‘A dança das memórias’: livro infantil aborda busca por bisavó mineira da filósofa Sueli Carneiro
Professora Ivana Parrela debruçou-se sobre os arquivos de Maria Gaivota, ancestral de uma das principais referências do feminismo negro no país; lançamento será nesta quinta, dia 13, na sala da Congregação da ECI
Por Hellen Cordeiro
No mês em que se celebra o legado da resistência negra e a promoção da igualdade racial no Brasil, falar de ancestralidade é também uma oportunidade de trazer para o debate a luta por direitos. A temática permeia A dança das memórias, livro infantil escrito pela historiadora e professora de arquivologia da Escola de Ciência da Informação (ECI) Ivana Parrela, em parceria com Bianca Santana, jornalista e biógrafa da filósofa e escritora Sueli Carneiro, Cecília Santana, filha de Bianca, e Luanda Carneiro Jacoel, filha de Sueli.
“Divulgar o livro agora [no Novembro Negro] é fundamental para trazermos o tema para as crianças e para os arquivos e a arquivologia, que têm a obrigação de se apresentar como custodiadores de documentos para a escrita de histórias como as que narramos”, afirma Ivana Parrela. Ela mediará um bate-papo no lançamento da obra nesta quinta-feira, dia 13 de novembro, às 18h, na sala da Congregação da ECI.
Imersão na história
As quatro autoras, que também são personagens do livro, saíram de São Paulo, com destino a Grão Mogol, cidade histórica do Norte de Minas Gerais, onde nasceu Maria Gaivota, bisavó da filósofa Sueli Carneiro, uma das principais referências do feminismo negro no país. Lá, mães e filhas – Bianca e Cecília, Sueli e Luanda – contam com a ajuda da professora Ivana, que pesquisa a história da região, para saber mais sobre Maria Gaivota e sobre o contexto da cidade em que ela viveu. Apesar de não participar da escrita do livro, Sueli é uma inspiração desse trabalho e referência na discussão do feminismo, principalmente o feminismo negro.
“A personagem principal é a Cecília [filha de Bianca, biógrafa de Sueli]. É para ela que falamos sobre memória e sua importância, pois acreditamos que a construção de genealogias femininas é importante para fortalecer identidades”, explica Ivana. Ela conta que os textos genealógicos, que narram as relações das protagonistas femininas com familiares – mães, avós, tias, filhas, netas ou bisavós – possibilitam conectar essas mulheres, que são fortalecidas por esses laços e pelo pertencimento aos seus grupos.
Da tese ao livro
A discussão de A dança das memórias teve início quando Bianca Santana estava terminando a tese de doutorado em Ciência da Informação na Universidade de São Paulo (USP) e queria chegar, ao menos, à bisavó de Sueli, mas não conseguia contato com os arquivos de Grão Mogol. Em um evento de arquivologia, onde apresentou seu trabalho, a então doutoranda pediu ajuda para contatar pessoas que conhecessem os arquivos da cidade mineira, e Ivana, pesquisadora sobre a história do local há mais de 20 anos, lhe foi apresentada.
“Com o apoio de estagiários, busquei o registro de batismo de Maria Gaivota na Matriz de Santo Antônio de Grão Mogol”, explica Ivana. “Eu o enviei para Bianca e, a partir daí, começamos a conversar sobre as dificuldades de pesquisar as genealogias das pessoas negras e, especialmente, das mulheres. A filha dela, Cecília, que tinha sete anos, disse que também queria fazer pesquisas e escrever junto. As conversas desenrolaram, e convidamos Luanda, a filha de Sueli, para se juntar a nós na aventura da escrita para crianças.”
A tese de Bianca Santana foi transformada em livro e publicada em 2021 pela Companhia das Letras, com o título Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro. Em 2025, já pela editora Fósforo, ela publicou o livro Apolinária, dedicado à filha. Apolinária era a avó de Cecília. Ivana conta que, ao final da escrita de A dança das memórias, em 2020, Cecília manifestou o desejo de conhecer a sua genealogia.
Arquivo como lugar de direitos
“Escrever como personagem é a chance de apresentar às crianças a potência do arquivo para fornecer os subsídios para a construção da memória. O arquivo é lugar de garantia de direitos, de cidadania”, diz Ivana Parrela. Segundo ela, o foco das autoras foi mostrar, de forma leve, mas reflexiva, como a pesquisa em ciências humanas e sociais pode fornecer elementos para construção de memórias, e que isso é um direito de todos. Sueli Carneiro cresceu sem muito contato com a memória da bisavó. Portanto, um dos grandes méritos das pesquisas de Bianca foi conectar essas duas mulheres à sua história familiar. “No livro há diversos toques nesse sentido: o quanto é possível saber da história local a partir dos arquivos; como é o percurso para chegar ao tema a ser pesquisado; como, de modo bem pragmático, usamos cada tipo de documento para a construção da história biográfica”, explica Parrela.
Ao tratar da ancestralidade em um livro infantil, as autoras alcançam um público que ainda carece de conhecer e aprender mais sobre referências negras. “No início, pensamos que seria até mais difícil, mas percebemos que estávamos escrevendo sobre mulheres para meninas (não só para elas), criando legitimação de espaços e de expressão”, afirma a professora da ECI.
Ivana ainda destaca que falar da história de Sueli e Bianca é uma oportunidade para ressaltar um elemento importante na luta feminista, o esforço de mães trabalhadoras que ainda desenvolvem carreiras paralelas de pesquisa. Em meio a uma história feita de encontros, memórias e busca da ancestralidade, o livro também leva a pensar na tripla jornada das mulheres (mãe, profissional e pesquisadora), como nos casos de Sueli e Bianca e em como pesquisar a história das mulheres negras em arquivos pelo Brasil.
O fio condutor
Como traz o título, a obra ainda fala sobre dança, que entrou como um fio condutor da narrativa. “Luanda é uma dançarina profissional, uma pesquisadora da dança, que discute a memória do movimento. No momento da escrita do texto, a Cecília estava encantada pela dança e capoeira. Então, esse tornou-se um elo perfeito para discutir a história das duas, filhas de mulheres pesquisadoras e militantes”, explica a docente.
A obra foi publicada pela Editora UFMG, por meio do selo Estraladabão – dedicado a publicações infantojuvenis – em coedição com a Crivo Editorial, pelo selo Crivinho. A publicação contou com apoio institucional dos governos federal e estadual, via Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Secult-MG), por meio da Lei Paulo Gustavo (Edital LPG 08/2023 – Territórios e paisagens culturais).
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