IA redefine a própria ideia de inteligência, diz professor da Fale em mesa do encontro do Grupo Tordesilhas
Tecnologia pode ser uma importante aliada do ensino, desde que vista numa perspectiva de cooperação, avaliam especialistas das universidades de Lisboa e Léon
Por Luana Macieira
A Inteligência artificial está revolucionando profunda e rapidamente o modo como as pessoas aprendem, ensinam, pesquisam e fazem gestão. É o que relataram, inclusive com respaldo de dados de investigações recentes, os participantes da mesa-redonda O papel da IA na produção do conhecimento: Impactos, Perspectivas e Aplicações, mediada por Antonio Largo Cabrerizo, reitor da Universidad de Valladolid, na Espanha. A mesa, que integrou a programação do 24° Encontro do Grupo Tordesilhas, reuniu, nesta segunda-feira, no auditório da Reitoria, os professores Ana Paiva, da Universidade de Lisboa, José Alberto Benítez Andrades, da Universidade de León, e Ronaldo Corrêa Gomes Júnior, da UFMG.
Ana Paiva iniciou a sua fala afirmando que o uso da inteligência artificial nas universidades não deve ser combatido, e, sim, incentivado. Segundo a professora, a IA é uma ferramenta que pode contribuir para a produção científica e atuar como elemento de colaboração entre professores, pesquisadores e gestores.
“Os alunos já perceberam que, em 90% dos casos, a nova modalidade de IA, também conhecida como IA generativa, é capaz de responder às perguntas de uma prova ou exame melhor que eles. Vivemos um momento em que a transformação do conhecimento pode usar uma nova ferramenta. Creio que todo o debate acerca da relação entre IA e ensino não reside no veto do uso da IA, mas em um uso que promova o melhor processo de aprendizagem”, disse.
A professora acrescentou que a IA influencia três dimensões nas universidades: o aprendizado, o ensino e a pesquisa. Para exemplificar essa influência nas duas primeiras, Ana Paiva citou um estudo realizado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Na pesquisa, estudantes foram convidados a produzir um texto – parte deles pôde utilizar o ChatGPT, modelo de inteligência artificial generativa, enquanto os demais escreveram sem o auxílio da ferramenta.
Os resultados mostraram que os estudantes que escreveram sem o auxílio da inteligência artificial se sentiram mais envolvidos no processo de escrita e desenvolveram um maior senso de autoria em relação aos textos produzidos. Os textos elaborados com o uso do ChatGPT, por sua vez, não despertaram o mesmo engajamento nem o sentimento de pertencimento entre os autores, além de apresentarem grande semelhança entre si.
“Esse estudo mostrou que o esforço mental é menor com o uso da IA, o que dificulta o aprendizado. Mas isso não quer dizer que não devemos ensinar os alunos a usar a ferramenta. Sócrates, no ano 2400, achava que não se devia escrever porque a escrita favoreceria o esquecimento, uma vez que faria com que as pessoas deixassem de usar a memória. O pensamento criativo é essencial; por isso, a inteligência artificial deve ser utilizada como aliada no desenvolvimento das capacidades críticas dos estudantes.”
O professor José Alberto Benítez Andrades, da Universidade de León, destacou que a inteligência artificial pode contribuir para acelerar o processo de transformação de dados em informações e destas em conhecimento. Dessa forma, a ferramenta tecnológica teria aplicação em três áreas das universidades: a docência, a pesquisa e a gestão.
“Na docência, ela nos ajuda a melhorar o aprendizado e o apoio aos professores, além de possibilitar maior personalização do ensino. Na pesquisa, a IA melhora a produtividade. Na gestão, ajuda na eficiência administrativa e na redução do tempo de prestação de serviços”, disse.
O professor, entretanto, destacou os riscos relacionados ao uso da IA nas universidades. “Há riscos relacionados à privacidade e à dependência do uso, o que favorece a perda do pensamento crítico. Há, ainda, o ataque à sustentabilidade, devido ao grande consumo energético que o uso dessas ferramentas ocasiona. A IA não vai substituir ninguém, mas é necessário aprendermos a usá-la nas universidades.”
Como uma nuvem
O professor Ronaldo Corrêa Gomes Júnior, da Faculdade de Letras (Fale) da UFMG, iniciou a sua fala citando a definição de algoritmo do professor Virgílio Almeida, que fez a conferência de abertura do 24° Encontro de Reitores do Grupo Tordesilhas.
Ronaldo Corrêa afirmou que, conforme a definição Almeida, os algoritmos são como instituições, pois geram contextos de interação e criam trilhas para o desenvolvimento, estruturando regras, normas e significados que embasam a ação social.
“As tecnologias impactam todas as nossas práticas sociais, inclusive as linguagens. Os algoritmos estão nos influenciando nas plataformas no nosso dia a dia, a todo momento. Por isso, quando penso em IA, não consigo achar algo concreto para defini-la. Vejo a IA como uma nuvem que invade e penetra todas as nossas instituições”, explicou.
Daí a urgência, apontada pelo professor, de que as universidades aprendam a lidar com essa “nuvem”. De acordo com os resultados de pesquisa apresentada por Ronaldo Corrêa, sete em cada 10 alunos do ensino médio usam ferramentas como o ChatGPT e o Gemini (IA do Google) em pesquisas escolares. No entanto, desse contingente já familiarizado com a tecnologia, apenas 32% recebem orientação na escola de como usá-la adequadamente.
No caso de estudantes do ensino fundamental, o professor relatou que 39% já utilizam ferramentas de inteligência artificial, enquanto apenas 19% afirmaram ter recebido orientações de seus professores sobre como aplicá-las em atividades de aprendizagem. “Todos esses alunos chegarão às universidades. Querendo ou não, a IA já é uma tecnologia educacional presente entre os estudantes. Por isso, precisamos incorporá-la às nossas práticas de ensino”, afirmou.
Sobre os riscos, o professor da Fale mencionou o guia desenvolvido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 2023. No documento, a Organização alerta que um dos perigos do uso da inteligência artificial é o aprofundamento da pobreza de dados digitais – produzidos majoritariamente em línguas do Norte Global –, o que impacta a diversidade linguística e cultural e reduz a pluralidade de opiniões.
“A IA mimetiza a inteligência humana, ou seja, ela não cria o conhecimento. O relatório da Unesco sugere três grupos de ação para regulamentar a IA na educação: a governança, a legislação e a capacitação. A Unesco diz que a abordagem deve ser centrada no humano, então devemos pensar na integridade acadêmica e na autonomia para saber quando usar a IA. Devemos continuar no controle, de modo que a ferramenta seja uma colaboradora do ensino.”
Para o professor, a universidade precisa se reinventar diante da IA. Como os algoritmos produzem sentidos, definem as regras e moldam os comportamentos, Ronaldo Corrêa entende que a IA deve ser vista como um sistema sociotécnico que articula conhecimento e ação, atuando simultaneamente como linguagem e estrutura de poder. “Ela nos convida a repensar a própria ideia de inteligência: não mais como um atributo individual, mas como fenômeno distribuído, ecológico e coletivo”, concluiu.
Grupo Tordesilhas
Criado há 25 anos, o Grupo Tordesilhas é uma rede que visa fortalecer a colaboração acadêmica entre universidades do Brasil, da Espanha e de Portugal – são 60 instituições: 29 brasileiras, 20 espanholas e 11 portuguesas. Seu nome alude ao Tratado de Tordesilhas, firmado na localidade do mesmo nome, na Espanha, em 1494, com o objetivo de dividir as terras descobertas e por descobrir fora da Europa pelas coroas portuguesa e espanhola.
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