Modo como os pais criam os filhos pode influenciar bruxismo em crianças
Tema do ‘Aqui tem ciência’, da Rádio UFMG Educativa, tese investiga como esse comportamento, que tem fundo emocional, está associado a três estilos parentais: democrático, permissivo e autoritário
O bruxismo – comportamento caracterizado pelo apertar ou ranger de dentes ou ainda por movimentos da mandíbula – pode afetar uma em cada quatro crianças brasileiras durante o sono, segundo revisão de estudos publicada em 2022 por pesquisadores da UFMG e da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Uma pesquisa concluída em 2024 no Programa de Pós-graduação em Odontologia da UFMG avaliou a prevalência do bruxismo entre 301 crianças com idade de quatro a sete anos, residentes em Divinópolis, na região Oeste de Minas Gerais. Foram constatados percentuais de 31% de possível bruxismo do sono (ao dormir) e 16% de possível bruxismo em vigília (quando a pessoa está acordada).
Uma das inovações da pesquisa foi investigar a relação do bruxismo com o estilo parental adotado pelas famílias dessas crianças. Foram avaliados três estilos parentais: democrático, caracterizado pelo equilíbrio entre controle e afeto, autoritário, quando o controle se sobressai ao afeto, e permissivo, no qual o afeto se sobressai ao controle.
“O núcleo familiar tem papel muito importante no desenvolvimento psicológico infantil. Nós observamos que crianças cujos pais são mais democráticos apresentam menor prevalência do bruxismo”, avalia a odontopediatra Letícia Moreira, autora da tese. “Isso pode estar relacionado ao fato de que pais mais democráticos estimulam a independência das crianças e seu desenvolvimento emocional.”
Ela explica que o bruxismo costuma ser um mecanismo acionado na tentativa de aliviar pressões emocionais, como ansiedade e estresse. Assim, se a criança tem maior habilidade para lidar com as próprias emoções, possivelmente estará menos suscetível ao bruxismo.
Personalidade
Paralelamente, foram observados traços de personalidade das crianças, divididos entre psicoticismo, extroversão e o neuroticismo. O psicoticismo está relacionado a características como impulsividade e criatividade, e a extroversão, à sociabilidade e habilidade de comunicação. Por fim, o neuroticismo diz respeito à maior tendência de experimentar emoções negativas, como medo, timidez, ansiedade e estresse.
“Encontramos uma relação entre altos níveis de neuroticismo e maior frequência do bruxismo. E isso está em sintonia com estudos anteriores que também constataram essa associação”, observa Letícia. “Crianças que apresentam alto nível de neuroticismo têm dificuldade de lidar com pressões emocionais, como ansiedade e estresse. E isso pode fazê-las aliviar essas emoções por meio do bruxismo.”
Para a realização da pesquisa, familiares e cuidadores das crianças observadas responderam a um questionário por meio de formulário eletrônico. Crianças que usavam anticonvulsivantes ou que apresentavam síndromes ou alterações neurológicas não foram incluídas no estudo.
Na avaliação da autora, um dos aspectos importantes indicados pelos resultados é a necessidade do cuidado integral na infância, que envolve equipes multiprofissionais. “Quando pensamos em fatores psicológicos, não será o cirurgião dentista quem vai lidar com as características relacionadas ao estresse, ao estilo parental ou ao modo como os pais se relacionam com seus filhos. Isso joga luz sobre a colaboração interdisciplinar que deve estar envolvida nos tratamentos”, conclui.
A pesquisa teve orientação da professora Júnia Maria Cheib Serra-Negra e coorientação da professora Isabela Almeida Pordeus, ambas do Departamento de Saúde Bucal da Criança e do Adolescente. Durante o doutorado, Letícia Moreira contou com bolsa da Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Saiba mais sobre o estudo no novo episódio do Aqui tem ciência:
Raio-x da pesquisa
Título: Possível bruxismo do sono e em vigília na infância: prevalência, fatores associados e análise de caminhos
O que é: tese de doutorado que avaliou a ocorrência do possível bruxismo do sono e em vigília em crianças de quatro a sete anos. O estudo envolveu 301 familiares/cuidadores de crianças de quatro a sete anos, residentes em Divinópolis, Minas Gerais, que responderam a um questionário eletrônico. Foram avaliados a associação entre estilos parentais, traços de personalidade de crianças e a gravidade do possível bruxismo do sono, bem como os caminhos que influenciam os dois tipos de comportamento.
Autora: Letícia Fernanda Moreira dos Santos
Programa de Pós-graduação: Odontologia
Orientadora: Júnia Maria Cheib Serra-Negra
Coorientadora: Isabela Almeida Pordeus
Financiamento: Capes
Ano da defesa: 2024
O episódio 205 do Aqui tem ciência tem produção, roteiro e apresentação de Alessandra Ribeiro e trabalhos técnicos de Cláudio Zazá. O programa é uma pílula radiofônica sobre estudos realizados na UFMG e abrange todas as áreas do conhecimento. A cada semana, a equipe apresenta os resultados de uma pesquisa desenvolvida na Universidade.
O Aqui tem ciência vai ao ar na frequência 104,5 FM e na página da emissora, às segundas, às 12h45, com reprises às quartas, às 17h45, e pode ser ouvido também em plataformas de áudio como Spotify e Amazon Music.
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