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Opinião

Quando a política se transforma em espetáculo

Ao recorrer a uma encenação, o debate público é deslocado do campo argumentativo para o terreno da provocação

Por Andrés Zarankin | Professor do Departamento de Antropologia e Arqueologia da Fafich

A deputada estadual Fabiana Bolsonaro em discurso-encenação na Assembleia Legislativa de São Paulo
Reprodução Alesp

Nos últimos dias, muitos de nós assistimos, entre perplexos e indignados, a um suposto “experimento social” protagonizado pela deputada Fabiana Bolsonaro. Ao pintar o rosto, o pescoço e os braços de marrom, a parlamentar buscou sustentar a ideia de que identidade não pode ser dissociada de características biológicas fixas – argumento mobilizado para deslegitimar identidades trans. O problema, porém, não está apenas na fragilidade dessa premissa política, mas na forma como foi apresentada: simplificadora, caricatural e intelectualmente inconsistente.

A tentativa de reduzir identidades complexas a uma leitura estritamente biológica que ignora não apenas décadas de produção científica nas áreas da genética, da psicologia e das ciências sociais, como também desconsidera a experiência vivida de milhões de pessoas. Ao recorrer a uma encenação, o debate público é deslocado do campo argumentativo para o terreno da provocação, no qual o impacto imediato tende a se sobrepor à consistência.

Há, ainda, uma contradição reveladora. A mesma parlamentar que defende uma concepção rígida e essencialista da identidade adota, na esfera pública, um nome que não corresponde ao seu de nascimento (Barroso), vinculando-se simbolicamente a um projeto político e a uma figura masculina específica. Isso não configura uma equivalência com as identidades de gênero – e é importante não confundir os planos –, mas evidencia que identidades sociais e públicas também são, em alguma medida, construídas, negociadas e performadas, em outras palavras “trans”.

A seletividade com que essa flexibilidade é reconhecida expõe os limites do argumento apresentado. Soma-se a isso o fato de que, em 2022, a própria parlamentar se autodeclarou “parda” à Justiça Eleitoral – categoria que, no Brasil, refere-se a pessoas de origem racial mista –, condição que lhe permitiu acessar recursos específicos de financiamento de campanha. A mudança posterior na forma de se identificar – “mulher Cis branca” – reforça o caráter estratégico e situacional dessas classificações.

Temas complexos são reduzidos a slogans, e questões sensíveis são instrumentalizadas como peças de disputa simbólica.

O episódio tampouco é isolado; já vimos isso acontecer há pouco tempo na Câmara dos Deputados, em Brasília. À luz das reflexões do filósofo francês Guy Debord, pode-se compreender esse caso como parte de uma tendência mais ampla, na qual a política se aproxima perigosamente do espetáculo. Nesse cenário, performances calculadas, gestos provocativos e declarações de alto impacto passam a operar como estratégias de mobilização, frequentemente em detrimento de um debate público qualificado. Temas complexos são reduzidos a slogans, e questões sensíveis são instrumentalizadas como peças de disputa simbólica.

Diante desse quadro, impõe-se uma reflexão sobre os rumos do debate público no país. Quando instituições falham em estabelecer limites claros para práticas que banalizam questões fundamentais, recai sobre a sociedade – e, em última instância, sobre o eleitorado – a responsabilidade de exigir maior rigor, seriedade e compromisso com a realidade. Afinal, quando a política se transforma em espetáculo, não é apenas o debate que se empobrece: é a própria ideia de vida pública que se degrada.

Artigo originalmente publicado no jornal Le Monde Diplomatique Brasil, em 26/3/2026.

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