Macaé Evaristo: extensão universitária é central no enfrentamento da violação de direitos humanos
Ministra dos Direitos Humanos e Cidadania fez a conferência de abertura de congresso sobre extensão, comunicação e cultura que segue até esta sexta-feira, na UFMG
Por Teresa Sanches
Com Assessoria de Comunicação da Procult
A educação em direitos humanos está no centro da transversalidade da agenda de debate sobre redes para internacionalização da extensão, comunicação e cultura universitária, avaliou a ministra dos Direitos Humanos e Cidadania do Brasil, Macaé Evaristo, durante a conferência de abertura do 8º Congresso de Extensão, Comunicação e Cultura da Associação de Universidades do Grupo Montevidéu (AUGM). A conferência da ministra abriu, na quarta-feira, dia 26, o Congresso de Extensão e os demais eventos que integram uma extensa programação, que prossegue até esta sexta-feira, 28, no campus Pampulha, com transmissão pelo canal da Coordenadoria de Assuntos Comunitários (CAC) no YouTube.
Macaé Evaristo iniciou sua fala reiterando que “não é possível pensarmos o Brasil sem pensarmos juntos com os países da América Latina e Caribe e até da África Global. Somos povos irmãos, forjados na mesma história, que carregam cicatrizes profundas mas também a força inabalável da resistência e da mudança”.
E a extensão universitária, segundo a ministra, “tem centralidade inegociável no movimento e articulação para troca de saberes e de tecnologias”. Ela acrescenta que “a universidade quando sai dos seus muros encontra a vida e adquire uma potência de mudança que nenhuma sala de aula pode replicar sozinha”.
A ministra reiterou “que é aqui, nesse campo fértil, que a política institucional, a academia e os movimentos sociais se encontram, dialogam e promovem o intercâmbio dos diversos conhecimentos em busca desse outro mundo que precisamos, urgentemente, assegurar, inspirado na sabedoria ancestral dos povos andinos, indígenas e negros”.
“Após séculos de discriminação e desigualdades estruturais, a universidade é um projeto de nação, um projeto de soberania e de defesa da democracia. Significa defender a vontade e a cidadania da nossa população, garantindo que o Brasil decida o seu próprio destino e faça uma escolha consciente de que a barbárie, as guerras e as violações aos direitos não cabem em nosso projeto de emancipação social”, afirmou.
A ministra reforçou o papel das instituições de ensino superior como “rede colaborativa para a produção de conhecimentos e que a educação em direitos humanos também é crucial para alcançarmos a justiça social que tanto almejamos”.
Macaé Evaristo referiu-se à iniciativa da rede de universidades do Grupo Montevidéu como uma visão do futuro, que acredita na potência das redes de integração, em defesa da democracia e respeito aos direitos humanos. Ela destacou a participação da UFMG na resistência aos ataques sofridos pelas universidades públicas nos últimos anos – “tempos muito duros que rondam todos os países da América Latina” – e nas inúmeras experiências de articulação entre ensino, pesquisa e extensão, nos campos das artes e da cultura, com escolas de educação básica, formação de professores, cuidado aos povos xacriabá e Yanomamis.
“A extensão nos ajuda a produzir essa interlocução com as comunidades e a captar as tecnologias de autocuidado, de cuidado coletivo, de garantia dos direitos e sistematizar esses conhecimentos construídos pelas próprias comunidades, para embasar as políticas institucionais”.
“Quero ainda destacar que mais de uma centena de entidades de ensino, pesquisa e extensão integram a rede nacional de direitos humanos. Essa é uma política muito importante para o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, alinhada à produção de conhecimento com base na ciência, em evidências, para que possamos promover políticas públicas efetivas. E aqui, mais uma vez, eu chamo a atenção para a extensão, porque muitas vezes as pessoas falam em políticas baseadas em evidências. A extensão traz, de maneira muito efetiva e qualificada, essas evidências populares, construídas com prática e troca de saberes”.
“A extensão universitária, portanto, está no centro das nossas potencialidades de mudança. Ela é um espaço não só formativo, mas fundamentalmente criativo. Tornar esses espaços cada vez mais inclusivos e participativos é o global cada vez mais livre, com autonomia plena e com profundo senso de justiça social. A mudança que o nosso planeta precisa passa pelas universidades que se estendem, que se encontram com o povo e com o povo constrói o futuro”.
Escuta, crítica e esperança ativa
O pró-reitor de Extensão da UFMG, professor Glaucinei Correa, anfitrião da edição extensionista do Congresso da AUGM, reafirmou “o compromisso social como o fundamento das universidades públicas da América Latina” e convocou a extensão universitária para “o enfrentamento dessas desigualdades, de maneira direta, dialógica e colaborativa”.
Segundo o dirigente da Proex, diante dos desafios de reconstrução das universidades públicas, no contexto da América Latina, somente por meio de redes de internacionalização e de interiorização será possível construir, em diálogo com as comunidades, respostas para o enfrentamento das injustiças e desigualdades que atravessam gerações.
“E a extensão universitária, com dimensão formativa e indissociável do ensino e da pesquisa, se coloca como uma das ferramentas mais fortes para sustentar essa colaboração pela escuta, pela crítica e pela esperança ativa junto aos movimentos sociais, para superação desses desafios. A integração latino-americana é hoje imperativo ético e político”, afirmou.
Homenagem
Em mensagem enviada por vídeo aos participantes do encontro, o presidente da AUGM, Clarito Rojas, reitor da Universidade Nacional de Concepción, Paraguai, afirmou que as políticas institucionais de ensino, pesquisa e extensão das universidades públicas associadas “é um programa ousado para enfrentar os objetivos propostos para o o desenvolvimento sustentável dos países latino-americanos”. Ele parabenizou e agradeceu à UFMG, na pessoa da reitora Sandra Regina Goulart Almeida, as contribuições à frente da associação e pelo compartilhamento de experiências enriquecedoras para o ensino da América Latina e Caribe.
O secretário executivo da AUGM, Fernando Sosa, referendou a importância dessa rede de 160 instituições de ensino superior de sete países, “como uma caixa de ressonância necessária para a integração latino-americana”. Sossa homenageou a reitora Sandra Regina Goulart Almeida, “a primeira presidenta mulher da AUGM que demonstra tanta dedicação e compromisso pela educação pública”.
Em suas boas-vindas aos congressistas latino-americanos, Sandra Goulart Almeida enfatizou a prioridade que os países da América Latina – “essa que é uma das regiões mais desiguais do mundo” – precisam dispensar à educação como bem público. Para a reitora, que situou o evento na densa programação de comemorações do centenário da UFMG, em 2027, “quando falamos em rede de cooperação e internacionalização, precisamos pensar no papel da educação superior em nossos países. Afinal, não se faz educação sem respeito ao estado democrático e respeito aos direitos humanos”.
Cultura, artes e comunicação
O pró-reitor de Cultura (Procult) da UFMG, Fernando Mencarelli, também reiterou a força da Rede de Cultura e Artes da AUGM e de instituições ligadas à Andifes, iniciada em 2024 para propor respostas para as transformações aceleradas da sociedade contemporânea. De acordo com Mencarelli, os representantes das mais de 20 universidades públicas que integram a rede estão empenhados em dar continuidade aos trabalhos de articulação iniciados no ano passado.
“Pró-reitores, secretários de cultura, diretores e coordenadores de cultura, bem como pesquisadores refletiram sobre como as políticas culturais em nossas universidades podem ser respostas aos desafios que afetam nossa região a partir das transformações aceleradas de nossas sociedades. A partir daí, definiram uma série de encaminhamentos para obter esse propósito, entre os quais, a realização desse primeiro encontro, caracterizado como uma reunião ampliada com o propósito de definir programas, projetos e ações em conjunto”, disse o pró-reitor.
Desse encontro resultará um documento-síntese com as propostas de programas, projetos e ações apresentadas pelos cinco grupos de trabalho temáticos da Rede: Democracia e cidadania cultural, territórios e redes de espaços culturais universitários; Diversidade cultural e pluralidade epistemológica; Campo de trabalho das artes na América Latina; Políticas, planos de arte e cultura e avaliação nas universidades; Cultura e emergência climática.
Nesta quinta-feira, 27, as proposições de cada grupo foram apresentadas e debatidas em uma grande mesa conjunta. O professor Francisco Brinatti, pró-reitor de Extensão e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei, participou das deliberações sobre o tema Democracia e cidadania cultural, territórios e redes de espaços culturais universitários. “Trabalhamos a questão da cultura dessa ‘nova universidade’ que, nos últimos anos, passou por um processo de interiorização, mudando os territórios em que está inserida. No nosso grupo de trabalho, havia representantes do Nordeste, do Sul, do Sudeste e do Norte do país, além de outros países. Temos vários sotaques, várias experiências que tendem a ampliar os nossos horizontes e melhorar cada vez mais o acesso democrático à cultura no nosso país”, avaliou.
Leia mais sobre o eixo cultura do evento da AUGM em reportagem publicada no Portal da Procult.
A diretora do Centro de Comunicação (Cedecom) da UFMG, Fábia Lima, que também coordena a Associação Permanente de Meios e Comunicação da AUGM, avaliou que é preciso fortalecer as redes e trabalhar em colaboração. “Eventos como esses são espaços privilegiados de produção de conhecimento e de diálogo, para enfrentamento dos desafios, nesse cenário de infodemia e de negacionismo científico”.
Retrospectiva e perspectiva
A professora Claudia Mayorga (pró-reitora de Extensão da UFMG de 2019 a 2024) fez um apanhado histórico dos últimos dez anos do contexto das universidades públicas, “um período cheio de rupturas, retrocessos e, ao mesmo tempo, de muita luta e reinvenção coletiva, em que os países da América Latina viveram transformações profundas que desafiaram as nossas democracias, nossas instituições e, sobretudo, nossa capacidade coletiva de imaginar futuros”.
Segundo a professora do Departamento de Psicologia da UFMG, o momento “não foi apenas de uma crise política, mas de uma crise ética e civilizatória”. A professora relembrou que, quando “a pandemia de covid-19 expôs as contradições do Estado enquanto faltavam políticas de proteção social, foram as universidades e outras instituições públicas que entraram em campo com produção de conhecimento, desenvolvimento de vacinas, redes de cuidado e combate à desinformação. “Elas provaram que o conhecimento é, acima de tudo, um instrumento de cuidado e de defesa da vida”, afirmou.
Sobre os avanços normativos, a professora citou a resolução do Conselho Nacional de Educação de 2018, “que consolidou as diretrizes da extensão universitária, afirmando a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, cumprindo um princípio que está na nossa constituição e a obrigatoriedade de 10% da carga horária em atividades extensionistas, aproximando formação e território”.
A TV UFMG acompanhou a abertura do encontro e conversou com a ministra Macaé Evaristo. Na noite de terça-feira, a reportagem da emissora esteve na conferência do jornalista Leonardo Sakamoto no âmbito do ciclo UFMG Centenária. O resultado das duas coberturas pode ser conferido no vídeo a seguir.
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