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Saúde indígena

Na Índia, professora da Escola de Enfermagem apresenta guia de atenção ao pré-natal da Terra Yanomami

Coordenado por Érica Dumont Pena, projeto foi um dos 21 selecionados entre 1.175 propostas de todo o mundo

Por Assessoria de Comunicação da Escola de Enfermagem da UFMG

A antropóloga Maria Christina Barra e a coordenadora do projeto, professora Érica Dumont
Foto: Acervo pessoal

O Projeto Redes de Cuidado na Terra Indígena Yanomami (TIY), com seu produto, o Temi Totihi – Guia de Atenção ao Pré-Natal na Terra Indígena Yanomami, foi selecionado como um dos 21 projetos mundiais, entre 1.175 propostas submetidas globalmente, para apresentação na Segunda Cúpula Global da Organização Mundial da Saúde de Medicina Tradicional, realizada de 17 a19 de dezembro, em Nova Delhi, na Índia. A professora Érica Dumont Pena, do Departamento de Enfermagem Materno-infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da UFMG, coordenadora do projeto, apresentou o guia e materiais educativos, como vídeos e curso de qualificação  profissional.

O material, que se destaca como o primeiro guia intercultural de cuidados pré-natais do Brasil, apresenta diretrizes para a qualificação da atenção ao pré-natal com base no reconhecimento da complexidade dos contextos locais, da necessidade de construir uma atenção diferenciada que responda às condições de vulnerabilidade da TIY e seja sensível às potentes práticas de autoatenção das mulheres Yanomami e Ye’kwana.

A professora Érica Dumont explica que, historicamente, desigualdades e negligências estruturais marcaram a atenção à saúde da população Yanomami e Ye’kwana, agravando os casos de mortes evitáveis. “O Território Indígena Yanomami, o maior do Brasil, enfrenta taxas extremamente elevadas de mortalidade materna e neonatal, impulsionadas por invasões de minas ilegais, malária, desnutrição e pela fragilidade histórica dos serviços de saúde. Durante décadas, o pré-natal, assim como outras formas de assistência, foi guiado por protocolos biomédicos genéricos que não levavam em consideração as línguas indígenas, as dinâmicas territoriais ou os modos locais de cuidado”, disse.

Traduzido do idioma Yanomami, Temi Totihi significa “viver bem e com saúde”, o que reflete o caráter ético para a saúde materna intercultural proposto pelo guia. A base científica da pesquisa combina análises epidemiológicas de bancos de dados nacionais com evidências qualitativas e etnográficas coletadas por meio de oficinas comunitárias, observação participante e histórias orais no território Yanomami. 

“Foi especial apresentar [o projeto] na Cúpula, sobretudo, por compreender que a perspectiva que orienta o nosso trabalho é a mesma que a OMS vem afirmando como proposta e meta para o fortalecimento da saúde nos próximos anos. Muito se falou sobre uma virada na forma de organizar a saúde em escala global, dedicada ao fortalecimento do cuidado tradicional como estratégia de prevenção e de promoção da saúde coletiva”, enfatizou Érica Dumont.

Projeto Redes de Cuidado
Com caráter interinstitucional e interdisciplinar, o projeto tem o objetivo de desenvolver atividades colaborativas para o fortalecimento de ações de saúde com foco no cuidado pré-natal e em saúde sexual e reprodutiva das mulheres Yanomami e Ye’kwana. As ações ocorrem em Roraima, tanto na Terra Indígena Yanomami quanto na capital, Boa Vista, e também em Belo Horizonte ou a distância, por meio de oficinas, produção de materiais, cursos on-line, atividades de estudo e formação de profissionais indígenas e não indígenas que atuam na TIY.

“Metodologias colaborativas capazes de considerar dinâmicas interculturais de saberes, bem como as especificidades do subsistema de saúde indígena, foram propostas para refletir e construir protocolos e práticas de saúde que estejam adequados aos modos de vida dessas populações e às necessidades do território”, esclarece a professora. 

O projeto articula um conjunto de atividades desenvolvidas por professores e estudantes da Escola de Enfermagem, da Faculdade de Medicina, da Faculdade de Educação, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), pesquisadores e colaboradores  da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), do Instituto Socioambiental (ISA), Hutukara Associação Yanomami (HAY), Associação Wanasseduume Ye’kwana (Seduume), Projeto Xingu (Unifesp), do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami Ye´kuana (Dseiyy), do Ministério dos Povos Indígenas e do Hospital Sofia Feldman. 

Medicina Tradicional
Organizada pelo Centro Global de Medicina Tradicional da OMS, a Cúpula reuniu lideranças políticas, profissionais de saúde e representantes de comunidades tradicionais em Nova Délhi, na Índia. Agentes de várias regiões do mundo debateram a proteção da biodiversidade, os direitos de propriedade intelectual sobre saberes tradicionais e o papel da medicina tradicional no enfrentamento de doenças. 

Em 2025, com o lema Restaurando o equilíbrio: a ciência e a prática da saúde e do bem-estar, o evento discute maneiras de fortalecer a base de evidências, aperfeiçoar a regulação e integrar essas práticas de maneira responsável às políticas públicas.

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