Fotos Bruna Brandão/UFMG |
Pela primeira vez, um estudo clínico realizado com pacientes comprovou que o leite é um ótimo meio de conservação para dentes traumatizados. A pesquisa, desenvolvida pela professora Juliana Vilela Bastos (na foto abaixo), acaba de receber o Prêmio Jeans Andreasen no 17º Congresso Mundial de Traumatismo Dentários. Segundo ela, o levantamento demonstrou que, dos 700 pacientes pesquisados, 80% procuraram atendimento emergencial dentro de seis horas, ou seja, se esses dentes tivessem sido armazenados no leite, a maioria dos reimplantes teria grandes chances de sucesso. Outra contribuição desenvolvida no âmbito do programa de extensão foi o trabalho pioneiro realizado sobre o impacto do traumatismo dentário na qualidade de vida de adolescentes. Segundo pesquisa de doutorado da professora Maria Ilma de Souza Côrtes, o comprometimento estético gerado por um traumatismo nos dentes anteriores pode trazer consequências sociais e psicológicas, principalmente para as crianças, que têm dificuldades de convívio social e deixam até de sorrir. “Se para um adulto esse tipo de lesão traz um sério problema psicossocial, imagina para uma criança, que vai sofrer com as brincadeiras dos coleguinhas da escola por estar banguela ou com um dente faltando pedaço. Daí a importância de um tratamento eficiente e funcional”, explica Juliana Bastos. Mais de cinco mil pacientes já foram atendidos nos 25 anos de funcionamento da clínica. A divulgação dos primeiros cuidados a serem tomados com quem sofre trauma dentário é fator crucial para o êxito do tratamento. “Sabemos que a maioria dos acidentes ocorre com crianças em idade escolar. O ideal, quando um dente sai inteiro após um trauma, é que a própria pessoa ou acompanhante tente colocá-lo no lugar nos 10 minutos seguintes à lesão. Entretanto, na maioria das vezes esse tempo é impossível de ser obedecido, pois até que as primeiras providências sejam tomadas, esse período já passou. Daí a importância de divulgar o leite como meio de conservação, pois ele é facilmente encontrado nas escolas infantis, onde ocorre a maioria dos traumas dentários”, diz Juliana. Segundo a professora, a partir do momento que os professores e pais sabem o que fazer no momento do trauma (tentar reposicionar o dente ou guardá-lo no leite), as chances de sucesso do tratamento chegam a 100%. Para conscientizá-los sobre os cuidados pós-trauma, o projeto realiza campanhas de divulgação e lançou a cartilha E se meu dente quebrar?, distribuída em creches e escolas de Belo Horizonte. Em um primeiro momento, as vítimas de traumatismo recebem atendimento no pronto-socorro do Hospital Municipal Odilon Behrens antes de serem encaminhadas para a UFMG. O segundo passo é o direcionamento para a Clínica de Traumatismos Dentários ou para o projeto Atendimento Odontológico a Crianças com Traumatismos da Dentição Decídua, dependendo da idade do paciente. Nesse momento, são feitos o diagnóstico das lesões e o planejamento de como será o tratamento. De acordo com as características específicas do trauma, o paciente pode ainda ser encaminhado ao projeto Tratamento Ortodôntico Interceptativo a Pacientes com Traumatismo Dentário, caso necessite usar aparelho ortodôntico, ou para a área de Restauração de Dentes Anteriormente Traumatizados, onde é feita a restauração do dente lesionado. Os pacientes são acompanhados durante todo o processo. “Alguns chegam aqui aos oito anos de idade e ficam conosco até os 18, idade em que a reabilitação dentária é definitiva”, conclui Juliana Bastos. (Luana Macieira)
Desde a década de 1980, estudos experimentais já sinalizavam que o leite seria um ambiente propício à manutenção de dentes avulsionados, aqueles que se soltam completamente da arcada dentária devido a um trauma.
Mas a comprovação clínica veio agora com a tese de doutorado da professora Juliana Bastos, que tem como objetivo avaliar fatores genéticos e clínicos associados à cicatrização de dentes reimplantados.
“Para termos 100% de sucesso quando um dente sai completamente da boca, o reimplante deve ocorrer nos 10 minutos seguintes ao trauma ou ser armazenado no leite. Se o dente for colocado em um recipiente com leite, esse tempo de 10 minutos passa para seis horas e, nesse período, é possível procurar atendimento médico”, argumenta Juliana.
Consequências psicológicas
Quedas, colisões contra objetos e pessoas, prática esportiva e brincadeiras mais agressivas são os principais motivos que fazem os pais procurarem tratamento para seus filhos na Clínica de Traumatismos Dentários da Faculdade de Odontologia da UFMG, que integra o programa de extensão Traumatismos Dentários. A clínica é a única alternativa de tratamento para traumas dentários oferecida aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) em Belo Horizonte.
Atendimento integrado
O programa de extensão em Traumatismos Dentários surgiu em 2004, mas a clínica funciona desde a década de 1980 e atua em diversos campos do trauma. “A abordagem do paciente traumatizado deve ser multidisciplinar e integral. Trata-se de um grande programa formado por projetos menores que andam juntos para a recuperação do paciente. Cada tratamento específico resolverá um problema. Ao final do processo, o paciente terá seu dente cicatrizado e recuperado”, conta Juliana Bastos.