Mulheres relatam barreiras para ocupar espaços na ciência
Pesquisadoras destacaram a importância de políticas públicas para a formação e inserção feminina no mercado de trabalho
Por Luana Macieira
As dificuldades enfrentadas pelas mulheres para se tornarem pesquisadoras foram discutidas na mesa-redonda Há políticas públicas para mulheres na ciência? Relatos de experiências, realizada na manhã de hoje, 22, no auditório da Reitoria, como parte da programação da Semana do Conhecimento da UFMG 2026. Participaram da mesa a vice-reitora Alamanda Kfoury, a professora Deborah Malta, da Escola de Enfermagem, a diretora Rosy Mary Isaías, do ICB, e a professora Virgínia Ciminelli, da Escola de Engenharia. A mediação foi feita pela professora Jaqueline Takahashi, pró-reitora adjunta de Pesquisa.
As pesquisadoras convidadas contaram um pouco de suas trajetórias, destacando como as políticas públicas são necessárias para que as mulheres alcancem lugares de destaque no campo da ciência. Jaqueline Takahashi abriu o debate afirmando que, apesar de a maioria dos estudantes de pós-graduação ser composta de mulheres, isso não se reflete nos cargos de gestão e de chefia das universidades e dos institutos de pesquisa. Ela afirmou que, para reverter essa realidade, as políticas públicas precisam ir além de reflexões simplistas.
“Muitas pessoas falam que as mulheres pesquisadoras não alcançam esses cargos mais altos porque também exercem a maternidade e os cuidados domésticos. Precisamos pensar além disso, pois o grupo de mulheres pesquisadoras não é homogêneo. Assim, as políticas públicas precisam ser pensadas de maneira mais integral e com recortes de raça, classe e regionalidade. As políticas devem se tornar sustentáveis para a carreira das jovens pesquisadoras”, disse.
Machismo estrutural
Deborah Malta listou diversos fatores que considera cruciais para explicar a atual realidade das mulheres na pesquisa. Ela apresentou dados que mostram que as mulheres ocupam 52% das vagas na pós-graduação, mas representam apenas 31% dos pesquisadores do mundo. Já nos cargos de gestão das academias de ciências, as mulheres ocupam apenas 19% dos postos.
“O que está por trás da falta de equidade na pesquisa é o machismo estrutural. O Brasil é machista e misógino, e isso é normalizado em nosso país. Somos o quinto país que mais mata mulheres no mundo e, apenas em 1932, conquistamos o direito ao voto – e ainda temos que ouvir, em pleno 2026, pessoas defendendo que as mulheres não deveriam votar. Não podemos mais aceitar esse tipo de pensamento”, desabafou.
À TV UFMG, Deborah Malta falou sobre a importância de políticas públicas para aumentar a presença de mulheres na ciência.
Virgínia Ciminelli, da Escola de Engenharia, destacou que as mulheres são sub-representadas em sua área, embora já existam políticas públicas de incentivo à participação feminina na ciência. “As políticas possibilitam que as mulheres assumam posições de liderança e influenciem as decisões, mas precisamos trabalhar mais para avançar na participação das mulheres na produção de artigos, na pesquisa e na gestão”, disse.
Ela mostrou a evolução da presença de mulheres na Academia Brasileira de Ciências (ABC), órgão criado em 1916. A área de Ciências da Engenharia surgiu apenas em 1996, e Ciminelli se tornou a primeira mulher titular na área em 2009. Ao longo dos anos, a participação feminina na ABC aumentou, e a instituição hoje conta com 19 representantes. “Esse aumento da nossa participação foi um trabalho árduo que ocorreu por meio da criação de um grupo de mulheres que passou a exigir maior representatividade. Nossa participação na Academia não é só um reconhecimento, mas também favorece a ampliação de políticas públicas que promovam a presença feminina na ciência como um todo”, afirmou.
Ciminelli finalizou sua fala mencionando algumas políticas públicas e iniciativas que contribuem para ampliar a participação feminina na ciência, como a Lei 15.124 de 2025, que ampliou a proteção à maternidade e a janela de avaliação da produtividade de mulheres pesquisadoras, e o Programa Aurora, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que promove a concessão de bolsas após o nascimento dos filhos de pesquisadoras.
Mulher negra cientista: padrão ou exceção?
Rosy Mary Isaías iniciou sua fala dirigindo essa pergunta ao público. Rosy é a primeira e única cientista autodeclarada negra a atingir o nível 1A, o topo do escalão de bolsas de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ela explicou que essa conquista é essencial para estimular jovens cientistas negras a sonharem com a carreira de pesquisadora. “As jovens desistiram de sonhar, e estamos vendo isso agora durante as eleições. Elas precisam descobrir que a universidade é um caminho para elas”, disse.
Em sua carreira, Rosy Mary afirma que superou muitas barreiras. Ela desabafou ao contar que, ainda hoje, pessoas demonstram estranheza quando descobrem que ela é negra e dirige o Instituto de Ciências Biológicas (ICB). “Se eu sou a única, onde estão as outras pesquisadoras negras? Os dados mostram que somos a minoria na docência do ensino superior, mas por que as mulheres negras não estão conseguindo alcançar os postos mais altos? As ações afirmativas para provimento de cargos nas universidades precisam ser colocadas em prática, pois vemos que há mecanismos que burlam as leis de cotas que ajudariam as pesquisadoras negras a ocuparem esses espaços”, desabafou.
Ela concluiu sua fala afirmando que se sente responsável por estimular jovens pesquisadoras a seguirem na carreira científica. “Preciso falar com essas meninas para elas não desistirem. É necessário nos articularmos para alcançar a justiça, a equidade, a diversidade e a inclusão. Por isso criei a ‘Confraria Científica das Manas’, um grupo que busca estratégias para ocuparmos os espaços. Juntas, chegaremos lá.”
Mudanças devem ser estruturais
As participantes da mesa afirmaram que as mudanças necessárias para ampliar a presença das mulheres na ciência devem ser estruturais e ocorrer a longo prazo. A vice-reitora Alamanda Kfoury Pereira contou que veio de uma família de quatro mulheres e que passou a vida toda ouvindo seu pai dizer que as mulheres precisavam estudar para ocupar esses espaços.
“Ao estudar, as mulheres conseguem criar oportunidades, mesmo quando elas não são oferecidas. As políticas públicas são importantes, mas é necessário transformá-las em ações concretas no dia a dia. Precisamos mostrar que a educação transforma vidas. Eu não sei o que seria de mim se eu não tivesse estudado. A universidade precisa ser acolhedora, pois ela tem papel importante para que todas as pessoas, sejam homens, mulheres ou pessoas trans, tenham espaço para desenvolver suas potencialidades.”
O reitor Alessandro Fernandes Moreira afirmou que o momento atual brasileiro exige clareza sobre aquilo que é defendido e responsabilidade diante do futuro que a sociedade quer construir. Ele destacou que a ciência, a universidade pública e os direitos das mulheres estão no centro de questões fundamentais para o país.
“A defesa da ciência e da universidade pública é inseparável da defesa da democracia, da igualdade de direitos e das condições para que as mulheres participem plenamente da produção do conhecimento. Essa compreensão orienta o compromisso da UFMG com uma universidade pública, inclusiva, plural e socialmente referenciada”, disse.
Ele acrescentou que, nos momentos em que os discursos negacionistas procuram desqualificar a ciência, a autonomia das universidades é questionada e os direitos conquistados pelas mulheres voltam a ser objeto de contestação, a sociedade não está diante de questões isoladas, mas de disputas sobre os fundamentos da vida democrática e sobre as condições que permitem ampliar a capacidade coletiva de compreender e transformar a realidade.
“É nesse contexto que precisamos pensar na presença das mulheres na ciência. Ao longo da história, as mulheres produziram conhecimento, formularam teorias, realizaram descobertas e transformaram seus campos de atuação. Ainda assim, elas tiveram suas contribuições invisibilizadas, enfrentaram barreiras ao acesso à formação e à carreira acadêmica e precisaram disputar espaços de reconhecimento e decisão. A persistência dessas desigualdades revela que a ampliação da presença feminina não é suficiente, por si só, para assegurar condições efetivas de participação.”
O reitor foi enfático ao defender que o combate aos estereótipos de gênero é uma responsabilidade institucional. “Significa enfrentar mecanismos de exclusão, ampliar oportunidades, promover condições de permanência e assegurar que as mulheres tenham reconhecimento, autonomia e participação nos espaços em que o conhecimento é produzido e as decisões são tomadas. Significa, também, compreender que justiça e equidade exigem mais do que o reconhecimento formal de direitos: requer atenção às desigualdades concretas e compromisso com sua transformação”, concluiu.
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A mesa-redonda foi transmitida pelo canal da TV UFMG no Youtube. Assista:
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