A rua como lugar de brincadeira
12 de outubro de 2022

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Amarelinha, esconde-esconde, pega-pega, elástico, queimada, cabo-de-guerra, bola de gude, pula corda, rouba bandeira. Ainda cabe tudo isso na rua de casa?
Em cidades com cada vez mais avenidas, viadutos, condomínios e shopping centers, que espaço resta para o uso recreativo das ruas?
Neste dia das crianças, essas questões levaram a gente, do Espaço do Conhecimento UFMG, a refletir sobre o lugar da brincadeira nas cidades contemporâneas, e buscar propostas que aproximam a infância da cidade, como forma de incentivo à cidadania e à vida em comunidade.
O espaço que não habito
Cercadas de medo e inseguranças, muitas crianças de cidades grandes, e até do interior, onde há altas taxas de criminalidade, têm estabelecido cada vez mais uma relação de distanciamento do espaço público, que passa a ser visto como uma ameaça à sua segurança. O tempo dos jogos e brincadeiras nas ruas parece se distanciar cada vez mais com o avanço da urbanização, sobretudo para crianças que por quase dois anos da sua infância, ficar em casa tornou-se imperativo.
O uso de aparelhos digitais individuais e aumento do consumo de mídia sob demanda parecem reiterar este processo: os nativos digitais podem muitas vezes não ser nada nativos nas suas cidades natais. Enquanto desbravam infinitos universos nas palmas das mãos, o mundo atrás dos muros dos condomínios pode repelir mais do que o chefão do atual jogo de videogame ou o demogorgon de Stranger Things.
Como resultado, é fácil não se sentir fazendo parte da cidade, da vida urbana, que escapa ao controle das mãos e é suscetível ao acaso, não seguindo uma lógica algorítmica que busca atender a interesses individuais.
Transformar para ocupar
Em defesa de espaço público pensado para crianças, que promova a cidadania e a integração delas com a cidade, surgem iniciativas que têm trabalhado na recuperação ou criação de ambientes pensando na experiência urbana a partir da infância como forma de desenvolver a cidadania e a segurança no espaço público.
Um deles é o projeto Mais Vidas nos Morros, que atua desde 2015 em Pernambuco. Um dos pilares dessa iniciativa é redesenhar as cidades para crianças por meio de instalações urbanas voltadas ao desenvolvimento da primeira infância. Criam-se intervenções lúdicas da altura média de crianças, grafites e pinturas que estimulam o uso recreativo dos espaços coletivos.
O projeto alcança 58 comunidades do Recife, mudando a forma de ocupação desses espaços, que passam a ser cuidados e preservados pelos seus habitantes, e não só trazendo as crianças para usarem as ruas com jogos e brincadeiras, mas aproximando as famílias, que deixam de ser desconhecidas e constroem laços comunitários.
Outra proposta nesse sentido é o Cities for Play, da australiana Natalia Krysiak, uma iniciativa de engajamento público, privado e civil voltada ao desenvolvimento de cidades mais acolhedoras para a infância.
A arquiteta, que aponta o aumento do tráfego de carros como o maior fator que distancia às brincadeiras nas vizinhanças, defende que a experiência das crianças deve estar no centro do planejamento das cidades para que se tenha uma comunidade próspera e bem-sucedida.
No Brasil, existem vários livros que tratam do mesmo assunto, e uma dica é o Casacadabra 2 – Cidades para Brincar. Com uma pegada diferente, desta vez voltado para a leitura das próprias crianças, o livro propõe que elas interajam com o mundo à sua volta, que, na história é apresentado como um espaço lúdico, aberto a brincadeiras e diversões com os amigos. A obra traz também algumas propostas de atividades que podem ser feitas pelos leitores, buscando afetar a relação deles com o espaço urbano.
Neste Dia das Crianças, o Blog do Espaço recomenda que se conheça mais sobre esses projetos, livros e ideias, com intuito de que eles sejam cada vez mais difundidos na nossa comunidade. Esta é uma defesa da rua enquanto lugar de lazer, diversão e risadas, onde o maior medo seja de cair e ralar o joelho ou de levar uma bolada na queimada.
[Texto de autoria de Helena Azoubel, estudante de jornalismo e estagiária do Núcleo de Comunicação e Design]
Para saber mais!
URBANISMO SOCIAL COM AS CORES DO RECIFE