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UFMG Educativa

O negócio é incluir: empreendedorismo e pessoas com deficiência

Com transcrição na íntegra, radiodocumentário focaliza a experiência de Gabriel Aquino, que transformou barreiras em uma empresa que gera renda para 20 parceiros e alcança mais de 300 PCDs por ano

Por Ruleandson do Carmo

Com Breno Rodrigues

Este texto é a transcrição completa do radiodocumentário O negócio é incluir: empreendedorismo e pessoas com deficiência, com o objetivo de torná-lo acessível a pessoas surdas.

Ruleandson do Carmo [repórter]: Você acha que nessa questão da audiodescrição, a audição, as palavras se tornam os olhos da pessoa?

 

Gabriel Aquino [empresário cego]: É muito mais que isso. A audiodescrição para pessoa com deficiência visual é oportunidade de acesso ao mundo. É oportunidade de ampliar seus repertórios de conhecimento que foram negligenciados para nós durante toda vida. Então, quando a gente fala de acesso, é muito mais do que enxergar, mas é participar, é estar junto, é poder sentar-me numa plateia de teatro, colocar um fone de ouvido e participar daquela peça, daquele espetáculo, como qualquer outra pessoa. E a partir, ali, de uma narração, eu vou poder ter minha própria impressão sobre aquele espetáculo, se eu gostei, se eu não gostei, o que eu achei belo, o que eu admirei.

O dono dessa voz é Gabriel Aquino, 33 anos. A fala dele destaca a história de vida e empreendedorismo do diretor da Vias Acessíveis, uma trajetória comum a grande parte das pessoas com deficiência ou PCDs empreendedoras no Brasil.

A maioria delas transforma em negócio as limitações impostas por uma sociedade não adaptada às deficiências físicas e mentais. Após a manifestação de um glaucoma congênito que o cegou aos 16 anos, Gabriel cursou pedagogia e viveu em sala de aula a dificuldade de uma educação pouco inclusiva. Decidido a fazer a diferença, ele trabalhou durante 10 anos como técnico de acessibilidade. Foi quando conheceu a audiodescrição e fundou em Belo Horizonte, em 2020, a Vias Acessíveis: o negócio gera uma renda fixa mensal para 20 parceiros e colaboradores e beneficia mais de 300 PCDs todos os anos. Gabriel transformou experiências de exclusão e falta de acessibilidade em motivação para criar soluções e empreender no próprio campo da inclusão:

“Então, nesses momentos, seja de cabeça baixa, sem acesso, ou quando um professor estava empenhado a me ensinar, aquilo ali ia despertando alguma coisa dentro de mim e, com 16 anos, eu cravei uma frase na minha cabeça, que até hoje eu a carrego com muita alegria, que é: ‘Eu preciso trabalhar e estudar para que pessoas com deficiência visual não passem o que eu estou passando aqui na escola’. Era muito angustiante aqueles momentos, né? Então, ali, com 16 anos, eu me coloquei esse propósito e eu tenho muita alegria de dizer que até hoje, agora com 33, eu ainda sigo com esse propósito, né? De trabalhar e estudar ferramentas, métodos, maneiras, recursos que possam auxiliar pessoas com deficiência visual a não ficarem num lugar de exclusão, num lugar de falta de acesso.

“Muitas das vezes o que acontece é a falta de informação, né? Então as pessoas não sabem como auxiliar uma pessoa cega, não sabem quais recursos existem e a partir do momento que eu tomei conhecimento, a informação é tudo, né? Então, a importância de a gente estar aqui falando sobre isso é justamente porque levar informação muda muitas vidas. E quando eu tive conhecimento dessas principais tecnologias, elas mudaram a minha vida. Hoje a Vias Acessíveis completa seis anos já de atuação no cenário cultural. A gente tem trabalhado, principalmente, com audiodescrição para espetáculos, teatros, danças, festivais, óperas, tudo o que tem nessa área cultural, principalmente, de eventos ao vivo, mas, também, a gente trabalha com diversas áreas, né? Com acessibilidade digital, websites, fazendo palestras, formações e [para] capacitar as pessoas e as instituições a trabalharem, a praticarem mais a acessibilidade”. [Gabriel Aquino]

Gabriel Aquino: empreendedorismo como instrumento de luta por inclusão
Foto: Arquivo pessoal

Assim como o Gabriel, o Brasil possui outras PCDs responsáveis por negócios. Cerca de 27% dos profissionais com deficiência economicamente ativos no país empreendem. Ao todo, são 42 milhões de empreendedores com ou sem deficiência. Os dados referentes a 2022 são do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, o Sebrae.

As dificuldades e a importância do empreendedorismo feito por ou voltado para pessoas com deficiência é o que você vai descobrir no nosso rádio documentário especial. Comigo, Ruleandson do Carmo. E comigo, Breno Rodrigues.

“O negócio é incluir empreendedorismo e pessoas com deficiência” [vinheta].

O Brasil possui quase 14 milhões e meio de PCD’s, 7,3% da população. O levantamento é do censo de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Todas elas são uma minoria social, o grupo cujos direitos sociais são constantemente negados. Além disso, PCD é uma parcela economicamente ativa, grande e que precisa de produtos e serviços específicos para ultrapassar os limites impostos pela sociedade. De acordo com a coordenadora do Afetos, grupo de pesquisa em deficiência, comunicação e acessibilidade da Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG, Sônia Pessoa, a deficiência é uma questão social e não individual: cabe a todas as pessoas garantir a acessibilidade e a inclusão, direitos fundamentais.

“A Lei brasileira de inclusão, a LBI, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, prevê que o Estado forneça produtos e serviços acessíveis às pessoas com deficiência. O que acontece é que entre a previsão da lei e a vida prática cotidiana, existem muitos empecilhos, né? Um deles é que o próprio estado se divide em três esferas, pelo menos, do ponto de vista de governo federal, estado e município e essas atribuições muitas vezes ficam dispersas, né? E nenhuma das esferas assume quem deve cuidar ou se ocupar de determinada função ou fornecimento desses equipamentos.

Apesar de a lei brasileira de inclusão ter 10 anos, existe um discurso corrente de que ainda é muito recente. Ora, uma década é prazo suficiente para que o Estado se organize, planeje, faça a previsão orçamentária e faça uma previsão que contemple todas as áreas da vida social, né? Então é preciso que haja uma distribuição e um grande investimento na percepção cultural da deficiência” [Sônia Pessoa]. 

O empreendedorismo voltado às pessoas com deficiência atua e cresce exatamente no espaço não ocupado pelo Estado. Apesar da importância dos negócios adaptados, a pesquisadora Sônia Pessoa defende: Todas as iniciativas devem ser baseadas no desenho universal, garantindo o uso por pessoas com ou sem deficiência. A estratégia ainda é pouco usada, mas é essencial, especialmente para se pensar em produtos inclusivos desde o projeto inicial, reduzir custos, eliminar a sobretaxa apenas sobre consumidores com deficiência e ampliar o mercado consumidor. O desenho universal ainda não é o padrão, e muita gente exerce um papel social ainda necessário de desenvolver e oferecer produtos e serviços específicos para PCDs. Por isso, a prática virou tema de grupo de pesquisa na Universidade Federal do Maranhão, a UFMA. A coordenadora do Observatório de Inclusão e Economia da Universidade, Samia Martins, explica a relevância do empreendedorismo feito por pessoas com deficiência e também daquele voltado às pessoas com deficiência. 

“É, primeiramente, o reconhecimento como sujeito, como sujeito consumidor, entender as necessidades delas. É muito importante isso, por muito tempo essas pessoas foram excluídas de tudo, excluídas da educação, excluídas inclusive do convívio com a sociedade. Então, você vê os empreendedores que estão pensando nessas pessoas que estão ali, vendo que não só que as pessoas existem, mas que elas têm potencial consumidor, é importantíssimo. E uma sacada muito interessante que essas pessoas têm, é a questão da fidelização desses clientes. Ora, se em outros locais, se com outros empreendedores, eles não conseguem ter esse tipo de acolhimento, esse tipo de atendimento específico, uma vez que você encontra um empreendedor que está ali oferecendo um produto específico para você, então você já fideliza com aquele. Então, é muito importante isso, não só pela questão financeira, pela questão econômica, mas também por essa questão da autoestima de dar valor à pessoa como sujeito, como um ser humano, como um indivíduo que tá ali, também como consumidor” [Sâmia Martins].

Entre as diversas exclusões sofridas por PCD’s, uma delas se dá no mercado de trabalho. No Brasil, apenas 26% das pessoas com deficiência estão empregadas. É menos da metade da taxa de ocupação entre pessoas sem deficiência, atualmente em 61%. Os números do IBGE evidenciam: quando o mercado fecha portas e não cumpre a lei de cotas, empreender vira necessidade para pessoas com deficiência e revela, acima de tudo, um público consumidor pouco atendido. Pode ser a oportunidade para criar negócios de sucesso, revela Sâmia Martins do Observatório da UFMA.

“A questão do trabalho formal, do emprego formal, as empresas elas tendem a burlar bastante. Antes, também, falta socialização. Então, o empreendedorismo, ele tem sido uma alternativa. Então, se é uma alternativa, se as pessoas com deficiência elas têm ido para esse lado, então, que o poder público também consiga ampará-las nesse sentido; nem todo mundo nasceu para ser empreendedor. Poder dar esse apoio a elas, poder ajudá-las, desenvolver, a poder manter o seu negócio mais tempo aberto do que aqueles seis meses, que é sempre mais duro para os empreendedores. Então, que o poder público pudesse ajudar, nesse sentido, as pessoas com a ciência a conseguirem essa alternativa de renda e também fazer com que mais pessoas sem deficiência tivessem esse olhar, esse olhar sensível para as pessoas com deficiência, para como clientes, como pessoas consumidores do seu produto, eu acho que incentivos, incentivos fiscais seria muito interessante também. É um incentivo bem importante, eu acho completamente possível” [Sâmia Martins].

Em BH, além da Vias Acessíveis do Gabriel Aquino, que abriu o nosso radiodocumentário, outras iniciativas do comércio e da prestação de serviços têm PCDs como público-alvo. Uma delas é a Colibri Interfaces e Tecnologia. Criada, a partir de um projeto desenvolvido na UFMG, em 2009, a empresa desenvolve soluções tecnológicas para ampliar autonomia, comunicação, acesso ao trabalho e inclusão social. Entre as principais inovações, a Colibri tem produtos como mouse de cabeça com mais de 1.000 unidades vendidas e um aplicativo de tecnologia assistida baixado mais de 50.000 vezes. É assim que a empresa permite a clientes PCDs: controlar o celular e o computador com movimentos da cabeça, transformar gestos faciais em comunicação para pessoas incapazes de falar e se mover, usar formas de comunicação alternativas para dificuldades de fala, realizar atividades adaptadas para dificuldades de aprendizagem e a transformar movimentos dos olhos em voz, sem equipamentos especiais.

De acordo com a comunicadora Natália Petenussi, representante da Colibri, o propósito é desenvolver soluções para pessoas com deficiência. Hoje, clientes da Colibri, como a palestrante e ex-atleta olímpica Laís Souza, conquistaram autonomia e por meio dos produtos e serviços ofertados também empreendem.

Tudo para o cliente voar solo, como o pássaro que dá nome à empresa, porque tecnologia gera trabalho e renda, ou melhor, autonomia e cidadania para a comunidade PCD.

“A gente tem vários exemplos de pessoas que, com os nossos equipamentos, conseguiram começar a trabalhar ou voltaram, né, a trabalhar. Então, a Laís Souza, ela que administra as redes sociais dela para fazer as palestras dela, ela utiliza, né? Hoje ela é palestrante, a gente utiliza o Colibri. A gente tem a doutora Elane, ela sofreu uma AVC super jovem, com 25 anos, ela cursava a faculdade de medicina, ela é do Paraná, mas ela perdeu a fala e todos os movimentos. E hoje ela é palestrante e ela é médica perita do INSS, passou no concurso e hoje consegue atuar utilizando as nossas tecnologias. E a gente também tem um caso do Robison Chiba, ele sofreu um acidente em 2019, um acidente de moto e ele também perdeu a fala e uma boa parte dos movimentos. E hoje ele usa nossas tecnologias para se comunicar em casa e ele deu a primeira palestra dele no final do ano passado a nosso convite. A primeira palestra após o acidente no Congresso Brasileiro de Fonoaudiologia que a gente participou e foi um momento super emocionante, né? Uma pessoa que trabalhava com a comunicação, que estava na TV, poder voltar a palestrar” [Natália Petenussi]. 

Enfrentando barreiras e preconceitos, a população PCD se une para reivindicar direitos e exigir ser incluída e respeitada. O país tem a Lei Brasileira de Inclusão e a Lei de Cotas, que garantem às pessoas com deficiência acesso à educação, à saúde e ao emprego. Não faltam leis, mas a luta é pela implementação prática. Assim nasceu em 2020 a Associação Nacional de Apoio às Pessoas com Deficiência. Para o presidente da entidade, Abrão Dib, o empreendedorismo é uma das principais alternativas de renda, de sobrevivência, tanto para as pessoas com deficiência quanto para mães e outras pessoas responsáveis por PCDs. É que o grande tempo dedicado aos cuidados de familiares pode dificultar a permanência em empregos formais. Abrão é categórico: o poder público precisa investir em tecnologias assistivas nacionais para baratear o acesso a elas, fortalecer as iniciativas voltadas à população PCD e ampliar políticas públicas garantidoras de autonomia econômica às pessoas com deficiência.

“Infelizmente, não só no Brasil, mas o mundo todo ainda coloca empecilho para a pessoa ter o acesso, por exemplo, à questão da empregabilidade. No Brasil, em especial, nós temos uma Lei de Cotas que não é cumprida. E o que que a pessoa com deficiência faz quando ela não encontra o amparo numa legislação? Ela busca criar o seu próprio negócio. Ela busca ter, ali, na sua casa, uma maneira de conseguir fazer a subsistência da família. No caso, por exemplo, posso citar mães atípicas. Mães que não podem sair para trabalhar porque não têm como deixar o filho, não tem onde deixar o filho. Isso até mesmo por uma falha do próprio Estado, que não tem os locais preparados para uma criança, por exemplo, com transtorno do espectro autista. E ela precisa começar a produzir dentro da casa dela, nos momentos de folga, algo para a subsistência dela. Então, o que nós procuramos é levar a informação para essas famílias, para que elas não fiquem dependendo apenas de uma assistência, de benefício do governo, que elas possam buscar a renda delas. E aí nós investimos na informação e em levar às pessoas com deficiência cursos, maneiras de poder ter o seu próprio negócio, não é? E como buscar se aperfeiçoar cada vez mais [Abrão Dib]. 

A nossa produção procurou o Ministério do Empreendedorismo, da microempresa e da empresa de pequeno porte. Apesar do pedido por informações e dados de iniciativas de apoio ao empreendedorismo voltado a PCDs, o Governo Federal não respondeu até o fechamento deste radiodocumentário.

Uma realidade forte é constantemente repetida por ativistas pelos direitos das pessoas com deficiência. Todo mundo pode, a qualquer momento, se tornar uma pessoa com deficiência. Seja por limitações de mobilidade, visão e fala, impostas pelo avançar da idade, seja por sequela de alguma doença ou acidente. Por isso, a causa deve ser universal: você pode estar defendendo um mundo mais acessível e incluso para si no futuro. E mais do que adquirir produtos ou serviços e aquecer o mercado financeiro, o empreendedorismo voltado a pessoas com deficiência é uma forma de ocupar o mundo com dignidade em todas as dimensões da vida. E é por isso que o negócio é incluir.

Breno Rodrigues e Ruleandson do Carmo para a UFMG Educativa.

O negócio é incluir empreendedorismo e pessoas com deficiência [vinheta].

A Rádio UFMG Educativa disponibiliza o material completo, em áudio, produzido pelos jornalistas Ruleandson do Carmo e Breno Rodrigues, também sonoplasta do material, com audiodescrição da jornalista Cláudia Guarnieri, nas principais plataformas sonoras, como Spotify e SoundCloud

Idealização: Ruleandson do Carmo

Produção e reportagem: Ruleandson do Carmo e Breno Rodrigues

Sonoplastia e edição de áudio: Breno Rodrigues

Audiodescrição: Cláudia Guarnieri

Pessoas entrevistadas: Sônia Pessoa (Afetos – UFMG), Abrão Dib (Associação Nacional de Apoio às Pessoas com Deficiência, Sâmia Martins (Observatório de Inclusão e Economia – UFMA), Gabriel Aquino (Vias Acessíveis) e Natália Petenussi (Colibri Tecnologias Assistivas)

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