Conheça um pouco mais sobre um dos muitos sítios arqueológicos do Brasil

 

05 de maio de 2026

 


Por Dibella Cappelari, estudante de Antropologia e Arqueologia e estagiária do Núcleo de Ações Educativas e Acessibilidade do Espaço do Conhecimento UFMG

 

O Brasil conta com uma grande quantidade de sítios arqueológicos, que são, por sua vez, os locais onde se encontram vestígios positivos de ocupação humana, podendo ser cemitérios, pinturas rupestres, espaços com fragmentos cerâmicos e muitos outros vestígios de ação humana.

Conhecer sobre os contextos e os estudos em antropologia e arqueologia brasileiras também é uma forma de aprender sobre a diversidade cultural presente no Brasil e resgatar a importância da arqueologia e antropologia feitas por pesquisadores brasileiros dentro do vasto território do país. Nessa perspectiva, é importante conhecer um pouco mais dos sítios arqueológicos que podem ou não estar próximos de você, seja para descobrir pontos turísticos ou para valorizar a arqueologia.

O contexto arqueológico apresentado neste texto é o “Sítio Arqueológico do Rego Grande”, situado próximo à cidade de Calçoene, no Amapá. O sítio conta com uma paisagem construída de blocos megalíticos depositadas de maneira a formar uma estrutura relativamente circular como demonstra a figura abaixo.

 

Plano de topo da estrutura megalítica com malha de escavação. (Créditos: Desenho de J. Saldanha).

 

A parte interior da estrutura conta com contextos funerários (presença de sepultamentos relacionados com a área de investigação) e fragmentos cerâmicos encontrados durante sua escavação. Apesar de não haver uma autoria indígena identificada, o uso da região é datado de aproximadamente 1.300 anos A. P. (Antes do Presente), sendo Pré-Colonial, portanto, de autoria indígena. A investigação e escavação do contexto arqueológico iniciou em 2005, promovida pelos arqueólogos brasileiros Mariana Petry Cabral e João Darcy de Moura Saldanha, que iniciaram seus estudos na região. A pesquisa arqueológica desenvolvida por Cabral e Saldanha do contexto influenciou a recente transformação do sítio no atual “Parque do Solstício” em 2024, o que auxilia na preservação do campo e possibilita a manutenção da realização de investigações  realizadas no local.

No que diz respeito aos megalíticos presentes no contexto, é notável a intencionalidade dos seus construtores na organização dessas estruturas, sendo uma delas capaz de se alinhar perfeitamente com o Sol, ficando totalmente sem sombra. Para além disso, a inclinação do bloco que fica sem sombra indica a trajetória feita pelo astro-rei durante o período solsticial,  auxiliando sua observação. Outra correlação com o solstício se dá com o alinhamento de dois megalíticos posicionados nas extremidades do campo, de maneira que, durante o nascer do Sol no solstício, o Sol e os dois blocos das extremidades do campo se alinham em um único ponto.

Esses dados indicam a possibilidade do uso do sítio como um antigo observatório astronômico para os viventes de seu contexto, que possivelmente utilizavam o solstício como uma forma de temporalidade para o grupo. Entretanto, não é possível entender a relação dos povos indígenas do contexto do Sítio do Rego Grande com o céu, suas observações astronômicas ou sua influência na cosmologia deles. Para além disso, ainda existe a possibilidade de movimento das rochas após seu posicionamento inicial, seja essa mudança intencional ou por fatores ambientais ao longo dos anos.

 

Durante a tarde solsticial, a trajetória do Sol segue a inclinação do monólito. (Créditos: Acervo IEPA – Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá | Mariana Cabral).

 

Dentro do interior da estrutura, existe uma grande deposição de materiais cerâmicos e de sepultamentos. No que diz respeito às cerâmicas, puderam ser encontrados potes inteiros depositados junto aos megalíticos em pé. Também foram encontradas peças de cerâmica em formatos antropomórficos, e, para além disso, existe uma grande quantidade de fragmentos cerâmicos no sítio em diferentes contextos, sejam eles de sepultamento ou não.

 

Urna antropomorfa, oriunda do Poço 3, que estava depositada com seu rosto virado para a parede do poço. Esta urna tem ainda, além dos aspectos antropomorfos, detalhes em apliques de um animal que cruza seu corpo transversalmente. (Fonte: Acervo IEPA – Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá | Créditos: Maurício de Paiva/Foto Arqueologia [2013]).

 

O Espaço do Conhecimento UFMG, em sua exposição “demasiado humano”, possui a instalação “Profunda História da Diversidade”,  que apresenta entre os “Modos de Guardar” uma imagem do “Sítio Arqueológico do Rego Grande”. A instalação busca refletir sobre as diferentes formas de guardar que acompanham a jornada da humanidade, sejam elas associadas ao guardar pessoas falecidas em diferentes maneiras de sepultamentos, vasilhames cerâmicos ou de couro para guardar objetos e alimentos do dia a dia, e até mesmo uma grande estrutura de blocos megalíticos que podem guardar conhecimentos que serão passados adiante, para os povos relacionados à sua construção ou para outros humanos que irão explorar o sítio no futuro.

O “Sítio Arqueológico do Rego Grande” é, para além de um monumento dos povos indígenas que o construíram, uma junção de diferentes métodos de guardar as mais diversas coisas, do conhecimento até a cerâmica. Sua sustentação firme também reforça a possibilidade de diferentes culturas transmitirem práticas culturais e conhecimentos para além do presente contexto em que viviam de maneiras que não necessariamente são relacionadas à escrita.


REFERÊNCIAS

Cabral, M. P. (2014). “E se todos fossem arqueólogos?”: experiências na Terra Indígena Wajãpi. Anuário Antropológico, 39(2), 115-132. doi: https://doi.org/10.4000/aa.1269

Cabral, M. P., & Saldanha, J. D. M. (2008). Paisagens megalíticas na costa norte do Amapá. Revista de Arqueologia, 21(1), 9-26. doi: https://doi.org/10.24885/sab.v21i1.237

Cabral, M. P., (2020). Sobre urnas, lugares, seres e pessoas: materialidade e substâncias na constituição de um poço funerário Aristé. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas. Doi: https://doi.org/10.1590/2178-2547-BGOELDI-2019-0123

Jalles, C., (2004) Olhando o céu da pré-história: Registros arqueo astronômicos no Brasil. ‌

Saldanha, J. D. M., & Cabral, M. P. (2012). Potes e pedras: uma gramática de monumentos megalíticos e lugares naturais na costa norte do Amapá. Revista de Arqueologia, 25(1), 44-53. doi: https://doi.org/10.24885/sab.v25i1.339