Acervo de Tony Vieira, expoente do Cinema da Boca, é exposto na EBA
Estruturada em parceria com o Museu da Imagem e do Som de BH e com a Prefeitura de Contagem, mostra reúne materiais fotográficos e fílmicos restaurados da coleção do cineasta
Por Hellen Cordeiro
A Escola de Belas Artes e a Casa de Cultura de Contagem, por meio da Secretaria de Cultura do município, firmaram parceria para a conservação preventiva e restauração de acervos fotográficos e fílmicos da coleção do cineasta Tony Vieira e do movimento Cinema Boca do Lixo. A iniciativa é da professora Jussara Vitoria de Freitas do Espírito Santo, doutora em Artes pela UFMG e coordenadora do Acervo Imagens de Minas, vinculado à Rede de Museus e Espaços de Ciência e Cultura da UFMG.
O projeto Extroversão e conservação “Cinema da Boca” teve início em 2024 ao ser contemplado por editais da Pró-reitoria de Extensão e do Apubh, que possibilitaram o acesso a recursos para a conservação do acervo, telecinagem de trechos de filmes e a produção do documentário que integra a exposição.
O trabalho reuniu estudantes do curso de graduação em Conservação-Restauração de Bens Culturais Móveis, integrantes do Grupo de Pesquisa Núcleo Imagens de Minas, professores e bolsistas. “A difusão e a preservação de acervos no contexto universitário são de grande importância para a manutenção do patrimônio acadêmico, cultural e histórico das instituições de ensino superior”, afirma Jussara Freitas.
Registros fotográficos, filmes em 35 milímetros, figurinos, cartazes dos filmes e outros objetos relacionados à trajetória de Tony Vieira foram previamente inventariados pela Gerência de Museologia, Arquivologia e Bens Patrimoniais, vinculada à Secretaria de Cultura de Contagem. Os mais de 60 itens que integram o acervo passaram por técnicas especializadas que garantem a preservação da memória de um dos expoentes do cinema local e do Cinema da Boca de Lixo. Parte da coleção integra o Acervo Imagens de Minas e os do Museu da Imagem e do Som de Belo Horizonte e da Casa de Cultura em Contagem – onde Tony Vieira passou parte da juventude –, cada um deles com uma tipologia específica.
“A proposta não é apenas uma exibição estética de materiais visuais, mas também uma reflexão profunda sobre a história cultural e social que esses cartazes cinematográficos representam. Ao explorar a conexão entre cinema e os contextos históricos de sua produção, a exposição oferece uma nova perspectiva sobre a importância do cinema como uma forma de arte que, ao longo do tempo, tem sido capaz de influenciar e ser influenciada pelas transformações sociais”, explica Jussara.
Movimento popular
A Boca do Lixo tornou-se reduto da produção cinematográfica de São Paulo entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1980. Os filmes, cujo conjunto é popularmente conhecido como “Cinema da Boca”, eram produzidos no centro da cidade e nos bairros da Luz, Santa Ifigênia e Campos Elíseos, onde se concentravam estúdios e produtores independentes. O local hoje abriga a Cracolândia, ocupada por moradores de rua e dependentes químicos.
Os filmes da Boca do Lixo davam materialidade a um cinema popular. Caracterizadas por baixo orçamento e por retratarem um ambiente marginal, com toques de erotismo e experimentação, as produções exploravam gêneros diversos como comédias, dramas, pornochanchadas, filmes de ação, policiais e de kung fu. O movimento se intensificou no fim da década de 1960 em meio à repressão política da ditadura militar. Foi nesse período que Tony se destacou como um dos principais expoentes da vertente, dedicando-se à produção de filmes de faroeste, policiais e pornochanchadas que retratavam a Boca do Lixo paulistana.
Mauri de Oliveira Queiroz nasceu em Dores do Indaiá, em 17 de julho de 1937. Ainda criança, mudou-se para Contagem acompanhando uma trupe de circo, que integrou como trapezista e apresentador das atrações da companhia. No início de 1960, em Belo Horizonte, começou a fazer teatro amador e atuou na TV Itacolomi por quase cinco anos. Em 1965, mudou-se para São Paulo, adotou o nome artístico Tony Vieira e foi contratado pela TV Excelsior – na emissora, atuou em novelas como O pintor e a florista. Na TV Tupi, participou de outras duas novelas, entre as quais, Estrelas no chão, de Lauro Cesar Muniz.
Foi no cinema, entretanto, que Tony Vieira ganhou projeção. Além de ator, foi diretor, roteirista e produtor de mais de 30 filmes, entre os quais se destacam Sob o domínio do sexo (1973), O exorcista de mulheres (1974) e A filha do padre (1975) – obra com mais de 1 milhão de espectadores –, suas produções de maior bilheteria. Em 1990, Tony Vieira retornou a Contagem, onde viveria seus últimos dias. Ele faleceu no dia 11 de março, aos 52 anos, em decorrência de um câncer generalizado.
Os itens da coleção de Tony Vieira estão no Espaço Memória do corredor do Acervo Imagens de Minas da EBA (3º andar) da UFMG. A exposição Cinema da Boca apresenta o percurso de uma produção que marcou a história do cinema brasileiro. A mostra poderá ser visitada até a primeira semana de dezembro. A partir daí, integrará projetos de itinerância em instituições parceiras. Pesquisadores, estudantes e interessados na obra do cineasta podem consultar a coleção mediante agendamentos por meio do endereço acervoimagensdeminas@gmail.com.
O acervo é estudado em diversas disciplinas da graduação e da pós-graduação e está disponível para atividades de pesquisa, ensino e extensão. Os catálogos da coleção de cartazes e de objetos tridimensionais podem ser baixados gratuitamente no site da EBA.
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