Saiba mais sobre os recursos que ajudam a criar atmosferas e experiências únicas nos games 

 

03 de fevereiro de 2026

 

 

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Por Samuel Lacerda,

estudante de Música e bolsista do Núcleo de Comunicação do Espaço do Conhecimento UFMG

 

Um aventureiro em um mundo cheio de dragões, um soldado em uma guerra futurista, um fazendeiro cuidando de seus cultivos, ou até mesmo um barista em uma cafeteria que só abre às madrugadas… Em qualquer universo dos jogos, a trilha sonora está sempre presente. Seja intensificando a imersão ou passando mensagens sutis daquele mundo, as trilhas fazem parte da experiência e são perceptíveis apenas aos ouvidos mais atentos.

As trilhas sonoras para jogos eletrônicos surgiram em 1980, com o game Rally-X. Antes disso, jogos mais conhecidos como Pong ou Space Invaders contavam apenas com efeitos sonoros. No ano seguinte, em 1981, as trilhas simplistas começaram a mudar com o clássico Donkey Kong, que, embora ainda tivesse trechos melódicos curtos, ficou marcado com uma trilha bem característica.  Assim, a cultura de associar músicas a personagens teve início.

 

Jogo Rally-X. (Créditos: Divulgação/Nintendo).

 

No entanto, foi a partir de 1985 que tudo realmente mudou, com a chamada “Revolução Koji Kondo”. O músico e compositor japonês Koji Kondo foi o responsável pela trilha sonora de Super Mario Bros. Um dos jogos mais conhecidos de todos os tempos teve como inovação uma composição musical feita para combinar com o ritmo da jogabilidade. A música acelera quando o tempo acaba, acompanha os movimentos dos personagens e é altamente melódica.

 

Jogo New Super Mario Bros. (Créditos: Divulgação/Nintendo).

 

É claro que nem só de trilhas animadas e alegres vive o mundo dos games. A atmosfera de jogos de terror apresenta uma receita que ajuda a criar universos mais sombrios, quebrando diversas regras de músicas cotidianas. Os ingredientes necessários para essa ambientação incluem sons dissonantes, silêncios abruptos, falta de resolução melódica e a utilização de infra-sons (quase imperceptíveis, ao mesmo tempo em que geram tensão inconsciente). Como exemplo, podemos citar o renomado The Last of Us Part II que utiliza tais recursos, somados a uma técnica chamada “trilha dinâmica e responsiva”. Essa prática consiste em utilizar a música como recurso de jogabilidade: a tensão musical aumenta conforme o inimigo se aproxima, mesmo que o jogador ainda não o tenha visto, e gera um sinal de perigo antes de haver qualquer som de criatura.

 

Mudando de ambiente, as trilhas sonoras também são essenciais para a categoria de Cozy Game (jogos para relaxar). Esse gênero teve um significativo aumento de popularidade durante a pandemia, se tornando um refúgio para quem prefere um ambiente livre de competição ou da correria do dia a dia. Para atingir esse estado de calmaria, as trilhas se entrelaçam com os recursos de jogabilidade, porém na contramão da atmosfera assustadora abordada anteriormente. São utilizadas melodias relaxantes e consonantes, resoluções melódicas e ritmos não tão acelerados. O uso de efeitos sonoros também se faz muito presente para compor esse ambiente aconchegante.

Atualmente, as trilhas sonoras dos jogos ultrapassam seus próprios universos e chegam ao mundo real. Artistas que compõem tais obras possuem milhares, ou até mesmo milhões, de acessos pela internet. Para além das telas, grandes performances de trilhas marcantes também são realizadas por meio de orquestras completas, que lotam teatros ao redor de todo o globo. Eventos como Video Games Live, Distant Worlds: Music from Final Fantasy e The Legend of Zelda: Symphony of the Goddesses são bons exemplos.

 

Concerto The Legend of Zelda: Symphony of the Goddesses. (Créditos: Reprodução/Curta Mais).

 

Muitos compositores de trilhas para jogos, como Nobuo Uematsu (Final Fantasy), Koji Kondo (Zelda e Mario) e Yasunori Mitsuda (Chrono Trigger), tornaram-se celebridades admiradas no meio musical. Suas obras são regravadas, remixadas e analisadas academicamente, provando que a música dos games se estabeleceu como uma forma de arte legítima e independente.