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99 anos

Com a feira do Jequitinhonha, ‘Domingo no campus’ inicia contagem regressiva para a festa do centenário

Evento bateu recorde de público: mais de 3 mil pessoas passaram pela UFMG em um dia de sol e calor

Por Ewerton Martins Ribeiro e Enzo Beber

Milhares de pedaços de bolo foram distribuídos ao público que esteve no campus na manhã de domingo
Foto: Jebs Lima | UFMG

Neste fim de semana de sol e calor em Belo Horizonte, a UFMG ampliou as comemorações de seus 99 anos com um evento para toda a comunidade, o Domingo no campus, que é realizado no campus Pampulha duas vezes por ano, uma a cada semestre. A “cereja do bolo” da festa de aniversário (sim, teve bolo para quem participou, e de doce de leite) foi a Feira de Artesanato do Vale do Jequitinhonha, que estreou num domingo pela primeira vez em sua história, para somar forças com o tradicional evento de abertura dos portões da Universidade à comunidade da cidade. A collab rendeu frutos: nesta edição, o Domingo no campus bateu seu recorde de público, superando os 3 mil participantes, conforme estimativa da Pró-reitoria de Administração (PRA).

Alamanda: Jequitinhonha como território de tradição e resistência
Foto: Jebs Lima | UFMG

“Esta edição nos propiciou a oportunidade de termos um encontro maior com esse território, que tem essa força cultural tão forte e rica”, comentou a vice-reitora Alamanda Kfoury, ao ver os caminhos e espaços da Universidade tão cheios de vida. “O Vale do Jequitinhonha não é um território só de tradições, de saberes e de sabores, mas também de resistência e de resiliência. Não se trata de um mapa no Brasil, apenas, mas de um Brasil dentro do Brasil, que precisa ser valorizado e reconhecido”, demarcou a dirigente. “Nesse sentido, este evento nos possibilitou estabelecer um aprendizado mútuo: eles aprenderem conosco e nós aprendermos com eles”, afirmou Alamanda.

A força do Norte-Nordeste
Como sempre ocorre, a Feira do Jequitinhonha foi montada (numa força-tarefa que tomou todo o sábado deste fim de semana) nos corredores que circundam a tenda da Praça de Serviços. No auge do evento, era tanta gente circulando por ali – ou tentando circular, em meio a corredores lotados de gente – que foi preciso paciência, se o que se queria era percorrer todos os caminhos da feira e conhecer as várias peças e obras em exposição.

Bordado coletivo de artesãs do Jequitinhonha
Foto: Bruno Lanna | UFMG

Neste domingo, a feira expôs produções de 120 artesãos de 30 diferentes municípios do Jequitinhonha, organizados em 55 associações produtivas. O evento segue até sábado, 19, com amostras representativas da vasta e riquíssima produção artístico-cultural do Jequitinhonha – tear, bordado, tecelagem, cerâmica, madeira e palha, além de produtos da agricultura familiar da região integram a feira, cuja expectativa é de receber cerca de 25 mil pessoas, no somatório dos sete dias de evento.

Uma imagem da potência cultural do trabalho desenvolvido por esses artesãos pôde ser vista em uma obra têxtil confeccionada coletivamente por várias bordadeiras do Jequitinhonha, que retrata o trajeto do rio homônimo desde sua nascente, em Diamantina, até sua foz. O bordado viajou de cidade em cidade, onde cada artesã deu sequência ao trabalho da anterior, seguindo o mesmo estilo visual, de modo que o resultado final do trabalho se mantivesse como uma surpresa até o final.

A iniciativa foi articulada pelo Polo Jequitinhonha, e seu resultado passou a integrar o acervo da Universidade. Ele servirá de base para o estudo de alunos dos campos da conservação e da museologia, segundo Bruno do Carmo Assis Lanna, servidor da Pró-reitoria de Cultura (Procult) que atuou na organização da Feira.

Recorde de público: mais de três mil pessoas passaram pelo ‘Domingo no campus’
Foto: Jebs Lima | UFMG

Juntos somos mais fortes
Uma importante característica da feira – e do trabalho desenvolvimento pelos artesãos do Jequitinhonha, de modo geral – é o associativismo. Jaquelene Cassia Ferreira, originária do quilombo Vila Santo Isidoro, do município de Berilo, participou da feira pela primeira vez. Integrante do grupo “Mãos que criam”, ela expunha peças não apenas de sua própria lavra, mas de várias outras produtoras que não estavam presentes, representando-as. “Aqui tem coisas do grupo inteiro, sabe?”, comentou a crocheteira. “Minha participação está sendo uma experiência inexplicável. O pessoal trata a gente muito bem, fomos muito bem recebidos”, contou.

Jaquelene: trabalho cooperativo gera sinergia
Foto: Jebs Lima | UFMG

Segundo Sérgio Diniz, produtor cultural da Procult e coordenador da feira, o caso de Jaquelene – isto é, de produtores estreantes na feira – é quase excepcional. “Hoje, a maioria dos artesãos aqui presentes já nos acompanham há muitos anos”, contou. Já a perspectiva coletiva é mesmo disseminada entre os produtores. “Às vezes, um mesmo estande conta com produtos de uns 20 artesãos. Nós gostamos muito desse associativismo. Ele é central no trabalho desenvolvido por lá”, comentou. Ao ser instado a sugerir um só destaque entre o mundo de ofertas da feira, Sérgio cravou: “Dessa vez, trouxemos os produtores de queijo Cabacinha, que é tradicionalíssimo no Vale. Vale experimentar!”

A Universidade abraça a cidade
Este foi o primeiro Domingo no campus realizado pela atual gestão (2026-2030), hoje comandada pelo reitor Alessandro Moreira e pela vice reitora Alamanda Kfoury. Ao mesmo tempo, foi também o evento de abertura da contagem regressiva para o centenário da UFMG, que será completado no dia 7 de setembro de 2027. Um painel luminoso foi instalado no gramado da Reitoria, para a contagem. “Então essa é uma conjunção de fatores que aumenta ainda mais a nossa alegria, a nossa disposição e o nosso orgulho de estar neste momento, vivendo este evento tão maravilhoso”, comentou Alamanda, enquanto vestia – literalmente – a camisa do evento pela primeira vez e seguia para encontrar o reitor. Juntos, os dois percorreram as atividades, conversando com os oficineiros, enquanto aguardavam o momento de comandar o coro de “parabéns” e de cortar o bolo.

Alessandro: aproximação com a sociedade
Foto: Jebs Lima | UFMG

“Tudo isso que estamos fazendo aqui é muito importante, pois se relaciona diretamente com o nosso objetivo, que é realizar uma gestão que se aproxime cada vez mais e realmente da sociedade”, afirmou Alessandro. “Eu e Alamanda queremos fazer uma gestão que realmente abrace a cidade de Belo Horizonte, que faça uma boa interlocução com o estado de Minas Gerais e com o Brasil. Nesse sentido, o Domingo no campus é uma atividade muito importante, porque materializa já há muitos anos esse objetivo da Instituição, que é ter suas portas abertas para a sociedade”, demarcou.

Essa abertura para a sociedade tenta alcançar todas as faixas etárias, e um exemplo disso pôde ser encontrado na atividade que Letícia Oliveira, que é graduada em Biblioteconomia pela UFMG e agora cursa Pedagogia na Universidade, realizava no gramado da Escola de Música. Acompanhada do namorado (que no momento da entrevista havia acabado de chegar de uma corrida pelo campus), Letícia atuava em uma oficina de mediação de leitura com bebês. “É sempre bom ver os bebês mexendo com livros, é muito gostoso e inspirador”, comentou a estudante. Ela é bolsista de extensão no programa Bebeteca, que trabalha a leitura com crianças de zero a seis anos, e que foi uma das mais de 30 atividades realizadas no evento.

Domingo de encontros: à esquerda, Júlia (no carrinho) com seus pais, André e Aline; à direita, Daniele com a filha Manu
Foto: Jebs Lima | UFMG

A importância da extensão
“Queremos um centenário que tenha essas três marcas: a UFMG de todos os tempos, de todos os saberes e de todas as pessoas. Isso é algo que se relaciona com nossas metas de gestão, que são incluir, inovar e cuidar”, comentou o reitor Alessandro Moreira, situando a Feira do Jequitinhonha e as demais atividades do Domingo no campus – todas de cariz extensionista – no escopo dessas metas.

“A verdade é que a extensão é indissociável da pesquisa e do ensino. Ela é uma forma pela qual o conhecimento se coloca a serviço da sociedade, e a sociedade, em contrapartida, traz elementos para que possamos aprimorar os nossos conhecimentos e o nosso ensino”, conceituou Alamanda. “De certa forma, a extensão talvez seja o espaço mais privilegiado que temos para desenvolver o tripé ensino, pesquisa e extensão.”

Glaucinei: novo paradigma propõe produção de conhecimento junto com a sociedade
Foto: Jebs Lima | UFMG

“Pensando sob essa perspectiva, podemos dizer com segurança que estamos hoje em uma nova era”, acrescentou Glaucinei Rodrigues Corrêa, pró-reitor de Extensão. “Nas décadas de 1950, 1960, quando a pesquisa se integrou institucionalmente às universidades, a pergunta era: como se produz conhecimento? Hoje, a pergunta mudou. O que queremos saber é: como se produz conhecimento com a sociedade?”, disse.

“Sob essa nova perspectiva, a extensão ganha um papel ainda mais fundamental. Esse é o desafio que estamos nos propondo hoje, no século 21: construir conhecimento junto com a sociedade, e não apenas para ela”, sintetizou o pró-reitor. No gramado da Música, a aluna Letícia reiterava esse mesmo ponto, mas sob a perspectiva prática, enquanto trabalhava a leitura com os bebês: “O mais legal do Domingo no campus é isso: a gente acaba interagindo com muitas pessoas que não estão normalmente no cotidiano da Universidade.”

E falando em bebês…
Daniele Oliveira, bibliotecária da Faculdade de Educação (FaE), trouxe sua filha Manu de apenas quatro anos para aproveitar o dia no campus Pampulha. Segundo ela, o dia era uma oportunidade de viver a Universidade fora da rotina do expediente de trabalho – e as duas realmente aproveitaram. Durante a manhã, mãe e filha exploraram diversas atividades pelos gramados da UFMG. Uma, em especial, chamou mais a atenção da pequenina – inesperadamente. “Era um projeto de escovação de dentes, da Odontologia. Lá tinha uma explicação de como era a escovação. Ela adorou! Na atividade ela ganhou escovas de dentes novas e fez uma garrafinha sensorial, além de ter ganhado um balão também”, disse Daniele, enquanto Manu mostrava orgulhosa o seu balão para a reportagem.

O fim de semana também acabou propiciando um encontro inesperado para Daniele e Manu, como costuma ser a praxe no Domingo no campus. Também bibliotecária na FaE e colega de turma de Daniele durante a graduação em Biblioteconomia na UFMG, a servidora Aline Pimenta foi à Universidade junto com a filha Júlia e com o marido para curtir o evento. Sem que tivessem planejado, as duas se encontraram. Hoje alunas da pós-graduação, elas destacaram a importância do evento para a comunidade acadêmica, sob a perspectiva da extensão. “É muito importante para nós, os estudantes, termos esse tipo de experiência no ambiente da UFMG. Essas atividades são uma forma de a comunidade devolver, retribuir tudo o que adquire aqui”, completou Daniele.

Evento para todas as idades
O Domingo no campus foi o dia de servidores levarem seus filhos à Universidade, mas houve também quem levasse, ao contrário, os pais. Foi o caso de Ludmila de Paula Soares, produtora cultural da Pró-reitoria de Cultura (Procult) e estudante de Nutrição na UFMG, que esteve acompanhada de Elson de Paula e Vicencia Soares de Paula. Entre as várias atividades de que participaram, Ludmila e os pais fizeram alguns exames de rotina na tenda da saúde, que foi montada logo à frente da Reitoria, ao lado do Monumento ao Aleijadinho.

Lá o trio recebeu orientações nutricionais e os três puderam medir, entre outras coisas, a pressão. “Ela está muito boa. Está maravilhosa!”, brincou Nelson, sorrindo, ao ver o resultado. Não era para menos a festa: apesar da previsão da possível chuva, o domingo foi de céu aberto e muito calor. Para refrescar, copos de água mineral foram distribuídos gratuitamente. Antes, o trio passeou pela Feira do Jequitinhonha. “Compramos algumas utilidades, uns artesanatos. Uma delas delas foi aquele queijo cabacinha especial. Já está tudo na botija”, disse Elson, confirmando que o queijo do Vale era mesmo um dos grandes destaques da festa.

Ludmila, Vicencia e Elson de Paula em conversa com a reportagem do Portal UFMG: check-up de saúde e compras na Feira do Jequitinhonha
Foto: Jebs Lima | UFMG

Um domingo que começou bem antes
No campus Pampulha, o evento é realizado duas vezes por ano. Meses antes, a Pró-reitoria de Extensão (Proex), em conjunto com as demais entidades institucionais responsáveis pela programação, abre um edital para que professores, servidores técnico-administrativos e estudantes possam propor atividades a serem realizadas no dia da festa. “As atividades selecionadas para o Festival são, em certa medida, aquelas que a gente já faz em nosso dia a dia. Porém, para integrarem o evento, elas precisam estar reconfiguradas de uma forma lúdica, prazerosa – a atividade precisa ser agradável para a população como”, resumiu Glaucinei Rodrigues Corrêa, pró-reitor de Extensão.

O que está em jogo, nesse ponto, é a reconfiguração lúdica de atividades que muitas vezes têm em suas bases uma natureza preponderantemente acadêmica. “Uma comissão organizadora faz a avaliação e aprova as atividades propostas. Para o dia de hoje, por exemplo, conseguimos selecionar 34 atividades para serem ofertadas por nossa comunidade às pessoas que estão participando do evento”, ele explicou. Segundo Glaucinei, 60% das pessoas que frequentam o Domingo no campus não integram a comunidade universitária. O índice remete a um levantamento feito em 2025, com base na primeira edição do evento realizada naquele ano. “Esse é um dado muito interessante, pois mostra que a população da cidade, de uma maneira geral, tem se apropriado da Universidade e das atividades que propomos”, finalizou o pró-reitor.

Criança apaga ‘fogo’ em atividade da brigada de combate a incêndios
Foto: Jebs Lima | UFMG

O álbum de fotos do evento está disponível no Flickr. A TV UFMG também acompanhou a movimentação neste domingo. Assista à reportagem:

Categoria: Extensão

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