Mulheres que fazem músicas, clipes e shows incríveis, sendo referências de empoderamento feminino

 

24 de fevereiro de 2026

 

 

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Por Lívia Morais de Souza, estudante de Antropologia e estagiária do Núcleo de Ações Educativas e Acessibilidade do Espaço do Conhecimento UFMG

 

A partir da década de 1980, com a influência do hip-hop americano, pessoas de periferias do Brasil passaram a utilizar o rap para contar suas histórias e produzir seus próprios sons. Surgiram, assim, personalidades importantes da cena e também grupos de rap, como o “Racionais MC’s”, nascido na periferia de São Paulo, que ganhou bastante notoriedade em todo o país. O fato de grupos, antes marginalizados, passarem a ser apreciados e terem suas vozes ouvidas abriu espaço para mais pessoas produzirem sua arte, tornando o cenário do rap um sistema simbólico, como é proposto por Clifford Geertz (1973). O autor propõe que um sistema simbólico possui uma teia de significados, referências e crenças que permitem ao indivíduo interpretar o mundo. O rap se torna, nesse sentido, uma forma de compreender e viver o mundo para muitas pessoas, inclusive para as mulheres, que compuseram a história do gênero e seguem atuando na cena do rap nacional. 

 

Negra Li. (Créditos: Reprodução/Instagram @negrali).

 

Essa expressão artística é um modo de reexistência, pensando em um feminismo negro prático e também como lente de análise da cena que denuncia a vivência dessas artistas atuantes no rap nacional, conforme disserta Larissa Amorim Borges (2013). Negra Li, Dina Di e Kmilla CDD são alguns dos nomes que fundaram a cena feminina do rap brasileiro. Após essas fundadoras, temos grandes referências como Karol Conká, Tássia Reis e Flora Matos. Atualmente, nomes como Tasha e Tracie, Duquesa, Ebony e AjuliaCosta ganham cada vez mais influência, conquistando fãs em todo o Brasil.

 

Tracie, à esquerda, e Tasha, à direita. (Créditos: Reprodução/Instagram @tracieokereke e @tashaokereke).

 

Analisando a maioria das trajetórias das compositoras, percebe-se que elas possuem marcadores específicos de suas subjetividades, ou seja, muitas delas são mulheres pretas, possuem origem de regiões periféricas e abordam essas vivências em suas músicas. As gêmeas Tasha e Tracie Okereke vêm da Zona Norte de São Paulo, da comunidade de Jardim Peri. Filhas de mãe brasileira e pai nigeriano, as irmãs atualmente são bastante influentes no cenário do rap brasileiro e tratam em suas músicas temas relacionados à vivência e à cultura periférica. Já Jeysa Ribeiro, mais conhecida como Duquesa, é uma rapper bastante influente na cena. Nascida em Feira de Santana (BA), a compositora é conhecida por escrever sobre autoestima e enaltecimento da figura feminina. 

Outra personalidade bastante conhecida e ouvida pelo público feminino é a fluminense Ebony. Milena Martins, artista nascida em Queimados (RJ) e que conquista cada vez mais espaço na cena nacional do rap, denuncia em suas rimas o machismo enfrentado pelas mulheres, sobretudo por essas que ocupam o cenário do gênero musical no país. Na faixa “Espero que vocês entendam” (2023), Ebony escancara e critica a desigualdade de gênero presente na cena, afirmando que é tão boa e qualificada quanto alguns nomes do rap masculino. 

Ajuliacosta, nascida em Mogi das Cruzes (SP), também compõe o cenário do rap nacional, abordando em suas letras temas ligados ao protagonismo e à autonomia feminina. A cantora também é influente no cenário da moda, enquanto dona de uma marca de roupas independente, a AJuliaCostaShop, focada em trazer representatividade para mulheres pretas na moda.

 

Ajuliacosta. (Créditos: Reprodução/Instagram @ajuliacosta).

 

Roupas da Ajuliacostashop. (Créditos: Reprodução/Instagram @ajuliacostashop).

 

Percebe-se, a partir das trajetórias de algumas dessas figuras, a importância do movimento do rap, que atua no resgate e na resistência da cultura afro-diaspórica, e também colabora para a difusão da tradição popular negra e o processo de “amefricanidade”, como reflete Lélia Gonzalez (2020). Para além de apenas um gênero musical, o rap se estabelece como um meio de mostrar a realidade dessas mulheres, ao contar suas vivências e ao reafirmar suas identidades, utilizando-se da música como ferramenta de transformação social e de produção de saberes. Com músicas que abordam temas como amor próprio, relacionamentos, preconceitos, busca pela fama e pelo luxo, as artistas fazem sucesso pelo país e atraem a atenção de milhares de fãs, sobretudo do público feminino. 

No que diz respeito às composições das mulheres que atuam na cena, existe uma grande diferença entre as letras produzidas por essas rappers femininas e as rimas feitas por rappers masculinos. Estes optam por abordar, na maioria das músicas, temas relacionados à fama, à ostentação de bens e riquezas e às relações com mulheres, muitas vezes colocadas em posições de objetificação. Contudo, o rap é um gênero plural e há muitos rappers homens que não seguem mais essa linha ou que mudaram ao longo do tempo. Por isso, pode-se dizer que a presença das mulheres no rap nacional é uma fonte de representação para meninas pretas e periféricas, que vivem e se sentem retratadas nas rimas, bem como de inspiração para pessoas que querem seguir no ramo da música.

Embora tenham conquistado a fama e o sucesso, essas artistas ainda enfrentam desafios, como não ter seus trabalhos devidamente reconhecidos e validados por parte de grandes eventos e de outros nomes do rap nacional masculino. Ter a oportunidade de performar em festivais, como a edição do “The Town” de 2025, proporcionou a artistas como Ajuliajosta e Duquesa uma amplitude de alcance de público e popularizou algumas de suas músicas.

 

Duquesa, em apresentação no The Town 2025. (Créditos: Reprodução/Instagram @duquesa).

 

Grande parte das rappers enfrenta dificuldades para receber incentivos e oportunidades em gravadoras e, por isso, optam por seguir de maneira independente no cenário da música, em uma tentativa de conquistarem seu próprio espaço, construírem sua fama e terem suas produções valorizadas.

Por fim, é necessário ressaltar que mesmo com dificuldades e desafios, a cena feminina do rap nacional se destaca cada dia mais: Ajuliacosta venceu o “BET Awards” de 2025, uma premiação internacional importante, e Ebony esteve presente no evento de lançamento do “Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio”, no Palácio do Planalto. 

 

Ebony. (Créditos: Reprodução/Instagram @ebony).

 

Esse tipo de conquista visibiliza essas artistas, abre espaço para que mais mulheres da cena ocupem locais de protagonismo em expressões artísticas vistas como marginalizadas e demonstra também o compromisso de se engajar em lutas e causas coletivas e relevantes, expandindo suas atuações para além do cenário musical. Em resumo, as “minas” vêm fazendo músicas, clipes e shows incríveis, ganhando o coração do público e sendo referência para muitas outras mulheres. 

 

Referências

BORGES, L. A. Nas periferias do gênero: transitando entre hip hop, funk e feminismoS. 2013. 210 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Belo Horizonte, 2013.

GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1984.

GONZALÉZ, L. Por um feminismo negro- afro- latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020

O rap feminino em ascensão na arte das rimas.

“As mina da Cena”- o rap feminino brasileiro alcançando mais espaço em 2024.