Entenda por que conseguimos ver o disco lunar inteiro, mesmo quando a face visível da Lua não está totalmente iluminada pelo Sol

 

12 de maio de 2026

 

 

Por Filipe Ferreira, doutor em Física e astrônomo-assistente do Espaço do Conhecimento UFMG

 

Logo que se inicia o ciclo lunar, quando a Lua vai da fase nova para a crescente, e também perto de seu fim, na transição entre a fase minguante e a nova, notamos que apenas uma pequena porção da face lunar que vemos fica diretamente iluminada pelo Sol. Porém, nessas duas circunstâncias, além de observarmos uma fina borda brilhante, também somos capazes de enxergar o restante do disco lunar um tanto mais escuro. Você já se perguntou por que vemos essa parte escura da Lua? O que de fato estaria iluminando essa parte escura dela?

 

Earthshine through a 80 mm telescope – Luz Cinérea. (Créditos: AstronoMars Channel).

 

A emissão e a reflexão da luz pelos astros nem sempre foram conceitos amplamente compreendidos pela humanidade. A natureza física da própria Lua, se era um corpo sólido feito de rochas ou um corpo transparente feito de fogo, foram debatidos por muitos séculos ao longo da história. Ideias como essas, estabelecidas ao longo do tempo, foram discutidas no tratado “Sobre a Face Visível no Orbe da Lua”, de Plutarco (46 d.C. – 120 d.C.).  

 

Porém, já na antiguidade, antes mesmo do tratado de Plutarco, filósofos como Anaxágoras (500 a.C. – 428 a.C.) e Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) já haviam concluído que a Lua refletia a luz do Sol e até o fenômeno dos eclipses era compreendido. Então, a presença desse fraco brilho visto na porção escura da Lua poderia ser explicada por esses filósofos como uma espécie de brilho residual ou mesmo que a Lua poderia ser transparente. No entanto, esse fenômeno continuou sem uma explicação concreta por séculos. 

 

O fenômeno em questão é chamado de luz cinérea e só veio a ser corretamente explicado na transição da Idade Média para a Idade Moderna por Leonardo da Vinci (1452–1519). Por ter sido quem conseguiu explicar definitivamente esse fenômeno, o mesmo também é frequentemente chamado de Brilho de Da Vinci. Trata-se da luz do Sol refletida pela Terra, que ilumina a Lua e percebemos como um pálido brilho.

 

Esboço da luz cinérea feito por Da Vinci no início do século XVI.

 

Representação esquemática de como ocorre o fenômeno de luz cinérea. (Créditos: ESO/L. Calçada [adaptada pelo autor]).

 

Para entendermos esse fenômeno, primeiro precisamos compreender uma característica importante da iluminação da Terra e da Lua simultaneamente pelo Sol: elas apresentam fases opostas ou complementares. Vamos imaginar dois observadores, um posicionado na Terra e outro na face visível da Lua. Na fase nova lunar, um observador na Terra não consegue ver a Lua, já que a face voltada para nós não está iluminada diretamente pelo Sol. Porém, um observador na Lua vê nosso planeta na “fase cheia”, ou seja, completamente iluminado. Uma situação típica em que notamos mais facilmente a luz cinérea é ilustrada na figura acima, onde a Lua está próxima da fase nova, ou seja, antes da fase crescente ou depois da fase minguante, em que apenas uma pequena parte de sua face visível é iluminada diretamente pelo Sol. Já um observador na Lua veria a Terra quase completamente iluminada e, portanto, refletindo uma maior quantidade de luz. Assim, nessa situação observamos uma maior quantidade de luz cinérea.

 

À medida que a Lua tem porções maiores de sua face visível iluminada, por exemplo, entre a fase quarto crescente e cheia ou entre as fases cheia e quarto minguante, o fenômeno passa a ser menos perceptível, pois uma porção menor da superfície da Terra reflete a luz do Sol. A figura abaixo ilustra algumas situações, mostrando as visões de observadores na Terra e na Lua, respectivamente.

 

As figuras de cima mostram a visão da Lua que um observador na Terra veria, enquanto as figuras de baixo mostram respectivamente como a Terra seria vista por um observador ao mesmo tempo situado na superfície da Lua. É possível notar que Lua e Terra apresentam fases opostas.

 

Quando um corpo celeste recebe a luz emitida por uma estrela, ele reflete parte dessa luz e absorve o restante. A parte refletida é chamada de albedo, a qual é atribuído um valor que varia de 0, se nenhuma luz é refletida, até 1, se 100% da luz for refletida. Diferentes partes da superfície da Terra apresentam diferentes albedos. Por exemplo, neve fresca pode apresentar um albedo de até 0,85, ou seja, ela reflete 85% da luz que a atinge. Por outro lado, os oceanos mais profundos podem apresentar albedo menor que 0,1, significando que 90% da luz incidente sobre eles é absorvida e apenas 10% refletida. 

 

Um dos elementos que mais impacta o valor do albedo terrestres são as nuvens, pois refletem uma alta porcentagem da luz solar incidente. Dessa forma, com a contribuição de zonas de maior reflexão de luz, como nuvens, e de zonas com menor reflexão, como zonas urbanas, florestas e oceanos,  a Terra, em média, apresenta um albedo de 0,3. Um ponto que pode surpreender é que a Lua, por mais que pareça super brilhante no céu, tem um albedo da ordem de apenas 0,1, ou seja, reflete apenas 10% da luz solar que incide sobre sua superfície.

 

Ao analisarmos a luz cinérea, estamos olhando diretamente para o albedo da Terra, sendo possível estudar o clima terrestre a partir dela. A variação do albedo é uma consequência direta da quantidade de nuvens na atmosfera: quanto maior for a quantidade de nuvens, mais luz será refletida para a Lua e maior será a luz cinérea. O monitoramento dessa luz refletida pela Terra ajuda os cientistas a responderem questões importantes sobre os efeitos da atividade humana na reflexibilidade da superfície terrestre e de como essas alterações podem influenciar na temperatura do planeta ao longo do tempo. 

 

E não é apenas a Terra que reflete luz na Lua. De forma geral, esse fenômeno é chamado de brilho planetário e também pode ser visto nos satélites naturais de outros planetas do sistema solar.  A figura abaixo mostra a lua Mimas, que orbita Saturno, com sua borda mais brilhante diretamente iluminada pelo Sol e a parte mais escura é iluminada pela luz solar refletida por Saturno.

 

Fenômeno do brilho planetário na lua Mimas de Saturno. A borda mais brilhante da lua é diretamente iluminada pelo Sol e a parte mais escura é iluminada pela luz solar que foi anteriormente refletida por Saturno. A imagem foi feita pela sonda Cassini em 2009. (Créditos: NASA).

 

A luz cinérea carrega as propriedades da luz refletida pela Terra e, consequentemente, como essa luz interage com a superfície e atmosfera terrestres. Ao observá-la, é como se pudéssemos olhar nosso mundo de fora e estudar como a vida deixa sinais nessa luz refletida. Poderíamos, por exemplo, comparar a luz refletida por exoplanetas com a luz cinérea para identificar possíveis traços em comum que indiquem a possibilidade de vida fora do sistema solar.

 

Referências

Luz Cinérea:

O brilho de Da Vinci

Astronomy Picture of the Day – The Old Moon in the New Moon’s Arms

Earthshine

What Is Earthshine?

What is Earthshine? – Almanac

MARTINS, R. de A. O universo: teorias sobre sua origem e evolução. São Paulo: Editora Moderna, 1994.

 

Albedo:

Albedo – NASA

Measuring Earth’s Albedo

Moonlight

 

Plutarco sobre a lua:

Plutarch on the face which appears on the orb of the Moon