Aguçando nossos olhares para a diversidade histórico-social brasileira
19 de maio de 2026

Por Helena Novaes Pasos,
estudante do Departamento de Comunicação da UFMG, para a disciplina de Assessoria de Comunicação, sob supervisão de Camila Mantovani
Você sabe o que é um inventário participativo? A prática vem sendo utilizada por historiadores e arqueólogos no estudo contemporâneo de patrimônios culturais, mas o interessante é que alguns de seus fundamentos e premissas caem como uma luva diante da demanda apresentada por professores(as) para construírem abordagens didáticas que os aproximem de seus alunos e de suas realidades, vividas para além do ambiente escolar. Se você nunca ouviu o termo, ele pode parecer complicado, eu sei. No entanto, a verdade é que a prática pode ser uma grande aliada em sala de aula e a relevância do tema expande – e muito – os limites do ambiente escolar ou da pesquisa histórica. Vem ler pra entender o porquê!
Partindo do começo… já ouviu falar em “inventário”? Trata-se de um modo de pesquisar, coletar e organizar informações sobre algo que se quer conhecer melhor. Neste texto, vamos considerar que esse “algo que se quer conhecer melhor” pertence ao universo patrimonial. Só que a própria ideia de patrimônio vem sendo transformada ao longo dos últimos tempos, sobretudo com o acréscimo de adjetivos como: cultural, ambiental, material, imaterial, territorial, tangível, intangível, histórico… Um patrimônio cultural pode ser uma dança, um jeito de preparar determinada comida, uma edificação, uma música, ou até um jeito de brincar. O que importa é que essas referências façam parte da vida de determinado grupo e, mais do que isso, proporcionem pertencimento, reconhecimento, conectando pessoas, espaços e modos de vida. Um patrimônio é passado de geração a geração, abarcando referências culturais compartilhadas.

Capoeira, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. (Créditos: Reprodução/Unsplash).
Bem, se um patrimônio é sempre coletivo, não parece interessante que a prática de inventariar também seja? Então, é aí que entra o conceito de inventário participativo, que se constitui como uma forma de registrar os bens culturais de uma comunidade com a participação direta das pessoas que fazem parte dela, em vez de centralizar o estudo em pesquisadores que nem sempre possuem experiências ou laços que os conectem ao patrimônio estudado. A ideia é construir esse inventário de forma coletiva, por meio do diálogo e da escuta desses sujeitos, com práticas, por exemplo, de história oral, que estimulem a comunidade a atuar como protagonista na identificação e valorização de suas próprias referências culturais. Se conduzido de forma efetiva e respeitosa, o saldo é positivo para todo mundo. Ganha a comunidade, que estreita seus laços com seu patrimônio; ganham os pesquisadores, que ampliam seus conhecimentos; e ganhamos nós, sociedade, na construção de uma concepção mais diversa do que é e pode ser o patrimônio cultural brasileiro.
Nas escolas, a criação de inventários participativos é uma poderosa ferramenta didática, alinhada a perspectivas educacionais recentes, que acreditam na educação como prática horizontal. Isso porque esses inventários podem ser uma forma de fomentar discussões sobre o patrimônio cultural e aprofundar o entendimento de elementos como território, convívio e cidade, associados a valores de cidadania, participação social e melhoria da qualidade de vida. Nesta abordagem, a educação patrimonial propõe o questionamento e a produção do conhecimento dialógico, no qual a comunidade pode conversar entre si e pensar suas referências culturais. A experiência dos(as) educandos(as) e o diálogo com eles(as) ganha centralidade nessas perspectivas. Assim, os inventários participativos podem construir uma aproximação entre educadores(as), educandos(as) e comunidade externa, fortalecendo laços de pertencimento e mobilização comunitária.
Saindo da teoria e entrando na prática, vamos aos exemplos! Liza Iole da Silva Caetano, mestra em Educação e Docência pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), propôs a construção de um inventário participativo na cidade de Ribeirão das Neves para turmas de alfabetização do 1º e 2º ano, na Escola Municipal Analito Pinto Monteiro. Logo no início do processo, Liza já percebeu que havia uma visão negativa sobre a cidade, que se concretizava em estigmas, reforçados nas entrevistas. Ela afirma que:
“Seus moradores enfrentam inúmeros obstáculos, entre os quais destacam-se (…) visões preconceituosas, que se manifestam em referências como ‘cidade presídio’, ‘Ribeirão das trevas’, ‘cidade dormitório’”.

Alunos leem livro em sala de aula. (Créditos: Reprodução/Unsplash).
A pesquisadora sistematizou uma metodologia para a construção de um inventário participativo com as referências culturais locais dos(as) alunos(as). De início, foram utilizados registros individuais no caderno da turma, como fotografias, filmagens, frases, ilustrações dos alunos, cartas de mães, dentre outros. Liza conduziu também passeios por regiões da cidade, mapeadas a partir dos relatos. O processo completo, incluindo a metodologia, pode ser consultado em seu artigo, disponível online. O mais legal dos resultados obtidos dessa experiência foi a mudança de perspectiva dos alunos e familiares acerca de sua cidade e de seus bairros. Ela observou que a prática pôde fomentar o sentimento de pertencimento e valorização do que esses espaços têm de positivo, diante das vivências cotidianas de alunos(as) e familiares. Em uma conversa que aconteceu no início do processo, um dos alunos disse:
“Eu não gosto de morar em ‘Ribeirão das Trevas’, porque não tem lugar para brincar direito.” Ao final do projeto, esse mesmo estudante ao final mudou sua narrativa e fez seu depoimento: “Eu gosto do meu bairro porque tenho muitos amigos”.
As fontes para construir práticas educativas que utilizem os inventários participativos são muitas. Uma delas foi desenvolvida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com base no Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC). O Inventário Pedagógico foi disponibilizado em 2012, fruto da participação do Iphan na atividade de Educação Patrimonial do Programa Mais Educação, da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC). É interessante que o material traz direcionamentos e, ao mesmo tempo, incentiva a criatividade e a inventividade em cada escola para desenvolver seus próprios produtos e ações, tendo em vista a diversidade de contextos escolares presente no Brasil. A publicação é de livre acesso, destinada ao público em geral, podendo ser utilizada sem necessidade de licença, autorização ou cessão de direitos.
Seja na educação, na expografia ou até na construção de concepções sociais sobre o que é o patrimônio e a cultura, os inventários participativos promovem o diálogo entre gerações e entre culturas, estimulando o cuidado com o que é coletivo.
Referências
ROCHA, A. O papel da história oral na produção de um inventário participativo. In: ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA ORAL, 8., 2018, Florianópolis. Anais. Florianópolis: Associação Brasileira de História Oral, 2018. Disponível em: https://www.encontro2018.historiaoral.org.br/resources/anais/8/1524256081_ARQUIVO_ANDREA_ROCHA_Opapeldahistoriaoralnaproducaodeuminventarioparticipativo.pdf. Acesso em: 06 maio 2025.
ALBUQUERQUE JÚNIOR, D. M. de. A invenção do Nordeste como “artefato” histórico: uma análise das representações e narrativas sobre a região. Educação e Sociedade, Campinas, v. 23, n. 78, p. 15–36, 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/j/es/a/BDNctMXxxNG3Z5YK8SGRSqx/. Acesso em: 06 maio 2025.
VIEIRA, F. A. Inventário participativo: os caminhos da memória e da identidade. São Paulo: AYA Editora, 2020. Disponível em: https://ayaeditora.com.br/wp-content/uploads/Livros/L193C5.pdf. Acesso em: 06 maio 2025.
Nova ferramenta de educação patrimonial é disponibilizada pelo Iphan.