“Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem sugerem que, se há um futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já esteve aqui” (Ailton Krenak)
“Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio, ao contrário, ele passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece” (Antônio Bispo dos Santos)
10 de março de 2026

Por Sarah Costa e Rachel Borges,
estudantes de Arquitetura e Urbanismo e bolsistas do Núcleo de Expografia do Espaço do Conhecimento UFMG
Há muitas maneiras de viver e existir. O projeto de renovação da exposição ‘demasiado humano‘, no Espaço do Conhecimento UFMG, buscou por outras vozes e repertórios para multiplicar perspectivas sobre o cosmos, a vida e os mundos. Durante esse processo, também refletimos sobre o papel dos museus na contemporaneidade e sua histórica relação com a noção hegemônica de humanidade a partir da qual a produção do conhecimento científico se constituiu. Nesse sentido, a partir dos ensinamentos e direção de dois dos principais pensadores contemporâneos – os mestres Ailton Krenak e Antônio Bispo dos Santos, também conhecido como Nego Bispo –, abrimos possibilidades de aproximação das poéticas presentes nos saberes e sentidos da oralidade que afloram de um modo de vida envolvido com o mundo.
As ideias de confluência e transfluência, descritas por Bispo, nos inspiram a pensar o curso dos rios como uma das ferramentas para sonhar a terra, como importantes eixos de mobilização e troca de saberes, onde múltiplas formas de fazer mundos nascem, resistem e se transformam. Na exposição, a instalação ‘O rio e seus seres’ atua como interface de imaginação e interação com o público, convidando ao sonho de um futuro ancestral. Por meio da interpretação artística das águas barrosas dos rios da região amazônica, criamos um painel povoado por peixes e palavras imantadas que podem ser movidos pelos visitantes em uma interação lúdica e fluida que brinca com diferentes escalas – do rio visto de cima a aproximação tátil dos peixes.

Registro da instalação ‘O rio e seus seres’ da exposição ‘demasiado humano’. (Créditos: Núcleo Audiovisual EC UFMG | Divulgação Espaço do Conhecimento UFMG).
Os peixes presentes no painel foram extraídos do livro “Yuripë siki: peixes do rio Catrimani”, produzido por professores da Terra Indígena (TI) Yanomami, por meio do programa “Saberes Indígenas na Escola”, uma parceria entre o Centro de Formação Yano thëã, a Diocese de Roraima e a Faculdade de Educação da UFMG. Os desenhos, feitos à mão, foram realizados a partir de conversas com anciãos, em que descreveram características, hábitos alimentares e os ambientes onde vivem os peixes da bacia do rio Catrimani.
O livro foi originalmente escrito em yanomami e, posteriormente, traduzido para o português e, como forma de perpetuar a resistência da língua, ambos os idiomas fazem parte da exposição, uma vez que “Nós, moradores da floresta, escrevemos em nossa própria língua, pois queremos defendê-la. Também traduzimos para a língua portuguesa, pois queremos contar isso para os napëpë”. A incorporação dos desenhos e nomes dos peixes do rio Catrimani à instalação é ato simbólico que provoca reflexão sobre o nosso desconhecimento em relação aos saberes indígenas e afrodiaspóricos, assim como sua íntima e profunda conexão com as águas. São lembretes de que precisamos exercitar nossa cosmopolipercepção e estarmos atentos às diversas formas em que as vidas e existências se manifestam, e tudo o que temos a aprender com elas.
Conheça o livro “Yuripë siki: peixes do rio Catrimani” e os peixes utilizados na exposição através do link: https://acervo.socioambiental.org/acervo/documentos/yuripe-siki-peixes-do-rio-catrimani
Referências
A Terra Indígena Yanomami (TIY) é a maior do Brasil, com cerca de 96.650 km² na fronteira amazônica entre Amazonas, Roraima e Venezuela. Uma população de 31 mil pessoas vive no território, divididas em cerca de 384 aldeias, entre povos Yanomami e Ye’kwana.
Demasiado humano: projeto de renovação parte 1. Espaço do Conhecimento UFMG, Belo Horizonte, 2024.
YANOMAMI, Kassua Adnaldo et al (Org.). Yuripë siki: peixes do rio Catrimani. Belo Horizonte, 2017.
napëpë é um termo em Yanomami que significa “estrangeiro” ou “não-indígena”. YANOMAMI, Kassua Adnaldo et al (Org.). Yuripë siki: peixes do rio Catrimani. Belo Horizonte, 2017, p. 7.
Para saber mais
KRENAK, A. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
KRENAK, A. O amanhã não está à venda. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
SANTOS, A. B. A terra dá, a terra quer. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, 2023
SANTOS, A. B. Contracolonialidade e justiça climática. YouTube, 6 dez. 2023.