UFMG concede, na segunda, título de Doutor Honoris Causa a Milton Nascimento e a Toninho Horta
Impossibilitado de comparecer, Bituca será representado por professores da Escola de Música e pelo parceiro de Clube da Esquina; cerimônia será seguida de show em tributo
Por Ewerton Martins Ribeiro
Nesta segunda-feira, 22 de dezembro, os músicos Milton Nascimento e Toninho Horta receberão o título de Doutor Honoris Causa da UFMG. A solenidade terá início às 19h no auditório da Reitoria, no campus Pampulha. O título de Milton será recebido por professores da UFMG e por Toninho Horta, em nome do amigo.
Ao término da solenidade haverá um show em tributo à trajetória dos dois agraciados. Serão três apresentações: uma de estudantes de música popular da Escola de Música, outra de professores da unidade e a terceira com o próprio Toninho Horta, fechando a programação da noite.
A cerimônia é aberta ao público, sujeita à lotação. Caso o auditório alcance sua capacidade máxima, as pessoas serão direcionadas a outros espaços físicos do campus Pampulha, em que haverá então a transmissão simultânea da cerimônia e das apresentações.
A proposta de concessão do título a Toninho Horta partiu do professor Mauro Rodrigues, da Escola de Música. O próprio Rodrigues e o seu colega de Unidade, Wilson Lopes, são autores da proposta de concessão a Milton Nascimento. Lopes é guitarrista e maestro da banda de Milton há vários anos.
Mauro Rodrigues, por sua vez, talvez seja o professor da UFMG mais próximo dos integrantes e do universo músico-cultural do Clube da Esquina, movimento de artistas fundado por Milton e Lô Borges nos anos 1960, que tem em Toninho Horta, desde a década de 1970, um dos seus mais proeminentes expoentes.
O ‘virtuose’
De família profundamente ligada à música, Toninho Horta nasceu em 2 de dezembro de 1948 em Belo Horizonte. Começou a tocar ainda na primeira década de vida; em meados da segunda, começou a compor e a participar de festivais.
Na década de 1970, estabeleceu-se como um dos protagonistas do Clube da Esquina; em 1980, lançou seu primeiro álbum autoral, Terra dos pássaros, “obra que evidencia sua sofisticação harmônica e a originalidade de sua identidade musical”, explicam professores da Escola de Música na proposta de concessão do título ao artista.
Nos anos que se seguiram, Toninho Horta acabou reconhecido como “um dos mais influentes guitarristas da música mineira, brasileira e do jazz da atualidade”. Com efeito, o músico já foi apontado, em levantamentos internacionais especializados, como um dos cinco melhores guitarristas do mundo – um verdadeiro “virtuose”, como se costuma dizer no mundo da música.
Sua carreira inclui colaborações em apresentações e gravações de renomados artistas da MPB, como Dominguinhos, Gal Costa, Maria Bethânia, Edu Lobo, João Bosco, Elis Regina, Djavan, Gilberto Gil. Também são muitas as suas parcerias internacionais, o que só ampliou sua influência e seu legado no cenário musical.
Em 2020, Toninho Horta venceu o Latin Grammy, na categoria de Melhor Álbum de MPB com o disco duplo Belo Horizonte, lançado em 2019 como parte das comemorações dos seus 50 anos de carreira. Antes, já havia recebido duas indicações, em razão de outros de seus mais de 30 discos lançados. Ao longo de quase seis décadas de carreira, registrou mais de 100 composições.
Em 2021, o professor Mauro Rodrigues, que é compositor, arranjador e instrumentista especialista em flauta, fez uma entrevista-show com o músico no Conservatório UFMG, em evento que integrou a programação do Festival de Inverno UFMG daquele ano. A íntegra da apresentação está disponível no YouTube:
‘Bituca’
Milton Nascimento nasceu no Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1942, mas logo “tornou-se” mineiro, mudando-se para Três Pontas ainda na primeira infância. Com pouco mais de 20 anos, migrou para Belo Horizonte, onde avançou na carreira musical que havia iniciado ainda na cidade do interior de Minas.
Na capital, Milton começa então a atuar como crooner, ao lado de Wagner Tiso, um de seus grandes parceiros musicais de toda a vida. (Em 1999, Milton inclusive lançaria um álbum de estúdio com esse nome, com repertório que faz referência a essa época inaugural de sua carreira, em que cantava os grandes sucessos de todos os tempos).
Nos anos seguintes, em Belo Horizonte, Milton começa “a frequentar o ponto dos músicos, local onde os músicos da cidade se reuniam esperando contratação para bailes e apresentações”, como explicam os professores da Escola de Música. “Esses encontros foram uma espécie de escola informal, em que as habilidades musicais foram desenvolvidas e postas à prova”, lembram.
Milton segue mergulhando no efervescente movimento cultural e musical de Belo Horizonte, onde finalmente conhece Lô Borges, seu parceiro e amigo de vida toda, morto recentemente. “Nesse ambiente de convívio e interação musical, o Bituca desenvolveu sua singular voz, de cantor, instrumentista, arranjador e compositor”, afirmam os professores. Começam a surgir as primeiras parcerias, as primeiras composições. Nasce o Clube da Esquina.
De toda essa trajetória emerge o Milton Nascimento que conhecemos hoje, um artista de prestígio internacional, dono de voz única, autor de composições inovadoras e emocionantes. Emerge, em suma, um dos maiores expoentes da música brasileira de todos os tempos, amado por diferentes gerações – um ídolo de ídolos estrangeiros tão diversos como o estadunidense Paul Simon, amigo e parceiro musical, e a islandesa Björk (que chegou a gravar a canção Travessia em português).
A doença, as homenagens
Aos 83 anos, Milton Nascimento tem enfrentado graves problemas de saúde; em outubro, a família revelou que ele foi diagnosticado com demência por corpos de lewy, doença neurodegenerativa progressiva. Sem cura, ela provoca sintomas mentais parecidos aos da Doença de Alzheimer e sintomas físicos parecidos com os da Doença de Parkinson, como tremores e rigidez muscular.
Ao saber do diagnóstico, seu filho, Augusto Nascimento, realizou no início deste ano uma bonita viagem de motorhome com o pai pelos Estados Unidos, como forma de proporcionar a ele uma última grande experiência estética quando ainda em posse de suas faculdades de plena fruição. A história é contada em reportagem da revista piauí.
Na última semana, Milton Nascimento recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em mais um reconhecimento da relevância de sua obra “como instrumento de resistência, crítica social e afirmação de identidades ao longo de mais de seis década de trajetória artística”.
Antes, o cantor e compositor já tinha sido agraciado pela Universidade do Estado de Minas Gerais, em 2012, pela Berklee College of Music, de Boston, nos EUA, em 2016, pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 2024, e pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), também em 2024.
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A história da maior honraria
Conforme preconiza o artigo 69 do Regimento Geral da UFMG, títulos honoríficos “são instrumentos através dos quais a Universidade distingue, honra e homenageia personalidades que tenham prestado contribuição relevante à educação, à ciência e à cultura, em geral, e à UFMG, em particular”.
A UFMG outorga quatro grandes títulos honoríficos, descritos no artigo 62 do Estatuto da UFMG e especificados no artigo 70 de seu Regimento Geral: Doutor Honoris Causa, em reconhecimento a contribuições relevantes para a ciência, a tecnologia ou a cultura, Professor Honoris Causa, em reconhecimento a contribuições relevantes para a educação; Professor Emérito, homenagem aos professores aposentados da UFMG, cujos serviços ao magistério e à pesquisa forem considerados de excepcional relevância; e Benemérito, em reconhecimento a contribuições materiais relevantes para a UFMG.
A concessão do Doutor Honoris Causa depende de proposta fundamentada, subscrita por pelo menos cinco membros do Conselho Universitário ou da Congregação proponente e aprovada em escrutínio secreto pelo voto de, no mínimo, dois terços dos membros de ambos os colegiados. Foi esse o caminho percorrido pelas propostas de atribuição do título a Milton Nascimento e a Toninho Horta até chegar à cerimônia agendada para esta segunda-feira.
A concessão do título ocorreu pela primeira vez em 1928, um ano após a fundação da Universidade, com a homenagem ao jurista José Xavier Carvalho de Mendonça. Desde então, mais de 20 pessoas foram agraciadas, entre as quais, o ex-presidente Juscelino Kubitschek (homenageado em 1960), o escritor português José Saramago (1999), a física americana Mildred Spiewak Dresselhaus (2012) e a cantora lírica Maria Lúcia Godoy (2016).
Por diferentes motivos, a honraria não chegou a ser entregue a quatro personalidades que tiveram seus nomes aprovados pelo Conselho Universitário: o poeta Carlos Drummond de Andrade, o economista Celso Furtado, o arquiteto Oscar Niemeyer e o compositor e escritor Chico Buarque de Holanda. Além disso, em julho de 2022, o Conselho Universitário aprovou a outorga do título ao arquiteto e Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel e ao filósofo Daisaku Ikeda, ambos ativistas dos direitos humanos. No entanto, as indicações perderam efeito, uma vez que os títulos não foram entregues em até um ano após a sua concessão.
Em 29 de abril deste ano, o Conselho Universitário aprovou a concessão do Doutor Honoris Causa ao ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, que faleceria logo depois. A expectativa é que a viúva de Mujica, a senadora uruguaia Lucía Topolansky, receba a homenagem em nome do marido em sessão solene a ser agendada.
Doutores Honoris Causa da UFMG
– José Xavier Carvalho de Mendonça, jurista brasileiro, em 1928
– Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, bacharel em Direito, político brasileiro e ex-presidente de Minas Gerais, em 1930
– Juscelino Kubitschek de Oliveira, médico, político brasileiro e ex-presidente da República, em 1960
– Rodrigo Melo Franco de Andrade, advogado, jornalista e escritor brasileiro, em 1961
– John Van Nostrand Dorr II, geólogo estadunidense, em 1966
– Carlos Chagas Filho, médico, professor e cientista brasileiro, em 1979
– Carlos de Paula Couto, paleontologista e professor brasileiro, em 1980
– Desmond Mpilo Tutu, arcebispo sul-africano da Igreja Anglicana (Prêmio Nobel da Paz), em 1987
– Francisco Curt Lange, musicólogo teuto-uruguaio, em 1989
– José Saramago, escritor português (Prêmio Nobel de Literatura), em 1999
– Marshall David Sahlins, antropólogo estadunidense, em 2007
– Manoel de Oliveira, cineasta português, em 2009
– Mildred Spiewak Dresselhaus, física e professora estadunidense, em 2012
– José Joaquim Gomes Canotilho, jurista e professor português, em 2013
– Robert Alexy, filósofo do Direito e professor alemão, em 2014
– António Manuel Pinto do Amaral Coutinho, médico imunologista e professor português, em 2014
– Maria Lúcia Godoy, cantora lírica brasileira, em 2016
– Nelson Freire, pianista brasileiro, em 2016
– David Paul Landau, físico e professor estadunidense, em 2017
– Antônio Augusto Cançado Trindade, jurista e professor brasileiro, em 2018
– Eugenio Zaffaroni, jurista argentino, em 2023
– Conceição Evaristo, escritora brasileira, 2025
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