Saiba mais sobre a importância das fases da Lua e do ano solar para o calendário tradicional da cultura chinesa

 

07 de abril de 2026

 

 

Por Eve Reis, estudante de Letras da UFMG e estagiária do Núcleo de Astronomia do Espaço do Conhecimento UFMG

 

O Calendário Tradicional Chinês, geralmente datado à Dinastia Xia (entre os séculos 21 e 16 A.E.C. – Antes da Era Comum – e E.C. – Era Comum – termos equivalentes, respectivamente, a antes e depois de Cristo), tem suas origens nas antigas observações usadas para marcar as épocas de plantio, colheita, chuva e seca. Entender os ciclos do Sol e da Lua era essencial para entender as estações do ano e padrões climáticos tão importantes para a agricultura local. Essas observações, feitas pela necessidade e praticidade, foram se refinando junto à toda China, se tornando cada vez mais sofisticadas e documentadas. 

 

É na dinastia Zhou que começa, então, a tradição do Mandato Celeste, que ditava que todo Imperador deveria observar e documentar os eventos astronômicos, assim como manter a harmonia entre o céu e a Terra, seguindo a ideia que tudo que acontecia em meio aos astros viria a influenciar em meio aos humanos.

 

Créditos: Joseph Needham F.R.S. Science And Civilisation In China. Vol. 3, Cambridge University Press, 1954. Pg. 187.

 

Seguindo essa tradição, o estudo da astronomia e meteorologia ganhou uma importância política e social, criando a necessidade de cada Imperador ter um astrônomo em seu palácio, tanto em moradia quanto em seus serviços. Esses astrônomos faziam parte de um grupo feito pelo Imperador com o intuito de realizar seus calendários e prever eventos astronômicos, o que ainda englobava as práticas agrícolas e agora também religiosas e políticas. 

 

Por séculos, astrônomos chineses documentaram em almanaques múltiplos eventos celestes, como, por exemplo, a aparição de 373 cometas, entre os séc. 3 AEC e 18 EC e até supernovas, como em 185 EC, onde foi descrita a aparição de uma “estrela” que permaneceu no céu por 8 meses. Sabemos hoje que essa “estrela convidada”, nome dado aos pontos luminosos que apareciam somente por um curto período de tempo, correspondeu a uma supernova, hoje chamada de RCW 86, localizada na direção de Alpha Centauri.

 

Créditos: NASA. X-ray: NASA/CXC/SAO & ESA; Infared: NASA/JPL-Caltech/B. Williams (NCSU).

 

Ao reunir as antigas observações já estabelecidas pelas práticas agrícolas com os novos conhecimentos astronômicos, foram criados novos modos de documentação e interpretação do céu, culminando no que se tornou o Calendário Tradicional Chinês. Escrito como 農曆 em Chinês Tradicional,  o termo é composto pelos caracteres 農, que pode ser traduzido como “agricultura”, e 曆, que significa “calendário”, resultando na tradução literal de “calendário agrícola”. No entanto, quando utilizados em conjunto, são lidos como Ano Novo Lunar. Apesar de seu nome, o Calendário Tradicional não é regido somente pelo ciclo lunar (diferente do calendário islâmico, explicado em outro texto do Blog do Espaço), e sim pela junção do ciclo lunar e solar, formando um calendário Lunisolar. 

 

O calendário Lunisolar usa as fases da Lua (ciclos lunares que possuem em média 29.5 dias) como marcadores dos meses e os encaixa dentro de um ano solar, que por sua vez é marcado quando o Sol volta à uma mesma posição que estava no céu cerca de 365 dias atrás. Esse movimento do Sol visto no decorrer de um ano produz um desenho chamado de analema, semelhante a um 8 gigante no céu. Cada dia do ano o Sol está em uma posição, e se tiramos uma foto dele todos os dias no mesmo horário e em um mesmo lugar da Terra, veremos que ele sempre volta para o ponto de onde partiu em aproximadamente 365 dias!

 

Créditos: Cenk E. Tezel and Tunç Tezel (TWAN).

 

Hoje a China já não usa seu Calendário Tradicional no dia-a-dia, pois o calendário gregoriano (o mesmo usado no Brasil) foi adotado em 1912. Sem deixar de lado as raízes de sua cultura, o país ainda recorre ao Calendário Tradicional para marcar datas comemorativas, como o próprio Ano Novo Chinês. Por se basear nas fases da Lua e no ano solar, o Calendário Tradicional precisa ser calculado manualmente a partir desses ciclos. Todo ano, o Observatório da Montanha Roxa faz esse cálculo e publica em conjunto de almanaques em seu site: 历书查询

 

Em 2026, o Ano Novo foi comemorado entre os dias 17 de fevereiro, na primeira lua nova após o solstício de inverno, e o dia 03 de março, início da primavera e a primeira lua cheia. Seguindo as tradições, entre os dias 17 de fevereiro e 03 de março de 2026, casas foram decoradas, famílias se reuniram e fogos de artifício decoraram o céu durante esse período, dando boas vindas ao ano do Cavalo!