Aula inaugural do Pibid 2024-2026 reúne centenas de futuros professores da escola básica
Os 600 bolsistas desta edição do programa foram estimulados pelo catedrático António Nóvoa a acreditar na força humanitária da docência
Por Teresa Sanches
“Neste momento de incertezas e de ataques aos direitos humanos e à democracia, tempo em que as tecnologias e o uso da inteligência artificial dominam processos de trabalho e induzem delírios e fantasia de que a IA poderia substituir os professores, precisamos assegurar as bases dessa profissão. A educação é o encontro entre humanos, e essa força nunca, jamais, será substituída por máquinas. A profissão de professor é a profissão do futuro e com futuro”, afirmou o professor António Nóvoa, durante a aula inaugural para professores das redes públicas da educação básica, bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid 2024-2026) da UFMG, realizada na última sexta-feira, dia 31, no Centro de Atividades Didáticas I (CAD I).
Os bolsistas desta edição do Pibid são estudantes que atuam em escolas públicas de educação básica há pelo menos dois anos. Oriundos dos municípios de Belo Horizonte, Contagem, do Sul da Bahia e de várias cidades do interior de Minas Gerais, eles participarão de 19 subprojetos de formação inicial e continuada ofertados pela UFMG. Estudantes receberão bolsas no valor mensal de R$ 700, e professores supervisores, R$ 1,1 mil. Elas serão custeadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) do Ministério da Educação.
Segundo a professora da Faculdade de Educação (FaE) Vanessa Regina Eleutério Miranda, os bolsistas contarão com 75 professores supervisores nas escolas básicas e outros 27 docentes da UFMG para acompanhar e orientar suas atividades, que serão intercaladas por estudos teóricos e atividades práticas nas escolas e de desenvolvimento de material didático. Os efeitos esperados dessa parceria, acrescentou, “vão desde a melhoria da qualidade da formação, com maior integração dos professores da educação básica com a UFMG, até a valorização do magistério, com foco na construção do espaço comum de formação docente”.
Metamorfose da escola
O professor António Nóvoa, primeiro ocupante da Cátedra Fundep/Ieat Magda Soares de Educação Básica e reitor honorário da Universidade de Lisboa, reforçou a defesa da escola pública como lugar de respeito à diversidade e do trabalho em comum. Para o catedrático, que tem mais de 40 anos de experiência internacional na formação de professores, a escola do futuro está em transformação. “Temos que respeitar nosso passado e a nossa história que continua a se fazer pelo processo de metamorfose. A escola do futuro não será de carteiras alinhadas em salas de aula fechadas. Precisamos de novos ambientes de ensino, mais diversos e inclusivos, para que professores e alunos vivam e trabalhem em comum, com respeito à diversidade, para que cada um seja o que quiser ser.”
Sobre os desafios da profissão docente, o professor reconhece a realidade dos baixos salários, da violência nas escolas, do baixo prestígio e reconhecimento social da profissão e também a fragilidade da formação docente. Mas convidou os professores e gestores da Universidade a “romper esse ciclo vicioso”. “A partir desse lugar, da universidade pública, encontraremos resposta para vencer esse ciclo. Não podemos passar a vida a pensar e a fazer diagnósticos sobre a educação. Por isso, ações como o Pibid, criado há 20 anos, são tão importantes. E eu me orgulho de ter ligação com esse programa, quando foi lançado, em 2007. Infelizmente, o propósito de que fosse provisório, para que seus conceitos e bases se alargassem para todos os licenciandos, de todas as universidades, não se concretizou”, lamentou.
O catedrático reiterou que os três princípios centrais que norteiam o programa de fomento à formação inicial e continuada de professores devem ser preservados: o primeiro é a ideia de formar a profissão docente sobre o pilar do trabalho conjunto entre universidade e escolas básicas. Segundo Nóvoa, esse princípio é fundamental para que ocorra a socialização e a vivência profissional entre licenciandos e professores. O segundo princípio é o de que os estudantes das licenciaturas e professores dominem os conhecimentos científicos e os conhecimentos pedagógicos e didáticos, “que muitas vezes não estão nos livros, mas em outras bases epistemológicas”. O terceiro princípio para a formação docente é “o reconhecimento da escola como instituição pública, uma instituição promotora de vida social e cultural, fundada nas relações do encontro, e não uma prestadora de serviços a clientes”, reiterou.
Rede inédita e ambiciosa
A iniciativa de criação da Rede Mineira de Formação de Professores, que integra as 19 instituições de ensino superior vinculadas ao Foripes, “é um projeto do qual a UFMG pode se orgulhar”, afirmou o professor Nóvoa. “Nesses meus 40 anos de experiência pelo mundo, não conheci um projeto tão ambicioso como esse. É disso que precisamos, a coragem de dar o primeiro passo, a partir do qual, muitas vezes, é possível vislumbrar todo o caminho. Todos sabemos que sem educação não é possível desenvolver um país. E é para isso que precisamos de professoras e professores. Hoje, mais do que nunca, face aos desafios postos, precisamos dos professores para alargar o futuro das crianças, para lhes dar mais possibilidades, para que cheguem aonde nunca chegariam sem o nosso trabalho.”
Os bolsitas do Pibid Álvaro e Arthur dos núcleos de Geografia e de Mídia e Educação de Jovens e Adultos, respectivamente, perguntaram ao catedrático como lidar com a Lei nº 15.100/25, que proíbe uso de celulares e aparelhos eletrônicos portáteis em escolas públicas e particulares, em vigor a partir desta segunda-feira, 3 de fevereiro, e sobre outros desafios da docência como a preservação das relações humanas e a liberdade de religião diante do negacionismo da ciência.
O professor António Nóvoa ponderou que o uso de celulares em sala de aula é um assunto controverso. Mas reiterou sua ideia de que os estudantes sempre devem ser chamados a participar das decisões, que normalmente lhes são impostas. “Sempre falamos para os estudantes e sobre eles. Mas quase nunca lhes damos voz”, afirmou. Quanto à liberdade e respeito das relações humanas nas escolas, o professor defendeu, novamente, a escola como instituição que educa, que deve ensinar ciência e, com respeito às culturas locais, ampliar o conhecimento sobre outras culturas, para além da cultura familiar dos estudantes.
“A educação é uma viagem para além de nossa cultura familiar. E a ciência, com todos os seus limites e contradições, é uma das poucas linguagens comuns que ainda resta para nos comunicarmos uns com os outros. Precisamos assumir nosso lugar em defesa da escola pública. A dimensão coletiva da profissão docente precisa ser fortalecida para enunciarmos novas propostas”, defendeu o catedrático.
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