Spoiler: escolher dá trabalho
Optar por uma profissão significa traçar um caminho de vida com suas rotinas, exigências, frustrações e possibilidades de sentido
Por Larissa Assunção Rodrigues | professora do Departamento de Psicologia da UFMG
Há uma pergunta que atravessa gerações com uma naturalidade quase ingênua e, ao mesmo tempo, com um peso que poucos reconhecem de imediato: “o que você quer ser quando crescer?”
Quando somos crianças, ela vem leve. Cabe em respostas rápidas, fantasiosas, até encantadoras: astronauta, médica, jogador de futebol, professora, policial, cantora… Não há compromisso com o real; há liberdade pura, ainda não cobrada, ainda não confrontada.
Mas o tempo passa. E, sem muito aviso, a mesma pergunta muda de tom. Ela aparece nos formulários de inscrição do Enem, nas fichas de processos seletivos, nas conversas familiares carregadas de expectativa. Surge nas comparações silenciosas com colegas que “já decidiram”. E, de repente, já não se trata mais de um exercício de imaginação, mas de uma escolha que parece definitiva, urgente e, para muitos, sufocante.
O curioso é que, justamente quando a pergunta ganha mais peso, a liberdade parece menor. Há quem escolha para agradar. Há quem escolha para evitar conflitos. Há quem escolha por medo: medo de não passar, medo de não dar certo, medo de decepcionar. E há, ainda, os que sequer escolhem: apenas seguem o fluxo, como se a vida fosse um trilho já traçado por outros.
Entretanto, aqui está o ponto que raramente se diz com clareza: escolher é um ato de liberdade e, exatamente por isso, é também um ato de responsabilidade. Não existe escolha neutra. Não existe escolha sem consequência. E não existe liberdade verdadeira quando se tenta terceirizar o peso da decisão.
Ser livre não é poder escolher qualquer coisa sem consequências – é poder escolher sabendo que haverá consequências. É assumir a autoria da própria trajetória, mesmo quando ela não sai exatamente como o planejado.
Viktor Frankl lembrava que a liberdade humana não é um espaço vazio onde tudo é permitido sem custo. Ela é, antes, a capacidade de responder às circunstâncias com consciência. E responder implica assumir: assumir riscos, limites, renúncias. Escolher uma profissão não é apenas escolher um título. É escolher um caminho de vida com suas rotinas, suas exigências, suas frustrações e, também, suas possibilidades de sentido. Talvez por isso tantos jovens se sintam paralisados: não é só a escolha que está em jogo, é o medo do que ela revela sobre si mesmo. Porque, no fundo, a pergunta “o que você quer ser?” esconde outra, bem mais incômoda: “o que você está disposto a sustentar?”
- Sustentar o esforço de anos de formação;
- Sustentar dúvidas ao longo do percurso;
- Sustentar o fato de que nenhuma escolha elimina completamente a incerteza.
E é aqui que a liberdade deixa de ser confortável. Ser livre não é poder escolher qualquer coisa sem consequências – é poder escolher sabendo que haverá consequências. É assumir a autoria da própria trajetória, mesmo quando ela não sai exatamente como o planejado. Isso não significa que a primeira escolha precise ser perfeita, nem que ela determine para sempre quem você será. A vida, felizmente, não é um contrato irrevogável. Caminhos podem ser revistos, rotas podem ser recalculadas. No entanto, há algo que não pode ser delegado: o compromisso com a própria decisão no momento em que ela é tomada.
Talvez ninguém tenha dito isso com a devida honestidade: não é o vestibular que define o seu futuro – é a forma como você se posiciona diante das escolhas que ele exige. Entre a pressão externa e o desejo interno, há um espaço. E é nesse espaço que mora a liberdade. Mas ela não vem sozinha. A liberdade vem acompanhada – sempre – da responsabilidade de sustentar aquilo que se escolhe.
E talvez crescer seja exatamente isto: perceber que a pergunta nunca foi apenas o que você quer ser, mas, sobretudo, quem você está disposto a se tornar para sustentar essa escolha.
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