As diversidades são intrínsecas aos modos de vida dos povos originários
A reflexão sobre as narrativas indígenas nos convida a valorizar e reconhecer as diversidades intrínsecas nos modos de vida dos povos originários no Brasil
11 de abril de 2023

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Promulgada em 08 de julho de 2022, a Lei 14.402/22 determinou o Dia dos Povos Indígenas, 19 de abril, em contrapartida ao Dia do Índio que ocupava a mesma data. A singularização apresentada pelo termo “índio” apaga as diversidades dos 300 povos originários no Brasil.
A mudança, instaurada após diversas reflexões impulsionadas pela luta desses povos, busca evidenciar a diversidade dos indígenas que vivem no território nacional, além de reconhecer seus direitos e assegurar suas identidades.
No entanto, para que a mudança represente de fato uma transformação, é necessário que, não apenas no Abril Indígena, mas a todo momento, a população indígena seja ouvida e que o conhecimento de suas diversas histórias, vivências e saberes seja ampliado. Os modos de vida dos povos indígenas perpassam por questões espirituais, políticas e culturais que devem ser valorizadas e atribuídas a eles.
Narrativas, multiplicidades e diversidades
Em uma perspectiva histórica, a construção sociocultural da humanidade é acompanhada por narrativas que transmitem conhecimentos e registram memórias. Assim, as individualidades dos mais diferentes povos estão armazenadas nas histórias contadas por eles. A oralidade, escrita, desenhos e expressões de arte em diferentes suportes são algumas das maneiras pelas quais os povos indígenas se manifestam como protagonistas de suas histórias.
Visita Mediada à exposição Mundos Indígenas
Para preservar as identidades dos povos indígenas, em meio às 274 línguas indígenas já registradas no Brasil, é essencial reconhecer as multiplicidades, dotadas de caráter simbólico e significados próprios, que permeiam suas histórias. As narrativas indígenas são uma maneira de encontrar e reencontrar memórias, ancestralidades e tradições, que constroem a identidade e a conexão dos povos originários com sua própria existência.
Exemplos de expressões que fortalecem a conexão ancestral com o território, identidade cultural e vivências indígenas são os Tehêys do povo Pataxoop, presentes na exposição Mundos Indígenas, do Espaço do Conhecimento. O tehêy é um instrumento de pescaria dos Pataxoop, que também tem sido trabalhado por Liça Pataxoop como um instrumento pedagógico que “pesca” conhecimento, cultura e saberes tradicionais. Liça é professora na aldeia Muã Mimatxi, localizada em Itapecerica (MG), e por meio dos tehêys cria desenhos-narrativas que ensinam valores de seu povo para as crianças. O conhecimento imagético proporcionado pelos tehêys permite que os alunos leiam a resistência, a força e a cultura dos Pataxoop em histórias que se expressam de maneira sensível e única.
A autoexpressão e autoidentificação por meio das histórias indígenas deve ser atribuída a autoria dos povos originários, e seu vasto repertório, coletivo ou individual, deve ser reconhecido pela diversidade e múltiplas formas de expressão.
Abril Indígena
Como parte da reflexão suscitada pelo Dia dos Povos Indígenas (19 de abril), o Espaço do Conhecimento UFMG integra o Abril Indígena e promove uma programação variada que convida os visitantes a imergir na diversidade cultural dos povos originários no Brasil. Os próximos textos do Blog do Espaço neste mês buscarão também refletir sobre a presença dos povos indígenas contemporâneos, através de um texto sobre a participação nas esferas políticas e sobre as ações educativas realizadas na exposição de curta duração Mundos Indígenas. Continue nos acompanhando!
[Texto de autoria de Ana Carolyna Gonçalves, assistente do Núcleo de Comunicação]
Referências
AMORIM, Gabriela. Da oralidade até os livros: conheça as formas e expressões da literatura indígena no Brasil. Brasil de Fato, 2022. Disponível em: https://bit.ly/3URL6gs
BRAZ, Werymehe Alves. Tehêy de pescaria de conhecimento. 2019. Trabalho de Graduação (Formação Intercultural para Educadores indígenas – Habilitação em Ciências da Vida e da Natureza). Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte – Minas Gerais, 2019. Disponível em: https://bit.ly/43LcalE
MUNDURUKU, Daniel. Escrita indígena: registro, oralidade e literatura. O reencontro da memória. In: DORRICO, Julie; DANNER, Leno Francisco; CORREIA, Heloisa Helena Sirqueira; DANNER, Fernando (orgs). Literatura indígena brasileira contemporânea. Porto Alegre: Editora Fi, 2018. p. 81-85. Disponível em: https://bit.ly/3opfzpI
Povos Indígenas | Quem são. Fundação Nacional dos Povos Indígenas, 2020. Disponível em: https://bit.ly/3UOBiDJ
DORRICO, Julie; DANNER, Leno Francisco; DANNER, Fernando. A literatura indígena brasileira contemporânea: A necessidade do ativismo por meio da autoria para a garantia da autonomia. In: DORRICO, Julie; DANNER, Leno Francisco; DANNER, Fernando (orgs.). Literatura indígena brasileira contemporânea: autoria, autonomia, ativismo. Porto Alegre: Editora Fi, 2020. p. 238-262. Disponível em: https://bit.ly/3KCEEWS.