“O grafite pra mim é a arte mais democrática de todas! Todos os tipos de pessoa vão acessar aquilo, sabe? Não tem como você ‘desver’ um grafite” – Kakaw, artista de BH 

 

31 de março de 2026

 

 

Por Isadora Rincon,

estudante do curso de Publicidade e Propaganda da UFMG

 

Por mais que possa parecer, as origens do grafite não são modernas. Pelo contrário, suas raízes remontam aos tempos das pinturas rupestres e registros de civilizações antigas, através do princípio de manifestações públicas por meio de representações visuais. Essa arte como conhecemos hoje, foi influenciada ao longo da história por diferentes correntes artísticas que surgiram como críticas ao sistema de arte tradicional, como o surrealismo, dadaísmo e arte pop. Assim, o grafite nasceu de uma antiga necessidade humana: a expressão. Então, desde que nos entendemos por gente, o ser humano escreve nas paredes. Mas como o grafite moderno se popularizou?

 

Ao encontrar limitações para adentrar os espaços institucionais e legitimados, por trazer valores que não iam de encontro com as convenções sociais e técnicas rejeitadas pelo purismo artístico, o grafite encontrou seu habitat no espaço público. Essas mensagens, que apareciam como desenhos e dizeres nas paredes da cidade para aqueles com olhos para enxergar, davam voz às ruas – às pessoas que não eram vistas, às necessidades que não eram ouvidas. 

 

Sendo marginalizado em conteúdo e técnica, por muito tempo o grafite foi subjugado como “vandalismo”, junto da pichação. Provavelmente, até hoje muitas pessoas não sabem distingui-los (você sabe?). A diferença está no contexto e na intenção

 

Mural Etnias, de Eduardo Kobra. (Créditos: Cristina Indio do Brasil/Agência Brasil).

 

Grafite

Pichação

Expressão artística urbana, geralmente com imagens, cores e mensagens culturais ou sociais, utilizando técnicas como pintura, stencil e spray.

Forma de intervenção urbana baseada principalmente em inscrições textuais ou símbolos, realizada com tinta spray para marcar presença ou identidade no espaço público.

 

Tabela comparativa entre grafite e pichação.

 

Exemplo de pichações. (Créditos: Regiane Bento/Arquivo DS).

 

Mas, atenção, o grafite não está nas ruas porque não é valorizado! A essência do grafite é o uso do espaço público como posicionamento: o objetivo nunca foi parar em um museu, mas sim participar de uma reconfiguração estética e política do ambiente urbano – um ambiente coletivo, interativo e acessível a todos. 

 

A legitimação do grafite como manifestação artística começou com o Movimento de Contracultura em 1950, até firmar-se como manifestação artística social nas décadas de 1970 e 1980, especialmente em Nova Iorque, nos Estados Unidos (BOELSUMS, 2023). Esse processo, segundo Mariah Boelsums (2023), consagrou “a arte urbana ao redor do mundo, transformando a configuração visual e estética das cidades e estreitando a dinâmica entre espaço público e manifestações culturais”. 

 

No Brasil, a partir de 2011, a Lei Nº 9.605 deixou de considerar o grafite uma contravenção penal, desde que realizado com autorização do proprietário privado ou do órgão público competente. E recentemente, em outubro de 2024, a Lei Nº 14.996, reconheceu o grafite como manifestação legítima da cultura brasileira, ao lado das charges, caricaturas e cartums. 

 

Porém, em seus moldes disruptivos, o grafite ainda vive uma ambiguidade entre arte e vandalismo: apesar de ser reconhecido como arte pública e de possuir grande visibilidade, o grafite muitas vezes invade propriedades privadas, utilizando fachadas de prédios e residências como a sua tela. Dessa forma, questões sobre sua regulamentação, respeito à propriedade privada e ao patrimônio público ainda podem gerar conflitos jurídicos e sociais.

 

Obra do artista brasileiro Cranio. (Créditos: Reprodução/Muro & Arte).

 

Cura BH

Desde grandes nomes como os Gêmeos e o Nunca, até os novos talentos que despontam a cada dia, o grafite brasileiro é marcado por uma variedade de temáticas e estilos, um verdadeiro reflexo da diversidade do nosso paísEm Belo Horizonte, o grafite começa a ganhar visibilidade nas décadas de 1980 e 1990, com jovens artistas das periferias da cidade buscando, nas ruas, uma forma de expressar suas identidades e desafiar as normas estabelecidas. Hoje, BH é um dos solos férteis da arte urbana e lar de um dos circuitos mais importantes do cenário nacional: o CURA BH

 

Fundado em 2017 por três mulheres, Priscila Amoni, Juliana Flores e Janaína Macruz, o projeto – que é um dos maiores festivais de arte pública da América Latina – transforma fachadas de prédios e espaços urbanos de BH em grandes murais, democratizando a arte como elemento de pertencimento e resistência cultural.

 

Idealizadoras do Cura: Janaína Macruz, Juliana Flores e Priscila Amoni. (Créditos: Thiago Souza/Sou BH).

 

Cada edição é marcada por uma curadoria temática e a participação de artistas locais, nacionais e internacionais, que criam obras que dialogam com a história e a identidade da cidade. Geralmente, o festival ocorre no mês de outubro, e dura o tempo que for necessário para a criação dos murais. Além das intervenções artísticas, o CURA promove programações culturais gratuitas, que envolvem música, cinema, debates e atividades diversas. 

 

Apesar do seu grande sucesso, o projeto enfrenta dificuldades por se tratar de arte urbana. Além das longas burocracias para aprovação das pinturas, o CURA já foi citado em processos judiciais polêmicos por obras específicas, um retrato do preconceito histórico contra o grafite. 

 

Quais foram as obras do Cura BH 2024?

A edição de 2024 trouxe três novas obras para a cidade, idealizadas e realizadas por artistas mulheres. 

 

 

  • Hãm kuna’ã xeka (O Grande Tempo das Águas) – Liça Pataxoop

 

Obra “Hãm kuna’ã xeka (O Grande Tempo das Águas)”, de Liça Pataxoop. (Créditos: Reprodução/Instagram @cura.art).

 

No Edifício Leblon, na Praça Raul Soares, no coração de Belo Horizonte, Liça Pataxoop apresenta o mural “Hãm kuna’ã xeka (O Grande Tempo das Águas)”. Liça, educadora e liderança da aldeia Muã Mimatxi, em Itapecerica (MG), dá voz à sabedoria ancestral dos Pataxoop nas paredes de Belo Horizonte. A obra nos conecta ao tempo das águas, o primeiro tempo do mundo, da sabedoria e do conhecimento. A grande empena foi transformada em um têhey gigante – redes de pesca, criadas pelas crianças e mulheres Pataxoop, que são utilizadas para “pescar conhecimento” –, no qual podemos ver seres vivos e natureza em um ambiente de harmonia e aprendizado coletivo.  Com sua arte, Dona Liça traz as origens do seu povo para conviver com as expressões contemporâneas da cidade, formando um rico mosaico cultural no hipercentro de BH. Em legenda no Instagram, o CURA reafirma a natureza provocativa do grafite:

 

O CURA 2024 provoca a reflexão: se as tradições matriarcais regessem uma cidade, como seriam suas dinâmicas? Como cuidaríamos das crianças, dos idosos e da natureza? Liça Pataxoop, com seu mural, responde a essas perguntas, convidando-nos a ouvir o vento, a terra e as águas, a aprender com o que nos cerca e a respeitar o equilíbrio natural. Seu trabalho é um chamado para a construção de um futuro onde a vida comunitária, o cuidado e o respeito sejam o centro das nossas ações.” (@cura.art via Instagram em 31/12/2024)

 

 

  • Nascente – Clara Valente

 

Obra “Nascente”, de Clara Valente. (Créditos: Reprodução/Instagram @cura.art).

 

Clara Valente é artista visual e multimídia, conhecida por sua visão das paisagens de Minas Gerais, referenciadas por meio de formas geométricas e cores em seu trabalho. Como anfitriã do Cura BH 2024, Clara traz para Belo Horizonte a obra “Nascente”, com 1.928m², sendo a maior empena em área já realizada no Brasil. 

 

A composição vibrante em meio aos prédios, une de forma única quatro elementos da natureza: fogo, água, sol e terra. A sua proposta é “trazer um momento de respiro e alívio para a cidade”, proporcionando “a sensação de pertencimento” para quem está no centro da cidade, como a artista conta no Instagram do projeto.  

 

 

  • Você não pode chorar se está rindo – BAHATI

 

Obra “Você não pode chorar se está rindo”, de Bahati Simoens. (Créditos: Reprodução/Instagram @cura.art).

 

Bahati Simoens é uma artista belgo-congolesa que pousou em Belo Horizonte para deixar a sua marca, evocando uma mensagem profundamente simbólica. A obra “Você não pode chorar se está rindo”, na empena do Edifício D’Ávila, retrata uma mulher negra com um peixe sob a cabeça. Ao olhar desatento, o peixe é a cabeça, mas ao observar intencionalmente, percebe-se que existe uma pequena cabeça. Esse retrato de grandes corpos com cabeças pequenas é característico da artista: “a ideia por trás é querer que as pessoas estejam mais presentes dentro de seus corpos, e menos dentro de suas cabeças”, conta Bahati para o Instagram do CURA. 

 

O grafite de Bahati nasce de sua jornada subjetiva, para criar um espaço de vulnerabilidade e memória. Entretanto, com o passar do tempo, esse espaço se expandiu para outras pessoas negras, que se sentiram vistas e acolhidas por suas obras. 

 

Arte é para todos: o primeiro mirante de arte urbana do mundo

Em uma das ruas mais icônicas de BH, na Rua Sapucaí, surgiu o primeiro mirante de arte urbana do mundo. Nesse ponto de observação, estão visíveis 14 murais, incluindo o mural mais alto pintado por uma mulher na América Latina, com 56 metros de altura. Para melhor experiência, o local conta com lunetas públicas instaladas para proporcionar para tornar a apreciação visual mais imersiva e acessível aos visitantes.

 

Mirante de Arte Urbana da Rua Sapucaí. (Créditos: Divulgação Cura).

 

Com esse mirante, o CURA confirma que o grafite não apenas transforma o espaço, mas deixa sua marca simbólica na paisagem da cidade, mostrando como a arte pode, delicadamente, reinventar e dar significado ao cotidiano urbano. Um verdadeiro legado para Belo Horizonte, onde cidade e arte se unem em um só. 

 

Referências

BOELSUM, Mariah. A cidade como suporte: o grafite no limiar entre a criminalização e a consagração. PÓS: Revista do Programa de Pós-graduação em Artes da EBA/UFMG, Belo Horizonte, v. 13, n. 29, p. 156–174, 2023. DOI: 10.35699/2238-2046.2023.45484. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/revistapos/article/view/45484. Acesso em: 6 maio. 2025.

CORRÊA, L. G.; OLIVEIRA, A. K. C.; DE PAULA, L. H.; CABRAL, L. O.; KAKAW, K. T.; VIBER, L.; MOREIRA, N.; FÊNIX, S. O.; RODRIGUES, W. Sobre ruas e interseções: o grafite de mulheres negras. Esferas, n. 18, p. 202, 23 nov. 2020.

CURA ART. Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DDMssA5hNiS/?hl=pt-br&img_index=1. Acesso em: 06 mai. 2025.

CURA ART. Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DDISMKvhIeK/?hl=pt-br&img_index=1. Acesso em: 06 mai. 2025.

CURA ARTE. Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DDKEhFAh8wI/?hl=pt-br&img_index=1. Acesso em: 06 mai. 2025.

As três mulheres que estão transformando o horizonte de BH por meio do grafite.

Eventos de arte urbana em BH.

Mirante de Arte Urbana da Rua Sapucaí.