Desinformação desafia retorno das altas coberturas vacinais, adverte gestora da Opas
Na segunda edição de seminário sobre defesa da vacinação, Francielli Tardetti e outros especialistas defenderam estratégias como campanhas específicas por faixa etária e imunização extramuros
Por Teresa Sanches
A desinformação e as fake news estão entre as 10 ameaças à saúde pública que precisam ser combatidas para a reconquista das altas coberturas vacinais e a proteção da população dos 35 países-membros da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). A afirmação é da enfermeira e consultora nacional em imunização do escritório da Opas no Brasil, Francielli Fontana Sutile Tardetti. Ela participou da abertura do 2º Congresso brasileiro em defesa da vacinação, que começou na terça-feira, dia 6, e prossegue nesta quarta-feira, dia 7, com mais de 640 profissionais, pesquisadores e gestores de saúde de 20 estados brasileiros reunidos no auditório do Centro de Atividades Didáticas 1 (CAD 1), no campus Pampulha.
Segundo Francielli Tardetti, os países das Américas têm muitos desafios e fragilidades nos sistemas públicos de saúde, mas também motivos para comemorar, como o fato de ser a primeira região a erradicar a varíola, em 1971, a inclusão da vacinação de adolescentes contra o HPV por 32 dos 35 países-membros da Opas e o controle do sarampo no Brasil, que valeu a certificação de país livre da doença, em 2024.
Estratégias diferenciadas
A gestora da Opas destacou a necessidade de campanhas de comunicação embasadas em informações confiáveis e científicas, o monitoramento e a avaliação contínuos dos processos de trabalho dos serviços de saúde, a criação de estratégias diferenciadas por faixa etária, parcerias intersetoriais e divulgação de experiências exitosas.
Para o médico e diretor do Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI) do Ministério da Saúde, Eder Gatti Fernandes, as estratégias diferenciadas, como vacinação extramuros nas creches, escolas e presídios, por exemplo, são fundamentais para facilitar o acesso da população às vacinas. “Sabemos que as fake news e o negacionismo são fatores que concorrem para a baixa vacinação e precisam ser combatidos com informação, mas também precisamos garantir o estoque de vacinas e uma estrutura logística para fazê-las chegar ao braço da população.”
O orçamento público, na sua opinião, é um dos grandes desafios, em razão da dependência que o país tem da importação dos imunizantes. “Somos reféns da variação do dólar. Além disso, as tecnologias incorporadas às vacinas as encarecem, o que exige que nós, em conjunto com os gestores municipais e estaduais, negociemos com os laboratórios”, justificou Fernandes.
Eder Gatti também apresentou as estratégias do Ministério da Saúde para manutenção do Brasil livre do sarampo, diante da ameaça dos mais de 2,3 mil casos e quatro óbitos já registrados neste ano nos países membros da Opas. “Estamos com campanha de vacinação em dez municípios fluminenses, na Região Metropolitana de Belém e em dois estados do Sul do país. Não podemos impedir que uma pessoa não vacinada entre no Brasil. Por isso, temos que responder aos casos inevitáveis, fazer busca ativa e promover imunização em áreas estratégicas”, afirmou.
Quanto à produção de doses suficientes para a cobertura vacinal dos brasileiros contra doenças como a dengue, o diretor do PNDI afirmou que o Ministério da Saúde está em negociação com laboratório chileno para produção de vacina de dose única, com tecnologia brasileira, para cobertura da faixa etária de 2 a 59 anos. “Também estamos em negociação sobre a vacina contra a chikungunya, que será utilizada como estratégia específica. Além disso, uma avaliação criteriosa vem sendo feita pelo PNI sobre doenças respiratórias que atingem especialmente gestantes e bebês, com maior risco de mortalidade, e sobre hepatite e coqueluche”.
Parceria de sucesso
Na avaliação do subsecretário de Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, Eduardo Campos Prosdocimi, a parceria com a UFMG, desde 2021, por meio do Opesv da Escola de Enfermagem, tem sido fundamental para ações estratégicas, como o investimento em 252 vacimóveis (vans adaptadas) que ajudam os municípios em campanhas fora dos centros de saúde e iniciativas de multivacinação direcionadas por faixa etária.
Para o presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Minas Gerais, Edivaldo Farias da Silva Filho, “a parceria com a pesquisa realizada na Universidade vem contribuindo para a reconquista da vacinação no estado, porque dá suporte às políticas públicas estratégicas”.
A diretora da Escola de Enfermagem, Sônia Maria Soares, reforçou o compromisso da Universidade, nos seus quase 100 anos, e da Escola de Enfermagem, com 92 anos, “com a vida, a prevenção e o futuro”. Ela destacou o papel dos profissionais da enfermagem, “que colocam a vacina no braço da população, acolhem e levam informação confiável para as pessoas nas salas de vacinação dos municípios”. E acrescentou: “vacinação não é só um gesto técnico, mas um ato de responsabilidade social, que exige parceria com governos e a comunicação”.
A líder do Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação da Escola de Enfermagem da UFMG (Opesv) e presidenta do Congresso, professora Fernanda Penido Matozinhos, reiterou a crescente participação dos profissionais e gestores nesse compromisso, “que tem início, mas não tem fim”. Ela pontuou a sistematização científica do microplanejamento, a oferta de cursos para técnicos, médicos, enfermeiros e agentes de saúde como conquista da parceria, que se estenderá a todos os municípios de Minas Gerais.
A parceria se deu com a pesquisa pioneira Estratégias para o aumento de coberturas vacinais em crianças menores de dois anos e adolescentes no estado de Minas Gerais, Brasil: uma pesquisa-ação, coordenada por Fernanda Matozinhos. Os resultados do estudo, que confirma o crescimento da cobertura vacinal entre crianças, estão disponíveis em matéria publicada no site da Escola de Enfermagem. “A comunicação científica, a reorganização do trabalho e o monitoramento são essenciais para o sucesso da reconquista da alta cobertura vacinal”, acrescentou a professora.
Revista e logomarca
Durante o congresso, foi lançada a nova logomarca do Opesv e o primeiro volume da revista Experiências exitosas, que reúne relatos de experiências de sucesso de dezenas de municípios mineiros. Todos alcançaram as metas de cobertura vacinal.
Participaram da mesa de abertura, realizada na manhã de terça-feira, dia 6, a pró-reitora de Pós-graduação, professora Isabela Pordeus, representando a reitora Sandra Regina Goulart Almeida, a subsecretária de Saúde de Belo Horizonte, Taísa Drumond Martins, a presidenta do Controle Social da PBH, Lourdes Machado, e a presidenta da Sociedade Brasileira de Imunização, Mônica Levi.
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