UFMG conclui primeira etapa de restauração da Casa da Glória
Obra é realizada com investimentos da Embaixada dos Estados Unidos; restauro mantém características originais da construção
Por Luana Macieira
•Com Ariane Gervásio
A UFMG recebeu, nesta quarta-feira, dia 4, representantes da Embaixada dos Estados Unidos (EUA) e da comunidade de Diamantina para uma visita técnica à Casa da Glória. Na ocasião, eles conheceram a primeira etapa das obras de restauração do espaço, iniciadas em 2022 com financiamento do Departamento de Estado dos EUA.
Construída no século XVIII e reconhecida como um dos ícones da cidade histórica de Diamantina, a Casa da Glória foi fechada à visitação pública em 2020, durante a pandemia de covid-19. Na mesma época, foi constatada uma infestação de cupins na edificação. O processo de restauro inclui o controle da praga, intervenções estruturais – mantendo-se as técnicas tradicionais utilizadas na construção (adobe e pau a pique) – e o redesenho das instalações elétricas e da pintura. As obras estão sendo realizadas com autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Nesta primeira etapa, já foram concluídos os espaços da biblioteca e alguns dormitórios. A previsão é que os trabalhos sejam finalizados até 2027, com a reabertura da visitação ao público. Até o fim das obras, o governo norte-americano deve investir mais de R$ 1,2 milhão, valor proveniente do Fundo de Embaixadores para Preservação do Patrimônio Cultural.
“A Casa da Glória tem um peso cultural e histórico inegável. Ela é o cartão-postal de Diamantina. A cidade, inclusive, ganhou portais na entrada que remetem ao passadiço. O monumento é a identidade visual da cidade”, destaca o professor e vice-diretor do Instituto de Geociências (IGC) da UFMG, Tiago Amâncio Novo.
Em 1979, a Casa da Glória foi incorporada como órgão complementar do Instituto, após o conjunto arquitetônico ter sido adquirido pelo então Ministério da Educação e Cultura (MEC) para sediar o Instituto Eschwege, que posteriormente passou a se chamar Centro de Geologia Eschwege (CGE). No espaço, são ministrados cursos na área de geologia de campo e mapeamento geológico para estudantes de todo o Brasil.
Tiago destaca que a reabertura da Casa no próximo ano vai reforçar sua vocação como polo de aprendizagem. “Diamantina se desenvolveu inicialmente com a prospecção de ouro, e depois foi descoberta a presença de diamantes. A cidade tem grande relevância científica, porque, neste Centro, são realizadas diversas pesquisas sobre a evolução geocientífica da região”, disse.
O arquiteto Ciro Martins explicou que o primeiro sinal da necessidade de restauração foi a presença de cupins e outros insetos xilófagos, que se alimentam de madeira. Após uma investigação inicial, constatou-se que o problema não era pontual. “Retiramos o forro, o piso e descascamos o reboco das paredes para expor a estrutura de madeira. Os cupins haviam comprometido boa parte dessa estrutura. Foi necessário remover grande quantidade de madeira já apodrecida e realizar um processo de descupinização, peça por peça, com inspeção mecânica e aplicação de inseticida em todos os elementos de madeira da edificação. Como a estrutura do prédio é inteiramente de madeira, tivemos de restaurá-la completamente. Também foi realizado um trabalho preventivo, como ação de manutenção que deverá ocorrer periodicamente a partir de agora.”
O restauro estrutural também incluiu a demolição de paredes e a remoção de adobes antigos. “Houve reparo estrutural completo, com reconstrução de paredes, portas e janelas, além de diversos acabamentos em banheiros e pinturas. Agora estamos instalando a nova rede elétrica, que antes era embutida e provocava riscos de incêndio por ficar sobre o forro de madeira”, explicou.
Histórias de vidas eternizadas
Além da apresentação da etapa já concluída da restauração do espaço, houve o descerramento de uma placa, com a presença da reitora Sandra Regina Goulart Almeida e do prefeito de Diamantina, Geferson Giordani Burgarelli. A reitora relembrou o início da parceria com a Embaixada dos Estados Unidos, destacando a importância do trabalho conjunto com outras instituições de ensino, como a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), para a recuperação do espaço.
“É muito importante estar aqui em Diamantina e restaurar este espaço para que ele volte a receber estudantes de todo o Brasil que vêm estudar. A Casa da Glória preserva a memória e eterniza histórias de vida, que também são histórias do nosso país iniciadas nesta casa no século XVIII. Estamos muito felizes por termos chegado até aqui e agradeço, de coração, o apoio de todos que participaram desse trabalho de restauração”, disse.
Ruth Urry, adida cultural da Embaixada dos EUA no Brasil, mostrou-se feliz em acompanhar o trabalho em execução na Casa da Glória. Ela contou que o Fundo de Embaixadores para Preservação do Patrimônio Cultural foi criado em 2001 e já apoiou mais de 1 mil projetos em 130 países ao redor do mundo. “A Casa da Glória agora faz parte dessa família global, mostrando a força da união entre Brasil e Estados Unidos. O lugar guarda a história de muitas pessoas e representa a memória e a conexão entre gerações. É muito bom ver que a UFMG trabalhou com tanto empenho e cuidado, superando desafios técnicos complexos”, destacou.
O evento também contou com a reexibição do documentário Passos de uma casa, lançado pela TV UFMG em 2025, que registra a importância cultural da Casa da Glória para a comunidade local.
Restauração de memórias
A professora Maria Giovanna Parizzi, do IGC, foi uma das responsáveis pela elaboração do projeto de restauração que concorreu ao financiamento da Embaixada norte-americana. Ela contou que sua história com a Casa da Glória vem de família, pois sua mãe estudou ali quando o local ainda funcionava como colégio de freiras.
“Minha mãe nasceu na cidade de Felizberto Caldeira, também conhecida como São Gonçalo do Rio Preto. Quando eu fui estudar Geologia, descobri que o colégio da minha mãe havia se tornado um instituto de pesquisa em geologia que pertencia à UFMG. Então, para mim, que até então não conhecia bem a história da minha mãe e da sua infância, foi uma maneira de criar um vínculo com ela. Cada vez que eu vinha para a Casa da Glória realizar trabalhos técnicos como estudante de Geologia, era muito especial. Eu dormia e ficava imaginando: será que minha mãe dormiu aqui?”, emocionou-se.
A professora acrescentou que sua paixão pela geologia também veio de família, pois seu avô era apaixonado por cristais. Para ela, a restauração da Casa da Glória é importante não apenas para suas memórias familiares, mas para as memórias de toda a região. “Eu sou geóloga porque tem um lado meu, minha alma, de alguma forma, está aqui. Essa casa foi uma escola para mim, por isso a sua restauração virou uma missão pessoal. Ela é muito importante para a comunidade, há várias pessoas que passaram por aqui. A casa faz parte da alma de muita gente, então eu fico emocionada com toda a sua história, que não é só a minha, nem é só da minha mãe, é de muita gente que tem uma paixão por essa casa e pelo que ela representa para elas.”
História antiga
As construções que compõem a atual Casa da Glória são de épocas e estilos distintos. A parte principal é uma edificação setecentista, cuja data exata de construção é desconhecida. Acredita-se que a Casa tenha sido erguida entre 1775 e 1800. Não se sabe ao certo o responsável pela obra, mas ela é atribuída a Manuel Viana, marido de Dona Josefa Maria da Glória, que morou no local até 1813, fato que levou a residência a ficar conhecida como Casa da Glória.
No início do século XIX, o imóvel passou a ser administrado pelo Estado, servindo de residência para os intendentes. O local recebeu visitas de grandes estudiosos como Auguste de Saint-Hilaire, John Mawe, Barão Wilhelm Ludwig von Eschwege, J.B. Von Spix, Von Martius, entre outros.
Em 1864, a Casa foi transferida para o domínio da Igreja e transformada em sede do Segundo Bispado de Minas Gerais, tornando-se residência oficial dos bispos de Diamantina. Por volta de 1867, com a finalidade de abrigar religiosas da ordem de São Vicente de Paulo, ocorreram algumas transformações no imóvel, que passou a ser conhecido como Orfanato e, posteriormente, como Educandário Feminino de Nossa Senhora das Dores.
Ícone da cidade de Diamantina, o chamado Passadiço da Glória foi construído para ligar as duas casas que funcionavam como educandário e orfanato. A obra, que causou polêmica à época, acabou se integrando à paisagem diamantinense e tornou-se símbolo da campanha Diamantina – Patrimônio Cultural da Humanidade. O título foi concedido à cidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 1999.
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