Sequenciamento genético conecta povo indígena dos EUA a sítio arqueológico sagrado
Estudo oriundo de tese defendida em regime de cotutela na UFMG e na Universidade de Copenhague pode ajudar os Picuris Pueblo a conquistarem direitos sobre território ancestral
Por Luana Macieira
Para testar sua ancestralidade, representantes de um povo indígena dos Estados Unidos recorreram a um grupo de geneticistas. O objetivo dos pouco mais de 300 representantes dos Picuris Pueblo era verificar, por meio de análise genômica, que eles estão conectados a uma população antiga que habitava a região de Chaco Canyon, distante 275 quilômetros de onde atualmente vivem, no estado do Novo México, nos Estados Unidos.
A conexão genética foi ratificada, e os Picuris Pueblo agora poderão requisitar o direito de opinar sobre questões relativas ao uso da área do Parque Nacional Histórico da Cultura Chaco. O resultado do estudo está no artigo Picuris Pueblo oral history and genomics reveal continuity in US Southwest, publicado na revista Nature. A pesquisa é um desdobramento da tese de doutorado do pesquisador Thomaz Pinotti, defendida sob cotutela do Laboratório de Biodiversidade e Evolução Molecular (LBEM) da UFMG e do Centro de Geogenética da Universidade de Copenhague, na Dinamarca.
Pinotti explica que, apesar de haver um elo ancestral entre os dois povos preservado pela tradição oral, tal ligação era questionada por parte da comunidade científica. Para as análises que comprovaram o parentesco genético entre as populações, foram avaliados os DNAs de 16 amostras de ossos de indivíduos que haviam sido coletados em 1965 por arqueólogos da Southern Methodist University (SMU), no Texas. As amostras antigas, que têm entre 1 mil e 2 mil anos, foram então comparadas às amostras de saliva de 13 membros atuais dos Picuris Pueblo, além de dados de outros 5,5 mil indivíduos do mundo todo. Após as análises, ficou comprovado que os Picuris apresentam uma relação genética muito próxima com os antigos habitantes de Chaco Canyon.
“A comprovação da relação cultural entre um povo indígena e uma região pode ajudar esse povo a requisitar o direito de participar de decisões importantes a respeito daquele território. Os Picuris decidiram realizar essa análise genética porque desejavam conectar as suas origens ao Parque Nacional”, diz Pinotti.
Controle
Desde o primeiro contato, os Picuris tiveram controle total sobre a pesquisa: participaram do planejamento inicial, autorizaram o uso de amostras genéticas, acompanharam os resultados genéticos e mantiveram o direito de encerrar o projeto a qualquer momento. A decisão de publicar os resultados foi tomada exclusivamente pela liderança da comunidade. Assim, ao assumir a iniciativa da pesquisa, eles se tornaram donos de seus dados genéticos, o que também funciona como ferramenta de empoderamento da comunidade indígena.
“Agora qualquer estudo sobre esses dados genéticos dos Picuris precisa ter anuência deles. É importante que um povo, além de conhecer a sua história, seja dono dela. Havia cerca de 10 mil Picuris Pueblo, hoje restam apenas 354. Esse tipo de estudo também pode contribuir para a conservação da cultura e da história dos Picuris”, observa Pinotti.
O professor do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG e orientador de Thomaz, Fabrício Santos, acrescenta que os Picuris que vivem na região de Chaco Canyon sofrem ataques porque o local é rico em petróleo e gás natural. “Os Picuris querem proteger a região porque ela é sagrada para eles. Há outros povos que se dizem conectados ao parque, mas são ignorados pelo governo norte-americano e excluídos das tomadas de decisão sobre seus interesses.”
Investigação de povos antigos
Fabrício Santos explica que análises de DNA antigo são importantes para que se conheça a história dos povos. O professor já liderou outros estudos desse tipo, como o que desvendou a ancestralidade dos Uros, indígenas habitantes do lago Titicaca, nos Andes, e outros sobre a origem de povos que habitam a Amazônia peruana, boliviana e brasileira. Em 2018, Santos e Pinotti integraram o grupo que publicou, na revista Science, o primeiro estudo de genomas completos antigos de indivíduos de Lagoa Santa coletados por Peter Lund, de mais de 10 mil anos.
“Nossos estudos genéticos prévios com indígenas modernos puderam estabelecer conexões históricas que ajudaram a reafirmar as narrativas das comunidades indígenas dos Uros e de Lamas, no Peru, por exemplo, mas essa pesquisa com os Picuris mostra claramente como os indígenas podem assumir o protagonismo de estudos científicos sobre suas próprias origens”, diz Santos.
O professor adianta que ele e Pinotti já estão planejando os próximos estudos com colaboradores dinamarqueses e da Universidade de São Paulo (USP). Os pesquisadores vão analisar amostras de solos para recuperar variedades antigas de cultivos e para entender as oferendas que eram feitas pelos povos. Trata-se do projeto AEGIS, que, por meio de análises de DNA ambiental, ajudará a equipe a recuperar espécies vegetais que podem ter desaparecido.
“Vamos tentar voltar no tempo através do solo. Esse tipo de análise já ocorreu no Hemisfério Norte, onde foi possível recuperar material genético de 2 milhões de anos na Groenlândia. Agora temos o desafio de fazer algo desse tipo por aqui e valorizar o rico patrimônio cultural que os indígenas brasileiros deixaram para a sociedade”, conclui Fabrício.
Os Picuris e a região de Chaco Canyon
Picuris Pueblo é uma das nações indígenas reconhecidas oficialmente pelo governo dos Estados Unidos, o que garante à comunidade um grau de soberania e acesso a políticas federais específicas. No comunicado de imprensa sobre o estudo divulgado pela Nature, Craig Quanchello, governador de Picuris Pueblo, contou que esse tipo de pesquisa possibilita que líderes indígenas fortaleçam legalmente a reivindicação de seus vínculos históricos e espirituais com as regiões que habitam e onde estão localizadas as ruínas de várias urbanizações pré-colombianas.
“Por séculos, comunidades indígenas têm contado com seu profundo conhecimento ecológico para sustentar suas terras e culturas. Hoje, enquanto enfrentamos desafios ambientais e políticos crescentes, a união da ciência de ponta com o conhecimento tradicional oferece um caminho poderoso. Usar a análise de DNA para traçar a relação do nosso povo com terras e fontes de água sagradas reforça nossas reivindicações legais e preserva o patrimônio cultural”, disse o governador.
A região de Chaco Canyon foi, entre os séculos 9 e 12, o centro de uma vasta rede cultural, política e cerimonial que se estendia por mais de 250 mil quilômetros quadrados, o equivalente ao tamanho do estado de São Paulo. A região abrigava gigantescos centros cerimoniais feitos de adobe, de até quatro andares – as chamadas Grandes Casas – construídos pelos ancestrais dos povos Pueblo. Mais de 150 dessas estruturas ainda existem no Parque Nacional Histórico da Cultura Chaco.
Artigo: Picuris Pueblo oral history and genomics reveal continuity in US Southwest
Disponível aqui.
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