Somos mais do que apenas os sapiens!

 

17 de março de 2026

 

 

Por Fernando Silva,

relações-públicas e assessor de comunicação do Espaço do Conhecimento UFMG

 

Quando você pensa na origem da humanidade, quantos anos vêm à sua mente? Milhares? Na verdade, nossa história começou há milhões de anos! É comum se deparar com a informação de que os humanos surgiram entre 200 e 300 mil anos atrás, mas essa estimativa se refere apenas aos Homo sapiens. A humanidade, no entanto, vai muito além de nós. Reduzi-la apenas a nossa espécie é um erro comum e egocêntrico.

Nosso ramo na árvore da vida é mais diverso do que geralmente imaginamos. Pense em uma árvore cheia de galhos: alguns cresceram e seguiram adiante, outros se entrelaçaram, e muitos simplesmente se extinguiram. Fazem parte dessa grande família não só os Homo sapiens, mas também espécies como os Homo neanderthalensis, Homo heidelbergensis, Homo ergaster, Homo erectus, Homo habilis, e, muito provavelmente, outros ainda não encontrados no registro fóssil. Cada um desses Hominínios (Tribo Hominini) fazem parte dessa linhagem humana que continua sendo desvendada pela Paleontologia, Arqueologia, Antropologia, Genética, Geologia e outras áreas do conhecimento. Hominínios? Sim, este é o termo científico correto a ser utilizado quando falamos dos Homo sapiens e seus ancestrais diretos extintos. Pelo menos por enquanto.

Da esquerda para direita: Ousu (Homo habilis); Puspa (Homo floresiensis) e A’ko (Homo heidelbergensis). As ilustrações oferecem uma interpretação artística de nossas espécies ancestrais, removendo estereótipos bestiais, e reforçando a ideia de que todos somos humanos. (Créditos: Artista Julio Lacerda).

 

Hominídeos, Hominíneos, Hominínios…

Os nomes científicos podem parecer complicados, mas entender essa classificação faz toda a diferença. Para simplificar, imagine um funil, onde cada nível é um recorte mais específico da nossa linhagem evolutiva:

 

  • Hominídeos (Hominidae): a família, relacionada aos grandes primatas 

(gorilas, chimpanzés, orangotangos, humanos e nossos ancestrais)

  • Hominíneos (Homininae): a subfamília, os orangotangos são excluídos pois ficam na subfamília Ponginae

(chimpanzés, bonobos, humanos e nossos ancestrais)

  • Hominínios (Hominini): a tribo, que inclui o gênero Homo e ancestrais diretos

(humanos e nossos ancestrais)

  • Humano (Homo): o gênero, um recorte ainda mais específico, focado em nós e nossos ancestrais

(Homo sapiens, Homo neanderthalensis, Homo heidelbergensis, Homo ergaster, Homo erectus, Homo habilis…)

 

Hominidae → Homininae → Hominini → Hominina → Homo (humano)

 

Durante um bom tempo, os seres humanos e seus ancestrais diretos foram chamados de Hominídeos (família Hominidae), enquanto outros grandes primatas, como gorilas (gênero Gorilla) e orangotangos (gênero Pongo), eram classificados na família Pongidae. Com o avanço dos estudos genéticos e evolutivos, essa separação mostrou-se inadequada. Descobriu-se que humanos, chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos compartilham um ancestral comum recente e, por isso, hoje todos pertencem à mesma família: Hominidae, a família dos grandes primatas. Nesse novo sistema de classificação, os termos ficaram mais precisos. Hominídeos passaram a designar todos os grandes primatas, enquanto Hominínios se referem especificamente aos seres humanos (Homo sapiens) e aos seus ancestrais diretos extintos. É por isso que, quando falamos da história evolutiva da humanidade, o termo cientificamente correto é Hominínios.

 

Os estudos genéticos e evolutivos revelaram também que os seres humanos (gênero Homo) compartilham um parentesco extremamente próximo com os chimpanzés  (gênero Pan). Essa proximidade se reflete não apenas na genética, mas também em aspectos do comportamento, da cognição e da organização social. Ainda assim, humanos e chimpanzés não descendem uns dos outros: tratam-se de espécies que compartilham um ancestral comum, mas que seguiram linhagens evolutivas distintas ao longo do tempo. Essa história evolutiva profundamente entrelaçada se dividiu em algum ponto do passado. Alguns cientistas argumentam que a distinção entre humanos e chimpanzés deveria ser ainda menor, possivelmente no nível de subtribo. Se essa hipótese se consolidar, é possível que um novo termo, como Hominina, passe a ser amplamente utilizado, ao invés de Hominínios.

 

Somos grandes primatas!

É certo que os humanos pertencem à ordem dos primatas, mas, por quê?

 

Os primatas são um grupo de mamíferos que compartilham um conjunto de características anatômicas e comportamentais resultantes de milhões de anos de evolução. Entre essas características, identificadas pelo estudo da sinapomorfia – termo da biologia evolutiva que se refere a uma característica compartilhada por um grupo de organismos – está a capacidade craniana relativamente grande, o que possibilita maior desenvolvimento cognitivo e social em comparação com outros mamíferos. Outra característica fundamental é a presença de cinco dedos nas mãos e nos pés, o que confere maior destreza e capacidade de manipulação de objetos. Além disso, possuímos polegar oponível, uma adaptação essencial que nos permite segurar e manipular ferramentas com precisão. Diferente de muitos mamíferos que possuem garras, os primatas possuem unhas, o que favorece o tato refinado e a manipulação delicada de objetos.

 

Outro traço marcante é a visão estereoscópica e colorida, que permite enxergar em três dimensões e distinguir uma ampla gama de cores, facilitando a percepção de profundidade. Essas adaptações são comuns a todos os primatas e foram essenciais para o sucesso desse grupo ao longo da evolução. Como enfatizava o professor e importante biólogo, arqueólogo e antropólogo brasileiro Walter Neves, “se somos primatas, também somos uma espécie de macaco”. Essa afirmação, no entanto, deve ser compreendida no sentido científico do termo. No uso cotidiano, a palavra “macaco” costuma generalizar animais muito distintos entre si, apagando a enorme diversidade existente dentro do grupo dos primatas. Do ponto de vista biológico, os seres humanos pertencem a esse mesmo grande grupo, compartilhando uma ancestralidade comum com outros primatas. Isso não significa que sejamos iguais a eles, nem que tenhamos “evoluído a partir” dos macacos atuais, mas que seguimos um caminho evolutivo próprio, mantendo, ainda hoje, características fundamentais compartilhadas com nossos parentes primatas.

 

 

No Espaço do Conhecimento UFMG, tais reflexões ganham forma na exposição “demasiado humano”, que apresenta a nova instalação “Árvore Humana”, anteriormente intitulada “Pré-história Humana”. Remodelada, a instalação incorpora uma visão atualizada da Paleontologia sobre a humanidade, evidenciando a diversidade de espécies e trajetórias que compõem nossa história evolutiva. A visitação, que acontece de terça a domingo, das 10h às 17h, e aos sábados, das 10h às 21h, permite ao público conferir, inclusive, réplicas de artefatos utilizados por diferentes espécies humanas ao longo do tempo.

 

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Referências

Hominídeo ou hominínio?, por Victor Guida

Na busca por nossos ancestrais, por Gabriel Rocha e Walter Neves

Como eram os nossos ancestrais?, por Letícia Valora e Victor Nery

A Saga da Humanidade, por Walter Neves

Evolução e dispersão dos HOMINÍDEOS (Parte 1: origem das espécies), por Pirula 

Evolução e dispersão dos HOMINÍDEOS (Parte 2: demasiado humanos), por Pirula 

 

Para saber mais:

Assim caminhou a humanidade, por Walter Neves

Exposição demasiado humano – Espaço do Conhecimento UFMG

Pesquisador Paleorocha – TikTok