modo de ensinar e pesquisar. Para ela, a inauguração da cátedra representa “um novo passo no reconhecimento de saberes insurgentes, que insistem em existir apesar do genocídio cultural”. Esses saberes, acrescentou, “não são complementares ou auxiliares da ciência, mas formas legítimas de conhecimento”. O ambiente da cerimônia – marcado por cantos ancestrais, presença ritual, elementos simbólicos e alimentos tradicionais – reforçou essa dimensão de encontro entre mundos.
Laboratório Institucional
A diretora do Ieat, Patrícia Kauark Leite, aprofundou esse diagnóstico ao afirmar que a criação da Cátedra transforma o instituto em um laboratório institucional dedicado à pluralidade epistemológica, capaz de acolher mestres e mestras tradicionais como pesquisadores em condições equivalentes às de docentes e convidados acadêmicos. Para ela, trata-se de uma ruptura simbólica e conceitual: a universidade deixa de enxergar esses saberes como expressões culturais periféricas e passa a reconhecê-los como sistemas complexos de conhecimento, fundamentais para enfrentar crises ambientais, desigualdades sociais e desafios democráticos que exigem múltiplas formas de compreender o mundo.
As mestres e lideranças presentes reforçaram essa perspectiva. A indígena Liça Pataxoop, da aldeia Muã Mimatxi, afirmou que a cátedra materializa “um sonho antigo”, possibilitando a presença de um conhecimento que nasce da terra, do território e da memória coletiva – e que, ao entrar na universidade, não deve perder sua forma própria de existir. A liderança Makota Kidoialê, do quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, destacou que “o momento é histórico porque reconhece oficialmente que mestres quilombolas e afrodescendentes são produtores de conhecimento e precisam estar na universidade não como convidados ocasionais, mas como protagonistas da vida intelectual”. Para ela, a cátedra abre a possibilidade de transformar resistência histórica em política institucional, garantindo presença, financiamento, visibilidade e permanência desses saberes.
Desafios
Durante a solenidade, também foram destacados os desafios que acompanham a institucionalização da cátedra. Reconhecimento efetivo de mestres e mestras como pesquisadores universitários, revisão de critérios tradicionais de autoria, evidência e validação científica, construção de práticas de tradução intercultural que preservem cosmologias, valores e modos de transmissão próprios de cada tradição e a superação das assimetrias institucionais ainda presentes entre universidade e comunidades tradicionais estão entre os principais desafios apontados.
Ao reiterar que o Ieat é um instituto vocacionado à experimentação intelectual e a atravessar fronteiras disciplinares, Patrícia Kauark afirmou que a cátedra amplia essa missão ao acolher saberes que historicamente ficaram à margem do mundo acadêmico, “não por insuficiência, mas por hierarquias epistêmicas construídas ao longo da modernidade”. O diálogo entre ciência, mito, oralidade, experiência territorial, memória ancestral e filosofia, afirmou ela, fortalece a universidade ao possibilitar sua operação em zonas de convergência entre sistemas distintos de conhecimento, capazes de propor respostas mais justas, criativas e eticamente responsáveis para os desafios contemporâneos.
O evento foi encerrado com a apresentação do grupo Mulheres Bordadeiras do Vale do Jequitinhonha, que entoaram cânticos tradicionais e exibiram técnicas de fiação e bordado transmitidas entre gerações.
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