Cuidado com as palavras: o que não dizer a pessoas em sofrimento mental
Neurociência e psicologia analisam o poder das falas para a mente e para o corpo
Por Ruleandson do Carmo
“Depressão é frescura”, “você precisa ser forte”, “isso é falta de Deus”, “tem gente muito pior do que você, tem gente com câncer”. Essas são frases comumente dirigidas a pessoas em sofrimento mental e que menosprezam doenças como depressão, ansiedade e outros transtornos, que atingem mais de um bilhão de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O problema é que falas desse tipo podem agravar o quadro, provocando estresse, intensificação da tristeza e isolamento social, como indicam estudos do campo da neurociência e reflexões da psicanálise.
O poder das palavras
De acordo com a neurocientista Emily Pires, pessoas em sofrimento mental estão mais sensíveis ao que é dito, o que leva quem convive com indivíduos em processo de adoecimento psíquico a redobrar os cuidados com as palavras. Segundo ela, as palavras não são apenas sons: são estímulos diretos ao cérebro, capazes de acionar áreas ligadas à linguagem, à emoção, à memória e à resposta ao estresse.
Por isso, explica a neurocientista, quando escutamos uma palavra, o cérebro a interpreta como um sinal de segurança ou de ameaça. Palavras agressivas, negativas ou repetidamente críticas podem ativar estruturas como a amígdala, envolvida na resposta ao medo e ao estresse, aumentando a liberação de hormônios como o cortisol. Esse processo contribui para o desencadeamento de ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração e adoecimento emocional.
Em contrapartida, explica Emily, palavras de apoio e de validação ativam áreas do cérebro ligadas à regulação emocional, como o córtex pré-frontal, estimulando a liberação de neurotransmissores associados ao bem-estar, como a dopamina e a serotonina. Esse processo favorece a saída do cérebro do estado de alerta constante e a entrada em um estado de maior equilíbrio emocional.
Tanto a exposição contínua a palavras negativas e críticas quanto a palavras positivas e de validação promove a neuroplasticidade cerebral – a capacidade de o cérebro se adaptar a experiências repetidas. “As palavras moldam, sim, a forma como o cérebro funciona, como interpretamos o mundo e como lidamos com as emoções. Por isso, a linguagem tem papel fundamental na saúde mental”, detalha Emily.
No campo da psicanálise, a psicóloga e mestranda em Estudos Psicanalíticos pela UFMG Dalila Amorin também ressalta o poder das palavras para a saúde mental. De acordo com a pesquisadora, ao definir a psicanálise, Freud destaca o lugar central que a linguagem ocupa na regulação da saúde física e psíquica.
No texto O tratamento psíquico, Freud argumenta sobre a indissociabilidade entre corpo e mente no que se refere ao sofrimento mental. Ele exemplifica que sentimentos como a raiva podem provocar contrações musculares ou até paralisias temporárias sem causa neurológica, decorrentes de mudanças de humor. Nesse sentido, a palavra seria a via de acesso entre o psíquico e o somático, configurando-se como uma “magia empalidecida”, no sentido de veicular uma ideia carregada de afeto que ressoa no corpo, explica Dalila.
Para a mestranda, as palavras têm peso no sofrimento mental, tanto porque podem ferir, deixando marcas que não são fáceis de esquecer, quanto porque permitem falar sobre essas feridas, revisitar as angústias e elaborar novos sentidos a partir delas.
O que dizer e o que não dizer
Diante do poder das palavras – especialmente quando se trata de emoções mais sensíveis, como as de pessoas em sofrimento mental –, torna-se necessário refletir sobre o que dizer e o que evitar nessas situações.
Para o psicólogo e mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Paraná, não existe uma fórmula única: o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Segundo ele, o mais importante é evitar palavras ou expressões que desmereçam a dor emocional e o adoecimento psíquico, deslegitimando o que a pessoa sente ou sugerindo que a superação do sofrimento dependa apenas de força de vontade.
A doutora em Saúde Mental e Coletiva pela Universidade Estadual de Campinas, Mariana Barbosa Pereira, concorda e acrescenta: “Mais importante do que dizer algo a pessoas em sofrimento mental é saber se calar e ouvir de forma atenta e acolhedora. É preciso deixar a pessoa falar sobre o que está passando e sentindo, permitindo que a escuta ativa e um diálogo sincero estabeleçam, de maneira natural, o que deve ou não ser dito naquele contexto, sem nunca desmerecer a dor de quem enfrenta um sofrimento psíquico.”
Série em áudio
A Rádio UFMG Educativa disponibiliza a série completa, em áudio, produzida pelo jornalista Ruleandson do Carmo e com sonoplastia de Cláudio Zazá, nas principais plataformas sonoras, como Spotify e SoundCloud.
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