Conheça a história de uma das mais plurais e emblemáticas festividades do país
17 de fevereiro de 2026

Por Samuel Lacerda,
estudante de Música e bolsista do Núcleo de Comunicação do Espaço do Conhecimento UFMG
O Carnaval é uma das maiores expressões culturais do Brasil. Não à toa, é muito comum escutarmos que “o ano só começa depois do Carnaval!”. Mas muito além da diversão, a festividade concentra importantes sentidos ligados à criatividade e à forma como a sociedade se expressa coletivamente. Sua origem está longe dos trios elétricos, das escolas de samba ou dos blocos de rua que conhecemos.
Antes mesmo de se tornar uma festa marcada pela música e pela dança, o Carnaval nasceu como um período de inversão social e simbólica, herdado de tradições muito mais antigas e até mesmo distantes das terras brasileiras. Essas raízes remontam às festas da Antiguidade, como as Saturnálias Romanas e as celebrações dionisíacas da Grécia Antiga, marcadas pelo excesso, pela suspensão das normas e pela liberdade temporária.
Com o avanço do cristianismo, essas práticas foram ressignificadas e incorporadas ao calendário religioso europeu como um período de celebração antes da Quaresma. O próprio termo “Carnaval” pode derivar de expressões como “carne vale”, uma espécie de “adeus à carne”, indicando a última grande festa antes das restrições religiosas.

Saturnália (1783), de Antoine Callet. (Créditos: Wikimedia Commons).
Quando o Carnaval chega ao Brasil, durante o período colonial, ele assume formas muito únicas. A principal delas foi o Entrudo, uma brincadeira popular trazida pelos portugueses que consistia em jogos nas ruas, com água, farinha, frutas e outros líquidos. Apesar de pouco musical, o Entrudo estabeleceu algo fundamental: a ocupação dos espaços públicos e a participação coletiva.
Já que não existe festa sem música, essas manifestações começaram a incorporar o canto e a dança, influenciadas pela presença africana no país, que trouxe novos ritmos, instrumentos e formas de expressão sonora. É nesse encontro entre tradições europeias, africanas e, mais tarde, indígenas, que começa a se formar a base musical do Carnaval brasileiro.
No final do século XIX e início do século XX, com o crescimento das cidades, especialmente o Rio de Janeiro, surge a primeira grande linguagem musical do Carnaval brasileiro: as tão conhecidas marchinhas, como “Ó abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga, “Mamãe eu quero”, de Jararaca e Vicente Paiva, “Allah-lá-oh”, de Haroldo Lobo e Nássara, e “Me Dá Um Dinheiro Aí”, de Homero Ferreira, Ivan Ferreira e Glauco Ferreira.

A compositora, maestrina e pianista Chiquinha Gonzaga. (Créditos: Divulgação/Instituto Moreira Salles).
Com letras simples, bem-humoradas e muitas vezes satíricas, as marchinhas eram fáceis de cantar e memorizar. Falavam do cotidiano, da política, dos costumes e das figuras populares da época. Desse modo, as marchinhas ajudaram a transformar o Carnaval em um evento musical de massa, fortalecendo a ideia de cantar coletivamente como parte central da festa.
Como falar de música e carnaval sem citar o gênero que é uma das maiores identidades do país? Enquanto as marchinhas dominavam os salões e ruas centrais, outra linguagem musical se consolidava nas comunidades negras do Rio de Janeiro: o samba. Derivado de práticas afro-brasileiras, o samba ganha força no início do século XX e passa a se organizar em torno das escolas de samba, que surgem como espaços de sociabilidade, resistência cultural e criação artística. Com o surgimento dos desfiles oficiais, o samba-enredo se torna uma narrativa musical, contando histórias e exaltando personagens, acontecimentos históricos e culturas. A música passa a ser não apenas celebração, mas também discurso, memória e identidade que empodera seu povo.
Ao deixar a cidade maravilhosa, chegamos em Salvador, a primeira capital do Brasil. É ali, na segunda metade do século XX, que surge o trio elétrico, revolucionando a relação entre a música e o espaço urbano. Com a amplificação sonora, o Carnaval ganha mobilidade. O axé music, misturando ritmos afro-baianos, com pop e reggae, transforma a festa em um espetáculo de grandes multidões. A música deixa de estar apenas no chão ou no desfile e passa a conduzir a massa em movimento. Essa nova configuração amplia o alcance do Carnaval, fortalece sua dimensão econômica e midiática, e se aproxima, em muitos aspectos, dos bloquinhos de rua que frequentamos hoje em dia.

Trio elétrico no Carnaval de Salvador. (Créditos: Victor Chapetta/AgNews).
Hoje, o Carnaval brasileiro é múltiplo. Além do samba e do axé, estilos como funk, pop, eletrônico, maracatu, frevo, releituras contemporâneas das antigas marchinhas, e até mesmo o rock e o metal convivem nos blocos e festas carnavalescas. Basta procurar qual bloquinho melhor se encaixa com as suas preferências.
Essa diversidade reflete a própria história do Carnaval: uma celebração em constante transformação, que absorve influências, dialoga com o presente e mantém viva sua essência pública. Assim, é certo que a música continua se constitui como o fio condutor dessa experiência, conectando passado e presente; tradição e inovação.