Universidade Federal de Minas Gerais

Fotos: Zirlene Lemos / UFMG
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Professora Luma Andrade: pensamento fundamentado em estereótipos é reproduzido desde a infância

Em aula inaugural, professora e cineasta relacionam preconceitos à discussão sobre humanidade e liberdade

sexta-feira, 17 de março de 2017, às 9h48

“Como podemos, hoje, falar em liberdade, igualdade e fraternidade? Falar de direitos humanos é refletir: afinal, quem são aqueles que consideramos humanos e quem são os não humanos?” As perguntas foram lançadas pela professora Luma Nogueira de Andrade, professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab), na aula inaugural da Formação Transversal em Direitos Humanos, realizada ontem (quinta, 16), no auditório da Reitoria.

Primeira travesti doutora a lecionar em universidade pública brasileira, Luma afirmou que as pessoas ficam sabendo desde cedo que tipo de corpo pode existir ou não, como se deve agir e o que não é chancelado. “Essa racionalidade vai nos conduzindo desde a infância e vai dizendo: isso é certo. E a gente vai incorporando e reproduzindo em tudo, até mesmo nas diferenças.” O evento teve também a participação do cineasta Joel Zito.

Luma Andrade apresentou o que chama de “pensamento binário” civilizatório, fundamentado em estereótipos. Com base em estudos de Nietzsche, Foucault e Arlette Farge, ela explicou que o homem foi preparado socialmente para dividir os outros em dois polos: helenos e bárbaros, cristãos e pagãos, super-homens e sub-homens. Luma explorou essa polarização para problematizar ideias como as de humanidade, igualdade e direitos universais no cenário atual. “Olhem para o lado e vocês perceberão que os direitos humanos estão do lado dos considerados humanos, enquanto os inumanos continuam à margem da sociedade”, sentenciou.

A professora da Unilab relembrou o caso da travesti Dandara, que depois de apedrejada e assassinada a tiros, teve o corpo jogado no lixo, há um mês, no Ceará. Ela usou o exemplo para abordar a temática da LGBTfobia no Brasil. “Me posiciono politicamente como travesti como forma de enfrentamento. É motivo, ao mesmo tempo, de tristeza e alegria, pois eu cheguei até aqui, mas milhares de pessoas como eu não tiveram acesso à informação, nem sequer chegaram à escola. Ainda hoje, a presença de uma travesti afronta muita gente, ainda somos vistas como prostitutas, pessoas desqualificadas, não inteligentes", enfatizou Luma Andrade.


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Racismo como ‘crime perfeito’
Joel Zito [foto] introduziu sua fala com dados sobre a adoção de crianças negras no país. Segundo ele, que fez pesquisa para um documentário, dos 27 mil pretendentes cadastrados para adoção, somente 585 declararam aceitar crianças negras, apenas 1.537 aceitavam crianças pardas e 10.173 deles se disseram dispostos apenas a adotar crianças brancas.

Ele lembrou a forma como a mídia tratou os casos de racismo sofrido pelo jogador Aranha e pelo ginasta Ângelo Assumpção, retomando a ideia do racismo como um crime perfeito no Brasil, lançada pelo antropólogo Kabenguele Munanga. "O racismo é um crime perfeito porque ele se comporta como todo e qualquer crime perfeito, em que o criminoso transfere para a vítima a responsabilidade do crime. Desse ponto de vista, podemos compreender melhor como a mídia e a sociedade brasileira atuam diante do racismo”, afirmou o cineasta.

“Vira e mexe, a mídia destaca algum jogador que foi vítima de racismo. Qual é o comportamento da sociedade, da mídia, dos jornalistas diante dessa vítima? Ele é pressionado para que diga que aquilo não foi necessariamente racismo. O ginasta Ângelo Assunção reagiu contra os colegas que fizeram piadas racistas, e isso virou matéria da mídia. A pressão foi para que ele assumisse que aquilo foi parte das brincadeiras naturais entre amigos no Brasil. O mesmo aconteceu com o goleiro Aranha. A pressão é sempre sobre a vítima, que se não assume que foi brincadeira, fica malvista pela sociedade. Nossa realidade ainda é profundamente racista”, disse Joel Zito.

Ele mencionou a biografia de Barack Obama, Dreams from my father. O ex-presidente dos Estados Unidos conta que o filme que mais impactou sua mãe, uma mulher branca, foi Orfeu negro, de 1959, dirigido pelo francês Marcel Camus e baseado no musical Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, com músicas de Tom Jobim e Luiz Bonfá. “A mãe do Obama, com origens no interior dos EUA, disse que foi o primeiro filme estrangeiro que ela viu e que despertou nela uma sensibilidade estética e erótica. Tempos depois, ela se apaixona e nasce o primeiro presidente negro dos EUA”, disse, provocando risos da plateia.

Mas, se o filme despertou paixões, em contrapartida, segundo Zito, "os críticos de cinema no Brasil e os diretores do Cinema Novo não entenderam a obra, dizendo que ela promovia a folclorização das favelas. Eles não entenderam que havia naquele momento a emergência de um novo olhar sobre o negro, rompendo o estereótipo da feiura, do colonizado, do atraso. O cinema novo não entendeu isso, Glauber Rocha não entendeu, não entenderam o potencial que o filme tinha de gerar o primeiro presidente negro do maior império da terra".

Ainda segundo Joel Zito, a questão do racismo se articula com a manutenção da enorme desigualdade que assola o Brasil, por meio, por exemplo, da estética do branqueamento. Ele disse que é preciso confrontar isso, ou qualquer outra medida terá tons paternalistas. “As universidades necessitam preparar não só sociólogos, psicólogos, mas também médicos, engenheiros, para compreender a diferença humana como diferença humana e não como hierarquia de castas, de raças. Nós não somos uma raça inferior, cucarachos, aves-raras. Entender isso para mim é uma questão fundamental de direitos humanos", concluiu.

O encontro foi aberto pelos pró-reitores Ricardo Takahashi, de Graduação, e Claudia Mayorga, adjunta de Extensão [na foto abaixo], que apresentaram a estrutura da nova formação transversal. E teve a participação da professora Maria Aparecida Moura, da Escola de Ciência da Informação e titular da Ouvidoria da UFMG, que integra o corpo docente do curso.

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