Histórias, caminhos, trajetos e desafios na RMBH
29 de abril de 2026

Por Gabriela Sousa, estudante de Jornalismo da UFMG,
para a disciplina de Assessoria de Comunicação, sob supervisão de Camila Mantovani
O despertador de Hellen Cordeiro toca pontualmente às 04h35 de segunda a sexta. A estudante de Jornalismo tem quarenta minutos para se arrumar, antes de sair de casa e pegar o primeiro ônibus do dia, às 05h25, em direção ao centro de Ibirité. De lá, ela pega a van de transporte e faz o trajeto de uma hora até a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde estuda.
Às 18h, Hellen faz o trajeto inverso, da faculdade até a casa. Passa mais uma hora na van, pega o ônibus em Ibirité por volta das 19h40 e chega em casa às 20h. No total, Hellen gasta cerca de quatro horas por dia no trajeto entre a cidade vizinha e Belo Horizonte. O maior transtorno do caminho, segundo Hellen, é o trânsito imprevisível. O grande volume de carros, os acidentes repentinos e a situação das estradas são questões constantemente apontadas por quem precisa se locomover entre a Região Metropolitana e a capital, mas a solução para esses aspectos ainda parece distante de ser alcançada.
“O fluxo de carros é muito grande. Falta planejamento e os estreitamentos de pista nos trajetos atrapalham bastante, causando engarrafamentos. Para quem tem condições, vir de carro acaba sendo mais prático. Os ônibus são caros e consomem mais tempo, sem contar os problemas na estrutura. Já cheguei a pegar ônibus em dia de chuva e lá dentro estava tudo molhado, principalmente os bancos, então você nem consegue sentar”, explica Hellen.

Intenso fluxo de carros, em Belo Horizonte. (Créditos: Thomás Santos/O Tempo).
A estudante ainda falou sobre a falta de opções para chegar à capital. Saindo do bairro de Hellen não há ônibus diretos até Belo Horizonte. Para chegar à Pampulha, onde fica a UFMG, ela precisa pegar três ônibus diferentes, caso opte por utilizar o transporte público durante todo o trajeto, ao invés da van particular. O primeiro ônibus sai do bairro com direção ao Centro de Ibirité. O segundo vai até o Centro de BH ou até o Barreiro, dependendo da escolha. Por fim, outro ônibus seria necessário para completar a locomoção até a Universidade.
A distância entre os centros de Ibirité e Belo Horizonte é de, aproximadamente, 23 km. Em condições ideais, o trajeto poderia ser realizado em 25 minutos, segundo os principais aplicativos de transporte. Apesar disso, essa realidade ainda é uma utopia para muitos, principalmente para aqueles que utilizam o transporte público.
Kauet Machado também passa por uma situação semelhante, saindo de Santa Luzia até a UFMG, todos os dias. Atualmente, Kauet prefere os grupos de carona da faculdade, que lhe proporcionam uma maior praticidade. “Nós temos grupos formados por alunos e trabalhadores da UFMG que oferecem caronas. Assim, eu consigo chegar mais cedo em casa, economizar tempo e também sinto que é mais seguro”, afirma. Nesse formato de transporte, o estudante de Jornalismo gasta cerca de 50 minutos de locomoção Em contrapartida, quando precisa ir de ônibus, o trajeto dura entre 1h40 e 2h.

Vista aérea do campus Pampulha da UFMG. (Créditos: Lucas Braga/UFMG).
Além do transporte público dobrar o tempo do percurso, Kauet ainda destaca alguns pontos de insatisfação com os serviços. Segundo ele, os preços exorbitantes da passagem, que podem chegar até R$ 9,55, não equivalem ao serviço oferecido, considerando as condições precárias dos ônibus. Os longos tempos de espera e os extensos percursos, que passam por diversos bairros antes de chegarem ao destino final, também dificultam o acesso à Belo Horizonte.
Na perspectiva de especialistas:
[…] o grande desafio que se coloca no referente à reestruturação institucional do serviço de transporte coletivo é o de uma nova articulação institucional que seja aceita e legitimada por todos os atores políticos: governo do estado, municípios grandes e pequenos, DER/MG, sindicato patronal das empresas permissionárias, entidades da sociedade civil envolvidos com a questão do transporte e usuários. (Azevedo; Guia, 2000, p. 118).
Isso faz com que os desafios enfrentados por estudantes e trabalhadores que realizam diariamente o trajeto entre Belo Horizonte e a Região Metropolitana permaneçam como parte da rotina de milhares de pessoas. Entre longos deslocamentos, custos elevados e infraestrutura limitada, o direito à mobilidade ainda se apresenta como um caminho em construção, que exige planejamento, integração e compromisso coletivo para se tornar, de fato, acessível e democrático.
Referências
AZEVEDO, S.; DOS MARES GUIA, V. R. A gestão do transporte na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Revista de Administração Pública, v. 34, n. 4, 2000, p. 105-132.