Ação de permanência, banco de instrumentais é inaugurado na Faculdade de Odontologia
UFMG investiu R$1,5 milhão no BIO, que fará empréstimo de 124 itens para estudantes assistidos
Por Teresa Sanches
A aprovação na chamada regular do Sisu 2025 para entrada no curso de graduação em Odontologia da UFMG exigiu dos candidatos que disputaram uma das 144 vagas ofertadas a pontuação mínima de 756,64 pontos (ampla concorrência) e 682,82 pontos (vagas reservadas). Contudo, a conquista da vaga em uma das graduações mais disputadas da Universidade não garante a permanência de muitos estudantes, que desistem do curso logo no 3º período, quando deparam com o alto custo dos instrumentais de uso individual, necessários para o início de sua prática acadêmica como cirurgiões-dentistas.
Nessa etapa da formação, a lista completa de instrumentais, com 124 itens, chega a custar R$ 10 mil. E até o final do curso, no 10º período, o estudante pode investir mais de R$ 30 mil na compra dos materiais. Para reduzir a evasão e contribuir para a permanência dos estudantes até a conclusão da graduação, especialmente os que apresentam condição de maior vulnerabilidade socioeconômica, a Faculdade de Odontologia inaugurou, na segunda-feira, 18, o seu Banco de Instrumentais Odontológicos (BIO).
Com investimento que poderá chegar a R$1,5 milhão até 2027, viabilizado pela Política de Permanência da UFMG, a proposta do BIO é que, a cada início de período, o aluno pegue emprestado o kit de materiais relacionado à sua etapa de formação e o devolva no final do semestre, para que outros também possam utilizá-lo. A compra desses materiais que comporão o acervo do BIO, para utilização do 3º ao 10º período do curso, será realizada de forma escalonada, até 2027, pela Fundação Universitária Mendes Pimentel (Fump).
A vice-diretora da Faculdade de Odontologia, Patrícia Valente Araújo, conta que a iniciativa surgiu da visita das pró-reitoras de Assuntos Estudantis, Licínia Correia e Shirley Miranda (adjunta), no ano passado. “Elas nos questionaram sobre a alta taxa de evasão do curso, principalmente nos períodos iniciais, quando a primeira lista de instrumentais é solicitada. Assim, acordamos em propor alguma ação afirmativa para reduzir a evasão e contribuir para a permanência dos estudantes no curso”, disse a dirigente. Em abril deste ano, foi instituída comissão permanente, composta de representantes de estudantes, servidores técnico-administrativos e docentes dos quatro departamentos, para traçar um diagnóstico da situação e sugerir ações, que resultaram no banco de instrumentais.
Primeiros empréstimos
Durante a solenidade de inauguração do BIO, que teve a participação da reitora Sandra Regina Goulart Almeida e do vice-reitor Alessandro Fernandes Moreira, também foi lançado o primeiro edital, disponível no site da Faculdade, para a seleção de 20 estudantes matriculados no 3º período neste segundo semestre, classificados nos níveis I, II e II, conforme avaliação da Fump. Os selecionados terão acesso à lista completa dos instrumentais necessários para o início de suas atividades de atendimento clínico.
As inscrições estão abertas até segunda-feira, 25 de agosto, e devem ser efetuadas por meio do preenchimento de formulário eletrônico que se encontra disponível no edital. O estudante deverá informar o número de matrícula e nível socioeconômico definido pela Fump. Os materiais serão entregues aos selecionados no dia 8 de setembro.
Resistência e afeto
“Quando eu falo do BIO, não consigo separar a política da vida. O BIO é uma resposta coletiva, construída com coragem política, mas também com cicatrizes pessoais. Eu senti na pele o que significa abrir uma lista de materiais e deparar com um custo impossível [de arcar]. Eu sei o que é precisar fazer vaquinha, fazer bico, pedir emprestado para um colega. E também o que é entrar em uma sala e se sentir menos pertencente, porque o material que você segura não é seu. O BIO é nosso. Ele é fruto de uma história de resistência, mas também de afeto.”
O depoimento da estudante do 9º período Maria Paula Augusta Silva, representante dos estudantes na comissão, resume a experiência de muitos estudantes com trajetória similar. “Que ninguém precise escolher entre estudar e sobreviver, entre se sentir parte da Universidade e fora dela. É como falei com a excelentíssima reitora: Devemos acrescentar mais uma palavra àquelas que definem a UFMG: uma universidade pública, gratuita, inclusiva e de qualidade. Humildemente, acrescento ‘de permanência’.”
A professora do Departamento de Odontologia Social e Preventiva (Dosp) Andreia Maria Araújo Drummond, que presidiu a comissão, acrescenta que a implementação do BIO também se beneficiou da troca de experiências com outras instituições de ensino superior pública, participantes da 59ª Reunião da Associação Brasileira de Ensino Odontológico (Abeno), realizada no ano passado. Esse diálogo levou a comissão a concluir que o projeto do BIO precisava ser institucionalizado, para garantir apoio estratégico e engajamento de toda a comunidade. Assim, foi realizado um inventário dos materiais existentes na Faculdade e das doações recebidas da Fump, da Polícia Federal e de outros colaboradores. “Conseguimos todo o apoio da direção e também de outros setores da Faculdade, como os de patrimônio, infraestrutura e tecnologia da informação, para conseguirmos um local adequado para armazenamento do material que comporá o BIO”, relata Andreia Drummond.
Andreia Drummond acrescenta que o BIO terá duas modalidades de empréstimo aos estudantes: a lista completa dos instrumentais por período e materiais avulsos. A segunda foi instituída para também alcançar estudantes não assistidos. A documentação que rege o funcionamento do BIO já está aprovada pela Congregação do curso, incluindo os documentos de empréstimo e devolução, as listas de materiais atualizadas por períodos e o termo para recebimento de doações.
A pró-reitora de Assuntos Estudantis, Licínia Corrêa, observa que a evasão do curso de Odontologia é uma preocupação antiga da Universidade, que vinha sendo tratada por meio de editais para auxílio à aquisição de material acadêmico. “No entanto, como o material específico da Odontologia é muito caro, os alunos assistidos acabavam não conseguindo complementar os custos. E na busca constante por soluções, chegamos ao BIO, com base no trabalho exemplar feito pela comissão instituída pela direção da Faculdade. Agora, nossa expectativa é que, até 2027, o BIO passe a ser autossustentável por meio de doações”, projeta a pró-reitora.
Na avaliação de Licínia, “a criação do BIO agrega os três eixos da política de permanência da UFMG: a permanência material, possibilitada pela assistência estudantil, a permanência simbólica, que tem o sentido de pertencimento à Universidade, e a permanência acadêmica, com a oferta de acesso ao instrumental essencial para que o estudante tenha uma trajetória acadêmica de sucesso”.
Também participaram da solenidade de inauguração o diretor da Faculdade de Odontologia, João Batista Novaes Júnior, a pró-reitora adjunta de Assuntos Estudantis, Shirley Miranda, a presidente da Fump, Teresa Kurimoto, integrantes da comissão e estudantes e servidores técnico-administrativos da Faculdade de Odontologia.
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