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ECOLOGIA URBANA

Pesquisa mapeia quantidade e diversidade de aves em Belo Horizonte

Estudo que deriva de tese de doutorado desenvolvida no ICB pode ajudar no manejo das áreas verdes e na conservação das espécies

Por Luana Macieira

Tucanuçu foi uma das espécies encontradas em Belo Horizonte
Foto: Arquivo pessoal

Como a presença de áreas verdes interfere na diversidade de espécies de aves que habitam Belo Horizonte? Esse questionamento foi respondido no artigo How management practices shape the “local habitat signature” that modulates bird communities in urban green spaces, publicado na revista Biotropica, publicado no fim do ano passado. No estudo, um grupo de pesquisadores tentou entender como características locais de espaços verdes urbanos, como o tipo de vegetação (arbórea ou campestre) e de cobertura do solo (serrapilheira, grama ou asfalto), interferem nas comunidades de aves presentes nessas regiões.

Tulaci Bhakti é um dos autores do artigo, que deriva de sua tese de doutorado, defendida em 2023 no Programa de pós-graduação em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre do Instituto de Ciências Biológicas (ICB). O pesquisador conta que o grupo observou 60 pontos em Belo Horizonte, comparando as suas características com dados comportamentais, de alimentação e de peso de 148 espécies de aves. Os resultados mostram que as características locais, moldadas pela gestão e pelo uso dos espaços verdes – se integram corredores ecológicos ou parques, por exemplo – são fator determinante na seleção das espécies de aves presentes.

Ferreirinho-relógio: ave recebe esse nome porque seu canto lembra o ato de dar corda em um relógio
Foto: Arquivo pessoal

“Nossa ideia era entender a relação do local habitado pelas aves estão com a infraestrutura urbana, ou seja, se a presença de espaços verdes em parques, praças, cemitérios, ou até mesmo se a existência de corredores ecológicos afeta espécies de aves que vivem em certas áreas da cidade. Saber como o crescimento urbano impacta a conservação das aves é importante para que o desenvolvimento da cidade ocorra da melhor forma possível”, explica Bhakti.

Os 60 pontos de Belo Horizonte analisados estendem-se da região Norte (Mata Isidora, na divisa com Santa Luzia) até a região Sul (Mata da Baleia, divisa com Nova Lima) e compreende áreas das duas bacias hidrográficas mais importantes do município (bacias do Onça e do Arrudas). Bhakti explica que a metodologia foi feita em várias etapas. Inicialmente, o pesquisador se debruçou sobre imagens de satélite em busca de áreas verdes de Belo Horizonte. Posteriormente, ele visitou os 60 pontos escolhidos para observar as aves que os habitavam e as espécies vegetais desses locais. Finalmente, ele avaliou como as aves usavam os ambientes.

Alguns dos pontos mapeados pelo pesquisador em BH
Imagem: Tulaci Bhakti

“Algumas aves andam pelo chão, outras preferem lugares com folhas, e há algumas que optam por lugares mais escuros, fugindo da luz. Visitei cada um dos pontos cinco vezes na estação chuvosa, que é quando as aves mais territorialistas apresentam maior vocalização. Cada região funcionava como uma espécie de laboratório de ornitologia, pois eu ficava lá por cerca de 20 minutos observando e gravando o canto  das aves.”

Subsídios para o manejo
Depois do trabalho de campo, Tulaci Bhakti pesquisou a literatura existente sobre o tema para entender os costumes das aves observadas e as características que explicavam as suas ocorrências nos 60 pontos mapeados. Segundo o pesquisador, a caracterização desses locais traz definições que ajudam a gestão das prefeituras, pois os governos podem, com base nas descobertas, mudar o manejo de alguns locais para beneficiar as espécies. “O que  há em uma  área com mais espécies que pode ser replicado em outras?”, questiona.

Tulaci observou, ouviu e fotografou os pássaros
Foto: Arquivo pessoal

Ele acrescenta que a sua tese de doutorado também propõe um Índice de Adequabilidade Urbana à Biodiversidade (relatado em outro artigo científico publicado pelo autor). Para o desenvolvimento desse índice, os pesquisadores consideraram várias camadas urbanas e de biodiversidade, observando, por exemplo, as áreas onde há mais comércio, fluxo de veículos e iluminação pública: “Consideramos camadas de acessibilidade e ruídos e cruzamos essas características com o tipo de vegetação dos pontos considerados. A proposta era identificar as áreas com menos ruído e menos fluxo de pessoas e contrapô-las aos pontos de aparecimento das aves.”

Os pesquisadores consideraram 120 locais para mapear onde haveria o maior número de espécies e com a maior diversidade entre elas. “Percebemos que a presença de determinadas espécies nos locais está relacionada à maneira como a cidade cresceu. A vegetação pode ser apenas um atenuante, pois o fluxo de pessoas, os ruídos, tudo isso interfere na quantidade de espécies e na diversidade. O Parque Municipal, mesmo estando em uma mancha urbana cinza, representa um ponto importante de biodiversidade para Belo Horizonte”, exemplifica.

Outra vivência
Tulaci Bhakti afirma que o estudo mostra a necessidade de que as áreas verdes urbanas sejam protegidas para que, além da conservação das espécies, a cidade tenha uma importante ferramenta para combater a mudança climática e proteger suas nascentes. “São áreas que modificam o clima da cidade, e muitas delas não são áreas de conservação, por isso não estão protegidas.”

Ele também comemora o fato de que pesquisa possibilitou uma vivência diferente com Belo Horizonte, uma vez que o estudo exigiu várias visitas a locais que ele não conhecia ou não tinha o costume de frequentar. “No fim das contas, estive em cada área cinco vezes: uma para conhecer, três para catalogar as aves e a uma para medir e analisar a vegetação. Vivi a cidade de uma forma diferente e me senti um cidadão mais belo-horizontino que nunca”, diz ele.

Tulaci conta que está em negociação com a Prefeitura para avaliar o desenvolvimento de um corredor de biodiversidade, uma vez que o manejo em microescala dos espaços verdes urbanos pode ser otimizado para atender à conservação da fauna silvestre, em sintonia com o uso público. “Demonstramos que mesmo áreas altamente urbanizadas (em meio a edificações e outro locais impermeabilizados) podem contribuir significativamente para a conservação de aves devido ao mosaico de ambientes disponíveis”, conclui o pesquisador.

Parque Sol, no bairro Fernão Dias, foi um dos pontos mapeados por Tulaci Bhakti
Foto: Arquivo pessoal

Artigo: How management practices shape the “local habitat signature” that modulates bird communities in urban green spaces
Autores: Tulaci Bhakti, Diego Pujoni, Marcos Rodrigues e João Carlos Pena
Publicado na revista Biotropica e disponível on-line.

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