Documentário aborda relações da comunidade com a Casa da Glória, ícone de Diamantina
Produção da TV UFMG apoiada pela Embaixada dos EUA realça afetos e memórias por meio de relatos, sons e outras materialidades
Por Beatriz Tito Borges
“Mais um filme sobre a Casa da Glória?”. Foi a pergunta que a jornalista Olívia Resende, da TV UFMG e diretora de Passos de uma casa, ouviu ao informar a uma servidora da casa que faria um documentário sobre o icônico patrimônio histórico de Diamantina, cidade mineira que foi o maior centro de extração de diamantes do mundo no século 18.
Passos de uma casa não é só “mais um filme” sobre a estrutura secular que carrega o nome da sua primeira moradora, casa de freiras e de geólogos, sede da coroa portuguesa, Igreja Católica e, por fim, instituto aberto ao público para visitação. O documentário se diferencia em sua proposta. “A ideia era contar histórias de pessoas comuns, que sempre olharam para a casa, mas que nunca entraram ou que tiveram algum contato especial. Queríamos fugir da história oficial, com grandes heróis e reviravoltas”, explica Olívia.
Por ter a maior parte de sua estrutura em madeira, a Casa da Glória estava infestada de cupins. Em 2022, foi selecionada em um edital de preservação cultural aberto pela Embaixada dos Estados Unidos. Desde então, os recursos têm sido aplicados em reformas e dedetização. Em fevereiro de 2024, a TV UFMG chegou a Diamantina, a pedido da embaixada, que contratou a organização Story Center para auxiliar na produção de um documentário com foco na divulgação para o público internacional.
Com pouco tempo de gravação e a casa em reforma, a equipe teve de ser criativa. “A Casa da Glória não estava como ela é quando está aberta para visitação. As paredes estavam todas vazias, com buracos de martelo. Tudo estava guardado. A gente pediu licença para colocar as fotos guardadas e outros elementos nos lugares que escolhemos”, conta Olívia.
Experimentação
Algumas imagens também são do arquivo da TV UFMG, de quando a Casa da Glória funcionava normalmente. Ela está fechada para reformas desde 2020, sem previsão de reabertura. Essa condição não foi impedimento para a gravação e abriu espaço para a experimentação. Olívia comenta que havia muita coisa guardada. “Nós pedimos autorização para mexer nesses objetos que fazem parte da casa, como um piano antigo, máquina de escrever, vidros. Também exploramos o som de areia usada em laboratórios de laminação”, relata.
O professor Jalver Machado Bethônico, da Escola de Belas Artes da UFMG, auxiliou na captação dos sons. “É como se a voz da casa estivesse permeando todas as vozes que formam o documentário. Íamos para a casa de madrugada para capturar sons. Capturamos o som do passadiço de dentro e fora dele”, explica Olívia. “Qual seria a voz da casa? E qual a perspectiva dela? Ela conta muitas histórias, tem materialidades e acústicas diferentes”, relata.
Integrada ao cotidiano
O local sedia desde 1979 o Instituto de Geologia Eschwege, administrado pela UFMG, que oferece ensino e treinamento em geologia de campo que atraem estudantes de todo o país. A maioria dos entrevistados para o documentário tem relação com o Instituto, a exemplo de Maria Giovana Parisi, ex-aluna e professora do Instituto de Geociências da UFMG, e Augusto Ribeiro e Gilson Batista, funcionários da Casa da Glória.
“A Casa da Glória é um patrimônio da comunidade, porque ela abriga a sua história. É por isso que as pessoas precisam frequentar o espaço”, diz Olívia. Ela enfatiza a importância de promover um olhar sobre a casa integrada ao cotidiano comum, “seja de uma pessoa que trabalhou lá, ou de alguém que apenas teve a oportunidade de visitá-la”, como é o caso de Marcelo Brant, artista visual entrevistado, que tem a Casa como inspiração para a sua arte.
Passos de uma casa dá voz a pessoas como Marcelo, que mantiveram diferentes relações com o espaço, construindo memórias e experiências diversas. Além de preservar a memória da Casa da Glória, o documentário também salienta a importância da troca entre a comunidade e o patrimônio histórico. “É uma via de mão dupla. As pessoas fazem parte da história da casa, mas a casa também faz parte da história dessas pessoas”, afirma Olívia.
Com duração de 18 minutos, o filme terá sua exibição inaugural no dia 10 de março, na Sala de Sessões da Reitoria, em sessão exclusiva para pessoas da comunidade da UFMG e para convidados da Embaixada dos EUA. Em Diamantina, a estreia será nas próximas semanas para um público mais amplo. Assista ao trailer da produção.
Equipe
Direção e montagem: Olívia Resende
Roteiro e pesquisa: Olívia Resende e Ana Fatorelli
Produção: Olívia Resende e Beatriz Abrahão
Produção executiva: Ana Fatorelli
Imagens: Lucas Tunes e Samuel do Vale
Design sonoro: Jalver Bethônico
Som direto: Samuel do Vale
Mixagem de som: Bruno Medeiros
Motorista: Pedro Campos
Tradução para o Inglês: Júlia Peres
Revisão de textos: Josiane Pádua e Tiago de Holanda
Edição de imagens: Marcia Botelho, Marcelo Duarte e Otávio Zonatto
Videografismo: Marianna Teixeira
Consultoria: Eduardo de Jesus (Cedecom UFMG) e Amy Hill (StoryCenter)
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