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Obituário

Teuda Bara, morta nesta quinta, recebeu medalha como ex-aluna de destaque da UFMG

Atriz cursou Ciências Sociais na Universidade e começou sua trajetória nas artes cênicas em um teatro-jornal do DA da Fafich nos idos de 1970

Por Ewerton Martins Ribeiro

Grupo Galpão encenando espetáculo 'De tempos somos', durante o Festival de Inverno da UFMG de 2017, no auditório da Reitoria
Teuda e Grupo Galpão no 49º Festival de Inverno da UFMG: celebração da vida
Foto: Foca Lisboa | UFMG

A atriz mineira Teuda Bara, que morreu nesta quinta-feira, 25, aos 84 anos, foi aluna do curso de Ciências Sociais (Antropologia) da UFMG, no qual se formou em 1974. Em setembro de 2021, no âmbito das comemorações dos 94 anos da Universidade, ela recebeu a Medalha de Honra da instituição, concedida a ex-alunos de destaque.

O velório de Teuda Bara ocorreu nesta sexta-feira, 26, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, em cerimônia aberta, onde se reuniram familiares, amigos e fãs da atriz. Teuda morreu em decorrência de complicações de uma fratura sofrida há cerca de duas semanas, após uma queda em casa.

“Hoje é um dia de luto não apenas para a cultura mineira, mas também para a UFMG”, lamentou a reitora Sandra Regina Goulart Almeida. “Teuda Bara foi uma ex-aluna que teve uma participação muito grande na vida da Universidade. Ela impactou a formação do teatro em Minas e no Brasil e nos deixa um legado maravilhoso”, afirmou.

Teuda Bara em 2010, durante encenação de 'Till, a saga de um herói torto', no gramado da Reitoria
Teuda em ‘Till, a saga de um herói torto’, encenado em 2010 no gramado da Reitoria
Foto: Chris Okamoto | UFMG

Sorriso aberto, sempre
Paulo Roberto Saturnino Figueiredo, professor aposentado da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG e diretor da unidade na gestão 1986-1990, foi um dos tantos que lamentaram a morte da “amada e velha amiga”, ícone do teatro mineiro, nas redes sociais. “A Teuda já era grande artista da vida, ela e sua risada quase imoral. No início da década de 1980, resolveu formalizar o óbvio. E galgar à cena teatral”, lembrou o amigo, em postagem que fez no Facebook, na qual fez questão de relembrar histórias vividas ao lado da companheira de geração.

“Naqueles anos saudosos e mais felizes, estertores da ditadura militar, havia naturalidade em coisas inimagináveis nesses nossos tempos hipócritas e moralistas. Teuda era orgulhosa porta-bandeira de tempos menos caretas”, disse, antes de relembrar passagens de sua vida vivida com grande liberdade. “Teuda era das pessoas mais consensualmente amadas que passaram por minha existência, e sempre com alegria. Isso valia muito mais que um grande diamante não polido, e impossível de avaliar”, afirmou. “E uma certeza. A Teuda merecia morrer num dia de alegrias e encontros reconfortantes”, garantiu, lembrando que sua morte ocorreu no dia Natal.

“Vou me lembrar de você sempre assim, Teuda, com seu riso farto que tanto me inspira! Sei que você já está dando boas gargalhadas em outro plano. Você fará muita falta, mas continuaremos por aqui te festejando sempre nos palcos da vida”, saudou Marcos Antônio Alexandre, professor da Faculdade de Letras especializado em teatro. “Luz que não se apaga. Maravilha das maravilhas surgidas nas Minas, veneno antimonotonia. Teuda fulgura em mil infinitos”, também anotou Sérgio Diniz, produtor cultural da UFMG, um dos muitos que tiveram o prazer de trabalhar e conviver com a atriz em suas passagens pela Universidade.

Teuda Bara no auditório da Reitoria
Auditório da Reitoria lotado em 2017; na primeira fila, Teuda Bara, um pouco antes de ser levada ao palco pela companhia artística que fundou
Foto: Foca Lisboa | UFMG

Teuda e a UFMG

Teuda Magalhães Fernandes nasceu em Belo Horizonte em 1941. Filha de profissionais que se dividiam entre o trabalho burocrático e as artes (o pai foi um major do Corpo de Bombeiros, mas tocava trombone de vara, e a mãe, uma enfermeira-cantora), ela nunca frequentou cursos de formação teatral. Sua carreira nos palcos começou no início dos anos 1970, quando ainda era aluna do curso de Ciências Sociais da UFMG. Mas logo ela largaria esses estudos para investir tudo em sua promissora carreira no teatro.

Algum tempo depois, Teuda partiu para São Paulo, para trabalhar com Zé Celso Martinez (1937-2023). No início dos anos 1980, voltou para Belo Horizonte, onde se inscreveria no que seria o berço do Galpão: a oficina de teatro realizada por George Froscher e Kurt Bildstein, membros do Teatro Livre de Munique, no Festival de Inverno da UFMG de 1982 – evento que, naquele ano, foi realizado em Diamantina.

Ali Teuda Bara se aproximou dos atores Eduardo Moreira, Wanda Fernandes (morta em 1994) e Antônio Edson. Dos encontros dessa turma nas mesas de bar de Diamantina, nasceria o Galpão, fundado ainda naquele ano, com a participação também de Fernando Linares. Nas décadas seguintes, Teuda e seu grupo seriam presenças recorrentes nos eventos culturais da UFMG, com várias apresentações nos auditórios, teatros e gramados da Universidade.

Teuda Bara com a mão na boca, mandando um beijo para a plateia, durante espetáculo 'De tempos somos', encenado na UFMG
Um beijo…
Foto: Foca Lisboa | UFMG

Como uma despedida
A última apresentação do grupo na Universidade ocorreu em 28 de julho de 2017, com o espetáculo De tempos somos, que abriu o Festival de Inverno daquele ano. Teuda Bara não constava no elenco do espetáculo, formatado nos moldes de um sarau, mas quem estava no auditório da Reitoria na ocasião lembra de uma cena que marcou a sessão. No fim da apresentação, a decana – que assistia ao espetáculo da primeira fila, em meio à comunidade da UFMG – foi levada pelos demais atores ao palco, para tocar e cantar com eles a última música, para a surpresa do público.

Atriz cuja trajetória se confunde com a própria trajetória do teatro mineiro, Teuda Bara tem também importantes participações em filmes (como em O palhaço, de Selton Mello, em 2011) e em novelas (como em Meu pedacinho de chão, escrita por Benedito Ruy Barbosa e dirigida por Luiz Fernando Carvalho, em 2014). Na última década, paralelamente à sua atuação no Grupo Galpão, ela também encenou espetáculos mais intimistas ou pessoais, como Doida (2015) e Luta (2019), dois marcos da história das ribaltas do estado.

Teuda Bara com os braços abertos, olhando para a plateia, durante espetáculo 'De tempos somos', encenado na UFMG
…e um abraço, já cheios de saudade
Foto: Foca Lisboa | UFMG

A história de vida da atriz é contada no livro Teuda Bara: comunista demais pra ser chacrete (Editora Javali, 2016), do jornalista João Santos. O livro começou a ser escrito quando o autor cursava jornalismo na UFMG e estagiava na assessoria de comunicação do Grupo Galpão. “Para escrever a obra, conversei com várias pessoas, mas o que me norteava era sempre a visão da Teuda. Quando eu falo sobre ela, estou falando, na verdade, sobre nosso país, sobre o teatro, sobre nossas vidas, mas sempre a partir da perspectiva livre e libertadora que Teuda carrega”, demarca o autor.

“Referência do teatro brasileiro”, ícone que “deixou legado fundamental para as artes cênicas”. Assim Teuda foi saudada pelo Ministério da Cultura, em nota. “Com trajetória marcada pela excelência artística, pela inovação e pelo compromisso com a cultura brasileira, Teuda Bara contribuiu de forma decisiva para a formação de público, a valorização do teatro de grupo e a projeção nacional e internacional das artes cênicas produzidas no Brasil. Sua atuação deixa um legado de relevância histórica e simbólica para a cultura nacional”, disse a pasta.

Categoria: Pessoas

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