Entenda como essa façanha seria possível no maior satélite natural (ou lua) de Saturno!
10 de fevereiro de 2026

Por Filipe Ferreira,
doutor em Física e astrônomo-assistente do Espaço do Conhecimento UFMG
A habilidade de voar é algo que sempre fascinou o ser humano e, ao longo da história da humanidade, diversas tentativas para tal foram realizadas. Por exemplo, Leonardo da Vinci (1452-1519), por volta de 1505, ilustrou em seus esboços o que é conhecido como ornitóptero. Do grego ornithos, que significa “pássaro”, e pteron, “asa”, essa aeronave voaria batendo as asas. Apesar de seu grande interesse pelo voo, não é certo se da Vinci chegou de fato a construir ou a tentar voar com esse tipo de engenho.

Representação do design do ornitóptero proposto por Leonardo da Vinci. (Reprodução/Britannica).
Apesar da cultura pop, como desenhos animados e filmes de super heróis, retratar personagens voando utilizando asas, como a Mulher-Gavião da Liga da Justiça ou O Anjo dos X-Men, infelizmente isso não é possível para um ser humano normal. Não possuímos a fisiologia necessária para voar apenas com um par de asas presa aos braços, pois não conseguimos gerar sustentação suficiente para superar nosso peso na Terra.
Para serem capazes de voar em nosso planeta, os pássaros utilizam uma combinação de leveza, formato e força muscular. O formato aerodinâmico das asas e penas das aves criam sustentação ao empurrar o ar para baixo, impulsionando-as para cima, enquanto a direção do voo é controlada com a cauda. Com exceção das aves aquáticas e terrestres, todos os pássaros possuem ossos ocos e também estruturas chamadas de sacos aéreos, que auxiliam na redução do peso corporal para o voo, assim como músculos peitorais bem fortes. Tudo isso proporciona leveza aos seus corpos e ao mesmo tempo força o suficiente para sustentar seu próprio peso.
Os voos possíveis na Terra
Além do ornitóptero de Leonardo da Vinci, ao longo da história outros veículos de propulsão humana foram projetados. Não eram equivalentes às asas presas aos braços, mas utilizavam a força humana para se movimentarem e alguns tiveram relativo sucesso. Por exemplo, o Gossamer Albatross e o Daedalus foram aeronaves de propulsão humana capazes de realizar voos longos, de dezenas a mais de uma centena de quilômetros, em 1979 e em 1988, respectivamente. Ambos os modelos utilizam pedais similares ao de uma bicicleta, em que a potência produzida ao pedalar é utilizada para girar uma hélice.

À esquerda: O Gossamer Albatross II visto durante um voo de teste no Centro de Pesquisa de Voo Dryden da NASA, em Edwards, Califórnia. (Créditos: NASA). À direita: O Daedalus 88, pilotado por Glenn Tremml, em seu último voo para o Centro de Pesquisa de Voo Dryden da NASA, em Edwards, Califórnia. (Créditos: NASA).
O modelo mais próximo de um equipamento que de fato bate asas movido por propulsão humana é o Snowbird, um ornitóptero construído em um projeto do Instituto de Estudos Aeroespaciais da Universidade de Toronto (UTIAS). O Snowbird é enorme, tendo uma envergadura de 32 metros, sendo o primeiro ornitóptero movido a propulsão humana a voar em linha reta. Os pedais estão conectados às asas por meio de um sistema de bombas e polias. O Snowbird não possui equipamento de corrida de lançamento e requer assistência de um reboque para isso, como mostra o vídeo a seguir.
Voo de teste do ornitóptero Snowbird, movido a força humana
Na prática, um dos poucos meios de um ser humano voar sem um veículo aqui na Terra é planando com um wingsuit, ou traje planador, que é um macacão com asas usado por paraquedistas para voos de alta performance. Durante um voo com o wingsuit, o paraquedista é capaz de planar a velocidades próximas de 150 km/h. Porém, para pousar os praticantes precisam usar um paraquedas.

Voo de wingsuit sobre os campos do aeródromo de Langar (escola de paraquedismo) no Reino Unido. (Reprodução/Commons Wikimedia).
Um mundo onde seria possível voar
Sabemos que seria impossível uma pessoa voar com asas na Terra, mas e se fizéssemos isso na Lua? Por ter uma gravidade equivalente a 16% da gravidade terrestre, nosso peso seria cerca de 6 vezes menor. O problema seria resolvido? A resposta é não, pois a Lua praticamente não possui atmosfera, o que torna impossível a impulsão de qualquer dispositivo que dependa do ar para se locomover. Do ponto de vista planetário, isto é, das propriedades do corpo celeste e não do organismo ou veículo, a gravidade e a densidade atmosférica são os fatores dominantes que controlam a viabilidade de um voo. Se esse voo fosse possível na Lua, certamente os astronautas teriam feito isso nas missões Apollo!

Titã, a maior lua de Saturno fotografada pela sonda Cassini. Nessa foto ela é vista em frente ao planeta e seus anéis com a lua Dione. (Créditos: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute).
Mas então onde um ser humano seria capaz de voar utilizando asas? O lugar mais recomendado para isso seria Titã, o maior satélite natural do planeta Saturno e o segundo maior do nosso sistema solar, perdendo apenas para Ganimedes, de Júpiter. Titã é enorme, chega a ser maior que o planeta Mercúrio, sendo a única lua do sistema solar que possui uma densa atmosfera, composta principalmente por nitrogênio, semelhante à da Terra. A pressão atmosférica na superfície dessa lua é aproximadamente 1,5 vezes a pressão atmosférica terrestre no nível do mar, equivalente à pressão que uma pessoa sentiria nadando a cerca de 5 metros abaixo da superfície do oceano na Terra. Mas sua gravidade é menor que a da Lua, cerca de 13% da gravidade terrestre, ou seja, se uma pessoa que pesa 100 quilos na Terra se pesasse numa balança em Titã, a mesma registraria em torno de 13 quilos!

À esquerda: Concepção artística de uma tempestade de poeira vista da superfície de Titã. (Créditos: IPGP/Labex UnivEarthS/University Paris Diderot – C. Epitalon & S. Rodriguez). Meio: Visão em infravermelho de Titã, lua de Saturno, obtida pela sonda Cassini da NASA durante o sobrevoo “T-114” da missão, em 13 de novembro de 2015. (Créditos: NASA/JPL-Caltech/Space Science Institute). À direita: Imagem obtida em 14 de janeiro de 2005 pela sonda Huygens da ESA durante sua bem-sucedida descida para pousar em Titã. (Créditos: ESA/NASA/JPL/University of Arizona).
Titã também é o único lugar, além da Terra, que se sabe ter líquido em sua superfície. Possui nuvens, chuva, rios, lagos e mares. Mas não se engane pensando que estamos falando de água líquida, pois Titã recebe cerca de 1% da luz solar que recebemos na Terra e possui uma temperatura média de -179 graus Celsius, o que significa que toda água em sua superfície está congelada. Além disso, os elementos que se encontram na superfície em forma líquida são principalmente constituídos por hidrocarbonetos como metano e etano. Visto de Titã, o Sol aparenta ser 10 vezes menor do que quando visto da Terra, mas há a recompensa da bela vista do planeta Saturno, que é visto no céu 10 vezes maior do que a Lua quando vista da Terra.
O artigo intitulado You can fly, publicado no University of Leicester’s Journal of Physics Special Topics, apresenta a física envolvida num hipotético voo em Titã por seres humanos com asas presas aos braços. Baseando-se na densidade atmosférica e gravidade de Titã, os autores conseguiram calcular valores aproximados de decolagem e a área de superfície das asas que deveriam ser utilizadas.
Para decolar utilizando um wingsuit de tamanho padrão, com área de asa de 1,4 metros quadrados, uma pessoa precisaria correr a uma velocidade de 39,6 km/h, próximo da velocidade máxima de 44,72 km/h alcançada por Usain Bolt. Os autores do artigo também calcularam que, considerando a velocidade média de corrida de um ser humano comum de 21,6 km/h, o wingsuit precisaria de asas um tanto maiores, com uma área de 4,7 metros quadrados, para uma decolagem bem-sucedida. Isso significa que seria inteiramente possível um ser humano correr, realizar uma decolagem e voar utilizando asas na superfície de Titã!
Mas seria possível o ser humano chegar até Titã para testar essa possibilidade? A possibilidade de um pouso em Titã e da locomoção em sua superfície já foi explorada tanto na literatura, em obras como Entering Space: Creating a Space-Faring Civilization, de Robert Zubrin, quanto em filmes, como The Titan (2018) e Slingshot (2024). Titã também é palco do pouso mais distante de um objeto feito pela humanidade, quando a sonda Huygens (ESA/NASA) desceu em sua superfície em 14 de janeiro de 2005, sendo capaz inclusive de fotografar o terreno à sua volta.
Um estudo mais detalhado da superfície de Titã, no entanto, não vai demorar a começar. A NASA lançará em 2026 a missão Dragonfly, cujo nome significa “libélula” em inglês, chegando em Titã em 2034. Se aproveitando da baixa gravidade e atmosfera densa, o veículo em formato de drone sobrevoará dezenas de locais promissores em Titã, buscando processos químicos comuns tanto nessa lua quanto na Terra.
Titã é muito parecida com a Terra primitiva e pode fornecer pistas sobre como a vida pode ter surgido em nosso planeta. Durante sua missão, que a princípio terá duração de 2,7 anos, a Dragonfly deve explorar diversos ambientes, desde dunas orgânicas até o fundo de crateras de impacto onde materiais orgânicos complexos, essenciais para a vida, coexistiram por possivelmente dezenas de milhares de anos. Além disso, os instrumentos buscarão assinaturas químicas de vida passada ou presente. Então, por enquanto, apenas a Dragonfly vai poder desbravar a atmosfera de Titã, ainda vai demorar para que o ser humano possa testar um voo com asas por lá.
Referências
Alexander, R. M. (2003). Principles of animal locomotion. Princeton University Press.
Lerman, H. N., Hicks, P., & Irwin, B. (2013). P5_1 You can fly. Physics Special Topics, 12(1).
NASA’s Dragonfly Will Fly Around Titan Looking for Origins, Signs of Life.
Human-powered Ornithopter Becomes First Ever to Achieve Sustained Flight.