Sob pressão climática, Amazônia muda estratégia para sobreviver à seca
Adaptação é sinal de resiliência do bioma, mas especialistas da UFMG alertam para a queda na produtividade, menor absorção de carbono e risco elevado de incêndios
Por Centro de Conhecimento em Biodiversidade
Estudo liderado por pesquisadores da UFMG, da Universidade de Oxford e do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (INCT/CNPq/MCTI) revela que a Floresta Amazônica vem mudando seu funcionamento nas últimas quatro décadas. A pesquisa indica que a vegetação está se tornando mais tolerante à seca, como resposta direta ao aumento do calor e da escassez de água. Ao revelar esses sinais precoces de transformação, a ciência ajuda a antecipar riscos e orientar ações de conservação para evitar perdas irreversíveis na maior floresta tropical do planeta.
A pesquisa mostra que as mudanças são mais evidentes no sul e no leste da Amazônia, regiões historicamente mais castigadas pelo estresse climático recente. Nessas áreas específicas da bacia, a floresta apresenta hoje um comportamento mais estável durante a estação seca, quando observada por sensores de satélites. Esse padrão está associado a plantas com folhas consideradas mais duras e resistentes, características típicas de vegetação adaptada a ambientes áridos.
Riscos da adaptação e metodologia de pesquisa
Embora possa aumentar a resistência à falta de água, essa resistência gera custos como menor produtividade e redução na absorção de carbono, importante para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Além disso, essas transformações no funcionamento das plantas e da floresta podem elevar o risco de incêndios em regiões vulneráveis. “Identificamos um sinal claro de mudança funcional da floresta que pode servir como alerta precoce sobre a perda de resiliência frente às mudanças climáticas”, afirma o professor do ICB Milton Barbosa, um dos autores do estudo.
A análise mostra, também, que o impacto vai além do desmatamento. A pesquisa combinou medições em campo de milhares de árvores com 40 anos de dados de imagens de satélite em nove países. Essa integração de dados transformou observações históricas da Terra em uma ferramenta poderosa para monitorar riscos e adaptações emergentes.
“Ao integrar dados de campo e satélites, transformamos observações históricas em ferramenta poderosa para monitorar riscos e adaptações emergentes na Amazônia”, explica Geraldo Wilson Fernandes, professor do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução no Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG e coordenador do Centro de Conhecimento em Biodiversidade e também autor do estudo.
Impactos na biodiversidade e segurança humana
O método utilizado na pesquisa detectou sinais sutis que indicam que o estresse já está gravado na floresta. Os autores afirmam que os resultados não mostram uma conversão imediata da Amazônia em paisagem aberta, mas o sinal de alerta é preocupante porque essas mudanças afetam toda a teia de vida, desde insetos e aves até grandes mamíferos que dependem do equilíbrio do ecossistema.
Segundo o grupo de pesquisadores, uma vez que os seres humanos fazem parte dessa rede, a estabilidade do clima e a disponibilidade de água estão diretamente relacionadas à integridade da floresta. Eles concluem que a ciência busca transformar os alertas em conhecimento para orientar políticas públicas, pois a produção de alimentos e a segurança das populações dependem de decisões informadas e de uma conservação efetiva baseada em evidências.
O estudo reforça, ainda, que há tempo hábil para agir, mas a ação exige monitoramento contínuo e ações de mitigação urgentes. A preservação da biodiversidade amazônica é essencial para evitar que esses sinais iniciais evoluam para transformações funcionais irreversíveis. Assim, estratégias de conservação devem ser priorizadas para garantir que a floresta continue exercendo seu papel vital no equilíbrio global.
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