“A vida não é câmara de eco, é dissonância”, diz Leonardo Sakamoto, em defesa da divergência
No ciclo UFMG Centenária, jornalista e cientista político abordou estratégias para construção do diálogo em sociedade; burrice, que ele associa ao menosprezo ao conhecimento e a quem o detém, deve ser combatida
Por Luana Macieira
Na noite de terça-feira, dia 25, o jornalista Leonardo Sakamoto ministrou a palestra Falta amor no mundo, mas também interpretação de texto – redes, diálogo e direitos humanos no Brasil hoje. A palestra, que integrou o Ciclo de Conferências UFMG Centenária – Universidade e Democracia, lotou o auditório da Reitoria, no campus Pampulha. Depois da conferência, mediada pela reitora Sandra Goulart Almeida, o jornalista lançou seu novo livro, O que os coaches não te contam sobre o futuro do trabalho, escrito em parceria com Carlos Juliano Barros.
Sakamoto iniciou a sua fala abordando o significado da palavra “burrice”, que, em sua visão, está relacionado à falta de diálogo que hoje predomina no debate político no país. O jornalista explicou que a burrice não diz respeito à falta de um conhecimento específico, mas ao menosprezo ao conhecimento e ao ódio por quem o detém. “Um camponês, por exemplo, pode não saber navegar na internet, mas sabe produzir o alimento. É impossível saber sobre tudo e a beleza da vida está justamente no fato de que vivemos em uma sociedade com complementaridade de saberes, ou seja, precisamos uns dos outros”, disse.
O jornalista afirmou que a burrice está relacionada à tentativa de silenciamento de vozes dissonantes e à destruição, de forma violenta, do conhecimento que ameaça jogar luz sobre a ignorância. “A burrice não aceita a existência de um fato que vai contra a sua crença. Ela brada que tudo é fake news por não admitir um conteúdo diferente do que ela prega. Isso acontece na esquerda e na direita, não é monopólio de ninguém. O que as pessoas precisam entender é que a dissonância não deve ser vista como ruído, mas como música.”
O esvaziamento de palavras como “democracia” e “comunismo” também foi apontado por Sakamoto como um dos motivos da dificuldade do diálogo no país. O jornalista explicou que a palavra “comunismo”, por exemplo, foi retirada de seu sentido original, que é o de “propriedade comum dos meios de produção”, tornando-se, no país, um comando para o linchamento digital. “O objetivo do esvaziamento de algumas palavras e expressões é fazer com que essas palavras sejam repositórios de todo o mal que existe. Muitos que xingam pessoas de comunistas nem sabem o que essa palavra significa. Se soubessem, perceberiam que não devemos temer o comunismo, mas, sim, as versões atualizadas do fascismo e do nazismo”, esclareceu.
O ensino como ferramenta de luta
Leonardo Sakamoto argumentou que a educação é uma das melhores ferramentas para combater a burrice. O jornalista afirmou que governos autoritários tentam, com frequência, enfraquecer a educação, visto que é mais fácil convencer e manipular pessoas que não conhecem as suas histórias. Sakamoto relembrou o regime nazista, que ateava fogo em livros e em bibliotecas. O jornalista fez um paralelo das queimas de obras ocorridas naquela época com a censura que alguns livros sofrem ainda hoje.
“Não estou falando que o que ocorreu naquela época é a mesma coisa que acontece com a censura de obras que a gente vê hoje, como a sofrida pelo livro O avesso da pele, do Jeferson Tenório. Essa obra, por retratar a violência policial, acabou sendo recolhida de algumas bibliotecas brasileiras. A burrice é atemporal e universal. Por isso, as universidades são instituições com papel central para evitar uma era das trevas por aqui. Elas contribuem para o respeito às ideias divergentes e para a discussão da ética”, disse.
Sakamoto complementou seu temor quanto à censura de obras contando um caso pessoal. Ele disse que, há algum tempo, um casal de amigos contou-lhe que circulava em grupos de whatsapp da escola de seus filhos o pedido para que as crianças jogassem fora os livros comunistas de seus pais. “Livros sobre direitos humanos foram depredados em uma biblioteca da Universidade de Brasília (UnB), e isso remete às cenas das montanhas de livros em chamas que eu citei anteriormente. Quando o ex-presidente Bolsonaro quis acabar com o ensino da filosofia nas escolas – disciplina considerada a mãe de todas as ciências –, ele fez um salve à burrice, em uma clara manifestação de negação do conhecimento. A burrice avança quando o governante acha que dá para construir uma sociedade jogando, na lata do lixo, o que a gente usa para refletir sobre nossos erros e acertos.”
O jornalista fez questão de destacar a importância do ensino de história como arma contra a burrice e como ferramenta para o enfrentamento de regimes autoritários. Ele citou que há pessoas que acreditam que a terra é plana ou que a mudança climática não existe. Há também pessoas que não entendem que a “descoberta” do Brasil se deu por meio de um genocídio indígena, ou que a Lei Áurea não culminou na independência econômica de negros, mas, sim, em uma mudança na metodologia de exploração desse povo.
“Sem que a história da ditadura, por exemplo, seja conhecida e contada, a gente corre o risco de esquecer que a nossa liberdade não caiu do céu, mas custou sangue de muita gente. Não é à toa que o ensino da história é atacado por aqueles que querem reescrevê-la. O ensino da nossa história tem poder.”
Intervenção fora das bolhas
Leonardo Sakamoto contou que o grande desafio para a criação de uma sociedade democrática e justa reside no diálogo entre as opiniões dissonantes. Esse diálogo, acrescentou o jornalista, deve ser baseado no fato de que, mesmo pertencendo a espectros políticos distintos, todas as pessoas almejam direitos humanos.
“Para alguns, a Declaração Universal dos Direitos Humanos é vista como um problema incômodo e deve ser removida em nome da economia e do progresso. Precisamos encontrar valores, princípios e desejos em comum para a construção de um caminho conjunto. Para isso, é necessário explicar às pessoas o que são os direitos humanos, esses direitos aos quais deveríamos ter acesso pelo simples fato de sermos seres humanos. Tem gente pregando que direitos humanos é coisa de bandido. Precisamos esclarecer isso para as pessoas.”
Para que esse esclarecimento ocorra por meio do diálogo, Sakamoto propõe um desafio: devemos, todos nós, sair de nossas “bolhas” e buscar o diálogo e o debate com aquilo que é diferente, com a voz dissonante. “O desconhecimento sobre o outro produz medo, e esse medo se transforma em ódio. Se percebermos, na pessoa que pensa diferente de nós, alguém que também defende os mesmos direitos, teremos condições de construir um país melhor. Saiam das redes sociais porque o algoritmo não vai nos ajudar a construir a empatia que só é possível ao lado das pessoas. O algoritmo constrói as bolhas e nos faz ouvir apenas o que está de acordo com o que pensamos, em uma espécie de câmara de eco. Mas a vida não é uma câmara de eco. A vida é dissonância.”
Sakamoto afirmou entender que a saída das redes sociais pode ser difícil. Para ele, é aí que a escola e as universidades exercem seu papel “como um lugar fora das bolhas e que possibilita o encontro com o dissonante e com o debate. A educação ensina que o debate é possível. Precisamos garantir que as pessoas vejam que discursos dissonantes podem conviver no mesmo teto e que a ultrapolarização leva à fragmentação social. Se você não tem contato com o outro lado, você vive em uma realidade diferente e se torna incapaz de vislumbrar a construção de uma sociedade comum.”
A intervenção é vista, então, como mais uma arma para combater a burrice e as fake news. Quando fala em “intervenção”, Sakamoto se refere ao diálogo, ao debate e à conversa com aqueles que pensam diferente de nós, mas nos são próximos, como amigos e parentes que encontramos nas festas de fim de ano e que acreditam que não houve tentativa de golpe após as eleições de 2022 ou que a terra é plana.
“Há como dialogar com quem é bombardeado por fake news? É difícil, mas tem jeito. A nossa intervenção no nosso microuniverso faz uma grande diferença. Já existem pesquisas que mostram que a intervenção é a melhor arma que temos. Devemos procurar aquilo que nos une porque isso faz com que as pessoas se reconheçam como seres humanos.”
Outro desafio proposto pelo jornalista é o exercício da resistência. Segundo ele, há uma campanha contra a ciência porque governos autoritários, para prosperarem, precisam atacar as fontes de conhecimento e os discursos que impedem a construção de uma realidade paralela. “O ataque do governo Bolsonaro às universidades públicas não foi à toa. Eles queriam esvaziar as vozes capazes de questionar a narrativa que eles construíam. Para nós, não há muita saída além da resistência. É tentar mostrar para sociedade que as universidades são importantes. É mostrar a relevância da ciência e da história.”
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