Pandemia intensificou automutilação em adolescentes
Estudo do CTMM/UFMG analisou 55 artigos focados em jovens de diversos países; número de tentativas de suicídio manteve-se estável durante a crise sanitária
Por Marcus Vinicius dos Santos | jornalista do CTMM Medicina UFMG
A pandemia de covid-19 aumentou os casos de automutilação “não suicida” (quando não há intenção de morte) entre adolescentes. Esse foi um dos principais resultados de uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores do Centro de Tecnologia em Medicina Molecular (CTMM) da Faculdade de Medicina da UFMG. Eles investigaram se houve mudanças na frequência de fatores de risco relacionados à ideia de suicídio, às tentativas de suicídio e à automutilação em jovens. Os resultados da análise foram publicados em setembro na revista científica Frontiers in Psychiatry.
Coordenado pelos professores Débora Marques de Miranda, do Departamento de Pediatria, e Marco Aurélio Romano-Silva, chefe do Departamento de Psiquiatria, o estudo analisou 55 artigos focados em adolescentes com idade entre 10 e 19 anos, de diversos países.
Em comparação com os dados encontrados entre 2010 e 2019, o estudo mostra que a automutilação, a prática de cortar ou ferir o próprio corpo, cresceu na pandemia e sua prevalência ficou entre 17,6% e 27,9%. Já o número de tentativas de suicídio permaneceu estável.
Para garantir a confiabilidade dos dados, os autores do estudo seguiram o protocolo internacional Prisma (Itens de Relatório Preferenciais para Revisões Sistemáticas e Meta-análises, em tradução livre do inglês). Já os registros foram incluídos no Registro Prospectivo Internacional de Revisões Sistemáticas (Prospero).
O psiquiatra Danilo Bastos Bispo Ferreira, primeiro autor do artigo, explica que os principais fatores de risco se repetem em diferentes contextos: isolamento social, excesso de tempo diante das telas, conflitos familiares, dificuldades escolares e sintomas de depressão. “Não basta prevenir apenas o suicídio. A automutilação aumentou e pode ser a porta de entrada para problemas mais graves”, alerta o pesquisador.
Ações preventivas
Para enfrentar o problema, os pesquisadores defendem medidas como capacitar professores para identificar riscos, apoiar famílias vulneráveis com assistência psicossocial, criar serviços de saúde mental acolhedores, promover campanhas contra o estigma e a favor da busca por ajuda.
Marco Aurélio Romano-Silva reforça que políticas públicas precisam levar em conta desigualdades sociais, de gênero e perdas familiares. Débora Miranda acrescenta que pais e escolas devem observar sinais como ferimentos repetidos, mudanças de comportamento ou afastamento de amigos, pois a detecção precoce facilita o encaminhamento a tratamento especializado.
Próximos passos
Os autores destacam a importância de ampliar estudos que acompanhem jovens ao longo do tempo, incluir regiões pouco representadas como América Latina e África, investir em intervenções precoces com apoio tecnológico, fortalecer redes de apoio em escolas e comunidades e ampliar pesquisas longitudinais para acompanhar os jovens ao longo do tempo. Eles acrescentam que a convivência familiar, a harmonia em casa e o uso equilibrado da tecnologia podem reduzir os riscos de comportamentos autodestrutivos.
O INCT
O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurotecnologia Responsável é uma rede nacional de laboratórios dedicada a estudos relacionados ao cérebro e à neurotecnologia. A iniciativa busca desenvolver ciência e inovação alinhadas à ética, à participação social e ao impacto positivo na vida das pessoas.
Artigo: Suicidality and self-harm in adolescents before and after the covid-19 pandemic: a systematic review
Autores: Danilo Bastos Bispo Ferreira, Renata Maria Silva Santos, Maria Carolina Lobato Machado, Victhor Hugo Martins Rezende, Patrícia Gazire de Marco, Marco Aurélio Romano-Silva e Débora Marques de Miranda
Publicação: Systematic Review Article. Front. Psychiatry, v.16, em 18 de setembro 2025
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