‘Conexão das licenciaturas com a extensão vai reenergizar formação de professores’, prevê Nilma Lino Gomes
Professora emérita, que fez conferência no 5º Seminário Práticas Docentes, vê com bons olhos movimento em que a Universidade se deixa interpelar pelos diferentes grupos sociais
Por Teresa Sanches e Carol Carvalho
Embora a extensão seja uma das dimensões constitutivas das universidades, indissociável do ensino e da pesquisa, sua integração aos currículos dos cursos de graduação no Brasil foi regulamentada apenas recentemente. No caso das licenciaturas, a Resolução CNE/CP nº 4/2024 tornou obrigatória a destinação de, no mínimo, 10% da carga horária total de 3.200 horas a atividades extensionistas realizadas em escolas de educação básica.
“Essa conexão das licenciaturas com a extensão vai reenergizar a formação de professores ao provocar deslocamentos necessários para a horizontalização de saberes na Universidade”, projeta a professora emérita da Faculdade de Educação Nilma Lino Gomes, que participou, na semana passada, da quinta edição do Seminário práticas docentes: desafios e possibilidades da extensão nas licenciaturas para a construção de espaços comuns de formação de professores na UFMG.
“Vejo essa normatização da extensão nos currículos como fruto das lutas de grupos que sempre acreditaram ser possível a Universidade dialogar com a sociedade. Essa organização já estava prevista no PNE [Plano Nacional de Educação] e pode ser um avanço, se for entendida no sentido emancipatório”, observa a professora, uma das precursoras da política de ações afirmativas na UFMG.
Conforme as atuais diretrizes curriculares nacionais (DCN), que orientam a formação de profissionais do magistério para atuar nas escolas de educação básica, os currículos dos cursos de licenciatura devem contemplar, no mínimo, 3.200 horas, sendo 420 horas destinadas a estágios supervisionados e, no mínimo, 320 horas (equivalentes a 10% do total) dedicadas às atividades de extensão, que devem ser realizadas nas escolas.
Segundo Nilma Lino Gomes, “a dimensão normativa dessa regulamentação não deve se sobrepor à dimensão humanizadora da extensão, que não vem substituir o estágio, mas pode atravessar e provocar as práticas docentes, contribuindo para reenergizar tanto as licenciaturas quanto a própria extensão como campo legítimo de expressão”.
Conhecer para democratizar
Durante o evento, que reuniu estudantes, docentes da UFMG e das escolas de educação básica, Nilma provocou os participantes com a pergunta: “Quem de vocês já leu o PDI [Plano de Desenvolvimento Institucional] da UFMG, ou o PPP [plano político-pedagógico] da sua escola? Precisamos conhecer os documentos reguladores e refletir sobre suas propostas para que ninguém venha, de forma autoritária, maquiar antigos modelos, cercear a liberdade e os direitos dos educadores ou nos deseducar sobre a democracia”, advertiu.
A professora afirmou ainda considerar que a baixa procura pelas licenciaturas obriga as instituições de ensino superior a se reinventar e a repensar seus cursos. “A parceria significativa dessa interação entre extensão e licenciaturas precisa se tornar o ponto de deslocamento para a organização dos currículos, de forma a romper com as caixinhas e provocar na Universidade o movimento de saída de si mesma para que ela se deixe interpelar pela interação com diferentes grupos sociais”.
Para Nilma Gomes, a extensão precisa sair do patamar inferior na hierarquia das três dimensões universitárias, onde muitas vezes é tratada no nível do utilitarismo ou da prestação de contas ou ainda na função de atender ao mercado. “Penso na extensão que indaga tudo isso e estabelece novas formas de conexão, orientadas pela representação social de coletivos diversos, com seus saberes e práticas, a exemplo das experiências de interação propostas pela Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS)”, sugeriu.
A linha pedagógica da UPMS, explicou a professora emérita, é colaborar para a emancipação social e transformar as relações de poder por meio de autoridade compartilhada de saberes, promovida por meio de oficinas de longa duração em que os participantes são imersos em discussões sobre temas de impacto social e em geração de produtos.
Nilma Gomes reiterou a importância da extensão universitária como direito da sociedade e dever da instituição pública, “que, neste momento de tensionamentos à democracia, apresenta-se não como dimensão salvadora, mas como possibilidade de articulação conjunta para gerar condições de uma formação mais humana e sensível às questões sociais”.
Cerne da formação
Durante os dois dias de seminário, houve apresentação de atividades e experiências de extensão que se articulam com a formação inicial e continuada de professores. As mesas-redondas reuniram docentes, estudantes egressos e servidores técnico-administrativos da UFMG, professores e gestores das escolas de educação básica.
O diretor da Escola Municipal de Educação Infantil Helbert José de Souza, professor Saint Clair Marques, apresentou a experiência da instituição e reiterou que “tudo o que acontece na comunidade se reflete na escola e que os estudantes das licenciaturas devem estar preparados para essa realidade”.
O professor Seme Gebara Neto, do Instituto de Ciências Exatas (ICEx) da UFMG, abordou o projeto de extensão Descobridores da matemática, que coordena há mais de 10 anos, e a técnica em assuntos educacionais Ilma Bicalho, da Diretoria Acadêmica da Prograd, discorreu sobre a integralização da extensão nos currículos de graduação, processo definido na UFMG como formação em extensão. Um panorama das experiências de extensão universitária como dimensão pedagógica na formação docente, seus desafios e possibilidades foi apresentado pelo professor Helder Eterno Silveira, do Instituto de Química da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
O pró-reitor de Graduação, Bruno Otávio Soares Teixeira, enfatizou que as ações realizadas no âmbito da política de formação de professores na UFMG “demonstram o compromisso da Universidade com as escolas de educação básica e a compreensão de que tal articulação precisa ser fortalecida numa perspectiva dialógica”.
Para o pró-reitor de Extensão, Glaucinei Corrêa, que apresentou os avanços e desafios para a formação em extensão na UFMG, “o trabalho conjunto entre as pró-reitorias possibilita que a extensão, assim como o ensino e a pesquisa, contribua para o protagonismo estudantil e a troca de experiências e saberes na produção de conhecimento em conjunto com a sociedade”.
O Seminário de Práticas Docentes é promovido desde 2020 pela Comissão de Formação Inicial e Continuada de Professores da Educação Básica (Comfic), vinculada à Diretoria Universidade e Escola Básica (Dueb) da Pró-reitoria de Graduação.
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