Entrevista
com Lucas Bambozzi
Qual a
importância do Festival de Inverno da UFMG, em sua
35ª edição, na perspectiva da sua trajetória
profissional?
O Festival de
Inverno foi fundamental para estimular, afirmar e conduzir
muito do que aconteceu com o vídeo, na minha geração.
Minha geração não seria exatamente
a geração do Éder (Santos), apesar
de não existir uma diferença grande de idade,
mas uma turma que se formou basicamente através de
festivais e cursos. Eu tive aulas com Rafael França,
quando o Festival de Inverno foi realizado em Belo Horizonte,
fui monitor da Joan Logue. Informalmente, eu já ajudei
a indicar muitos professores, como John Gilles, Carlos Nader,
Patrick De Geetere. Eu sempre estive perto de alguma forma,
tentando colaborar com o Festival, porque eu acho fundamental
para a formação e o debate do vídeo
e das mídias afins.
Cada vez menos
eu venho usando a palavra vídeo, porque ela se impregnou
de tanta coisa, foi se misturando a tantas outras coisas,
desde o final dos anos 80, que o vídeo é a
própria idéia do que está sendo colocado
hoje no Festival, como expansão, hibridismo, confluência.
O vídeo é resultado disso e promove essas
confluências também. Não é uma
coisa limpa, nasceu tomando emprestado linguagens da televisão,
do cinema, das artes plásticas, que é a que
mais me interessa hoje: essas relações do
vídeo com as outras artes, entendendo aí todas
as formas de manifestação do vídeo
- as instalações, o vídeo que acontece
na web, o vídeo que flerta com um cinema mais experimental,
que tem uma perspectiva artística, e não só
de entretenimento.
Voltando ao
Festival, muito do que se via de mostras aconteciam no evento.
Fora o quanto foi importante para as artes cênicas,
na música, com o grupo Corpo, o Uakti, que surgiram
no Festival. Desde 1989 eu vejo com muito bons olhos o que
acontece no Festival.
Então
o papel das mídias na arte contemporânea seria
o de processar várias linguagens?
Eu descobri
um texto, antes de vir pro Festival, do livro de Mac Luhan,
Understanding Media, que diz que o encontro de dois
meios é um momento de verdade e revelação.
A partir disso, nasce uma nova forma, de liberdade e libertação
do ordinário, de um transe que envolve o ordinário,
de algo que é imposto pela mídia estabelecida
aos nossos sentidos, de uma forma narcísica.
Parece que o
vídeo passou a década de 90 olhando para si
próprio, falando do vídeo e conclamando um
espaço para o vídeo, sem levar em consideração
que o mais que de mais interessante vinha acontecendo com
o vídeo era exatamente nas interseções,
nas confluências.
É curioso
que esse discurso do Mac Luhan nem é dos anos 90,
é de meados da década de 60, e, apesar de
instituído, como nesse Festival, com a idéia
de limites e expansões, os próprios circuitos
ainda são segmentados. O circuito da arte, galerias
e museus ainda exigem que se façam trabalhos nessa
ou naquela mídia. Eu enfrento na pele a dificuldade
de apresentar algum trabalho que não tem uma definição
muito precisa. Como eu circulo entre cinema, vídeo
experimental, vídeo-arte, novas mídias: Internet,
meios interativos e no circuito da arte, geralmente eu sou
cobrado para que eu me defina. Isso é terrível.
O cinema é, na maior parte, um circuito muito conservador,
nesse sentido, porque privilegia a linguagem em função
do suporte película. Assim como o circuito das galerias
de arte, que ainda têm dificuldade de lidar com meios
eletrônicos e digitais. Principalmente porque eles
não sabem vender esses meios, como tornar isso viável
comercialmente. Então, como as galerias têm
uma função comercial inegável, elas
deixam de tratar o que não conseguem gerenciar. São
raras as instituições que conseguem absorver
esse fenômeno real onde as convergências estão
finalmente acontecendo.
O discurso existe
na academia, na bocas dos artistas, dos teóricos,
dos críticos, há décadas, talvez, mas
na prática ainda existe uma dificuldade muito grande
no trato com o mercado. Então uma das funções
do Festival seria tornar esse discurso uma coisas efetiva.
Considerando
as várias possibilidades da natureza do trabalho
com novas mídias e a maior acessibilidade das tecnologias,
o que você acha das produções da atual
geração?
Realmente, a
tecnologia vem permitindo uma explosão de formas
diferentes de se fazer trabalhos. Uma vez que é mais
fácil ter os recursos, mais pessoas começam
a utilizar desses recursos como forma de se expressarem,
se colocarem, como artistas e realizadores de uma maneira
geral. Mas o discurso da democratização dos
meios de produção é meio perigoso,
porque, por mais que mais pessoas estejam tendo acesso,
a pobreza no mundo também aumenta geometricamente.
Eu me preocupo
que, no momento do encontro de duas mídias, em que
uma terceira coisa é formada, seja gerada uma linguagem
realmente nova. Me interessa, no uso de novas ferramentas,
que se procure não fazer as coisas que já
vinham sendo feitas com as ferramentas antigas. Outra coisa
que me interessa é saber se essas pessoas que estão
fazendo estão tendo acesso aos meios de veiculação.
Se elas estão conseguindo alguma visibilidade, no
meio dessa profusão que se forma. Você encontra
de tudo na Internet, mas conseguir fazer emergir algo no
meio disso tudo, é um desafio. Me preocupam os dispositivos
para que esses trabalhos cheguem a público e, também,
que o público saiba procurar esses trabalhos, se
interesse por esses trabalhos radicais, autorais, que são
feitos, às vezes, de uma forma precária. Se
há essa disposição para uma nova estética,
se os olhares estão preparados para essa explosão
de trabalhos.
Na sua
oficina, você propõe os alunos a isso?
O que eu mais
tenho feito é mostrar a diversidade de produções
para fazer com que as pessoas ampliem um pouco mais o imaginário,
do que é esta arte produzida com os novos meios.
A vídeo-arte criou uma espécie de clausura
para si própria, a ponto hoje se confundir com uma
coisa chata, difícil, hermética. Então
eu procuro mostrar coisas que ocupam os mesmos circuitos
da chamada vídeo-arte, considerados produtos de arte
feitos das novas mídias. Ao propor essa diversidade,
eu acredito que esteja ajudando um pouco essa preparação
do olhar, numa espécie de ampliação
das possibilidades de fruição dessa micro-arte,
desse micro-cinema, desses fragmentos de arte que vão
ocupando o dia a dia das pessoas.
Na minha oficina
eu estou abordando as várias confluências das
mídias no universo da arte, a instabilidade e o constante
movimento dessas novas mídias. Eu destaco a riqueza
que é trabalhar, exatamente, com essa situação
fluida. A gente está desenvolvendo instalações
na cidade que são formas de intervenção
urbana, mas que também tratam de uma idéia
de performance. A forma de apresentação, em
si, envolve procedimentos emprestados do cinema e da fotografia.
Eu estou falando muito sobre retrato, retrato em movimento,
micro-cinema digital, que é o trabalho com vídeo
em baixa resolução, documentário. Enfim,
um panorama histórico do que se produz em arte eletrônica
e tecnologias interativas. Parecem universos díspares,
mas estão todos concatenados, e fazem parte da forma
como venho trabalhando ao longo desses 14 anos.
Quais
são os seus projetos, no momento?
No exato momento
eu estou finalizando um documentário em longa-metragem
sobre brasileiros clandestinos na Guiana Francesa. É
a continuidade de um projeto que eu comecei em 1998, que
resultou em um vídeo chamado L’Oyapoque, uma
espécie de diário de viagem. Dessa vez eu
passei mais de um mês lá, registrando a economia
local, o que leva os brasileiros a procurarem o Oiapoque,
local onde há o maior fluxo de emigração
no Brasil, como um trampolim para se chegar à Guiana.
Os brasileiros que atravessam a fronteira recebem em Euro,
isso causa uma espécie de desequilíbrio na
fronteira.
Tenho outro
projeto, já aprovado pela BR (Petrobras), que é
um documentário sobre subversão nas mídias
e utilização das mídias de modo crítico
e subversivo, como forma de esvaziar o conteúdo e
a função intrusiva das próprias mídias.
O projeto se chama (R)Existências, uma brincadeira
entre resistência e existência. São pessoas
que naturalmente desenvolvem formas de se proteger desses
mecanismos dominadores e das distorções das
tecnologias nos dias de hoje.